|
|
|
Quem não tem saudade dos antológicos anos da década de 1960 em que pontificaram os Beatles e os Rollings Stones? Época em que Paris era uma festa para a resistência política às ditaduras e os movimentos sociais arrastavam multidões. Anos em que uma nova linguagem expressava o descontentamento e a indignação, em que as superpotências ensaiavam um confronto nuclear, surgia uma vanguarda no cinema, na arquitetura, na música, na literatura, no teatro e nas artes plásticas. Uma inspirada geração de criadores, pensadores, filósofos e intelectuais, desafiava os cânones e se impulsionava para abalar as estruturas estéticas, políticas, conceituais e morais.
Estava em voga a Guerra Fria, motivada pelo auge do comunismo, com o Vietnã e Cuba impondo dura humilhação aos Estados Unidos. A música de protesto em marcha, os Beatles empunhando a bandeira do pacifismo, 1968 na França e no Brasil, Woodstock e a liberdade de expressão, o culto ao prazer e às drogas e as palavras de ordem do “make love, not war”. Cultuavam-se o cinema de Fellini, Truffatu, Godard, Glauber Rocha e Buñuel, o teatro de Nelson Rodrigues e Augusto Boal, os grandes festivais de música e a crença na revolução armada, em Che, Fidel e outros camaradas. O homem invade a lua, a bossa nova traz um novo alento à música brasileira; o AI-5, um balde d’água na liberdade e nas garantias individuais; a censura recrudesce, o mundo em ebulição, o existencialismo em moda, filosofias vicejando em todo o canto, o mundo acreditando numa saída.
Os ingredientes desses anos de rebeldia, insubmissão e efervescência estão mapeados no livro “O silêncio do delator” (Ed. A Girafa, 2005, SP, 544 pgs.), do jornalista e escritor José Nêumane Pinto, numa obra que funde memória político-social e ficção. Romance testamentário de quem viveu os legendários últimos anos de um século em agonia e desencanto, época de veloz escalonamento de valores, mudança de comportamento, debates ideológicos e implosão das velhas estruturas de pensamento, que deram origem a uma cultura que influenciaria definitivamente as décadas seguintes.
Com um texto que funde a linguagem ágil do jornalismo com a densidade de um texto ficcional, o paraibano José Nêumane Pinto, cuja bibliografia inclui livros de poesia, reportagem, romance e crônicas, faz um preci(o)so trajeto por um período que é um divisor de águas na história do Brasil e do mundo, um tempo profético, antecipador do próprio caos e dissolução por que passa o mundo de hoje, globalizado e tecnológico, mas menos poético e provocativo que aquele.
O livro, fiel aos acontecimentos, tem um vezo fragmentário, à luz de um ritmo e uma harmonia que perpassam todo a narrativa, com freqüentes alusões às musicas daquela época, em que os diversos tempos, lugares e acontecimentos se correlacionam, num plano simbiótico.
Personagem principal da história, um certo Marco Antônio, tratado pela alcunha de Coelho, tem nos discos que fazem a cabeça da galera naquele momento o pretexto para introduzir os seus amigos no círculo das grandes novidades e discussões. Sujeito enigmático, coloca-se como um certo guru, incorporando a atmosfera instigante do período. Outro cenário se intercala: o velório de um desiludido professor universitário, João Miguel, em que ele narra as utopias e frustrações de uma geração que sonhava em mudar o mundo, pelas armas ou pelas drogas, e que se vê enterrada com ele.
Um fluxo de consciência e de memória entremeia todo o romance, na cabeça do morto e na lembrança dos amigos nos momentos que antecedem ao sepultamento. Os fatos se sucedem como numa película e numa espécie de trânsito onírico entre o finado e os presentes, é aquele acaba conduzindo o fio da narrativa interferindo na elucidação dos fatos, na ordenação dos pensamentos, no encadeamento das referências e lembranças. As situações nos remetem ao ambiente nostálgico e delicado do filme “As invasões bárbaras”, em que um professor, acometido de um câncer em estágio terminal, reúne-se com os amigos dos tempos de faculdade e passa em revista aos seus anos e às suas ilusões, numa espécie de encontro de contas com a própria vida.
Nêumane saiu-se bem ao fazer o balanço crítico de uma época, sem cair na clicheria ou no lugar-comum, evitando o panfletarismo, a exacerbação saudosista ou o viés sentimental muito comuns em literatura que visa resgatar a história a partir da vivência de quem as conta. É o registro sincero sobre um tempo que não se reproduzirá, um tempo em que a consciência se aliava a uma causa e se sabia por que empunhar bandeiras e lançar os gritos, algo de que carecem os que tentam levantar a batuta para comandar a orquestra da história atual.
No plano da construção formal, o autor concede uma inovação ao dar aos vários personagens o nome de versos de uma canção de Caetano Veloso, tais como Voz do morto, Pés do torto, Cais do porto, Vez de louco, A paz do mundo, Atrás do muro, numa sutil referência a uma visão polifônica representada por uma época multifacética e conturbada.
O silêncio do delator é um romance metafórico, formidável referencial para os que querem compreender a recente história do Brasil e do mundo. Uma obra que nos fala de uma realidade nua e crua: o enterro das utopias, a decrepitude dos sonhos, o fim das ilusões e o estabelecimento de uma nova ordem, impondo o reinado do alheamento e da passividade, a prevalência de uma época de coisificação e etiqueta, em que o mercado é o grande deus, com seu terrorismo e seus fundamentalistas econômicos, que afastam toda a possibilidade de retorno ás utopias.
"O silêncio do delator", de José Nêumanne, lançamento da editora "A Girafa". diagramação de Alessandro Mussato, capa de Newton César, acaba de conquistar o Prêmio Senador José Ermírio de Moraes da Academia Brasileira de Letras.
|