Discurso de Marcos Vinícios Vilaça proferido durante a entrega do Prêmio Senador José Ermírio de Moraes, a José Nêumanne, pelo romance do ano, O Silêncio do Delator, em solenidade da Academia Brasileira de Letras.



Marcos Vinícios Vilaça

   



“Para os que não sabem o que custa a doçura do açúcar a quem o lavra, o conheçam”


          Esta observação, de Antonil, datada do comecinho do século XVIII, José Ermírio de Moraes com ela ainda se defrontou no século XX.
É o contraponto à euforia de Gandavo, no século XVI, ou ao entusiasmo de Brandônio que, no Diálogo das Grandezas do Brasil, reporta-se aos infinitos engenhos de fazer açúcares no Pernambuco do século XVII.
Tem sido senóide a visão daquela agroindústria em nossa terra, terra minha e de José Ermírio de Moraes, nós próprios nascidos na mesma Nazaré da Mata, cidade envolvida por canaviais.
            No entanto, uma coisa é certa. Em cada pé de cana há um pé de gente. Por isso, sempre se encontrará um toque de dramaticidade, na expansão e no declínio do setor econômico-social da cana de açúcar. 
             Curiosamente, uma atividade íntima ao açúcar, que é produzido muito próximo do litoral, se constituiu no fator expansionista da colonização na linha interiorana: a pecuária. O boi puxando o homem mais do que o homem puxando o boi.
            O gado foi o dinamizador do povoamento, da ocupação de espaços menos férteis. O gado estimulou a expansão territorial, criou uma sociedade agropecuária, contraponto da açucareira. 
             E aí estão dois Nordestes, um é o Nordeste do doce, do massapê, de chuva grossa, dos barões, do sobrado gordo, do maracatu, da prataria, dos santos barrocos; outro, é o dos homens encoletados em couro, de rios secos, de chuva magra, de árvores-graveto exemplos da xerofilia hostil, do xaxado, dos coronéis de boiadas de boi e de boiadas de voto, um mundo onde não há luxo, que o luxo não é sertanejo.
            Um é o Nordeste de Fogo Morto, o outro, é o de Vidas Secas.
            Um é o Nordeste de José Ermírio de Moraes, o outro é o Nordeste de José Nêumanne.
           Então, não há o que esconder. Esta é uma festa nordestina. E não seria eu quem o negaria.
           As raízes do patrono do prêmio lembram Ascenso Ferreira falando que os engenhos da terra só pelos nomes fazem sonhar: Esperança, Flor do Bosque, Estrela D´Alva, Bom Mirar. As do premiado tem em comum a toponímia nordestina de Currais Novos, Bezerros, Lagoa Seca, Areia, Sertãozinho, Carne de vaca, Seridó, Algodões, Cariri, Serra Talhada, Ingazeira, Umbuzeiro.
           O Prêmio que hoje se outorga a José Nêumanne, está na sua 11ª edição. Por ele passaram, entre outros, Roberto Campos, Wilson Martins, Evaldo Cabral de Melo, Cícero e Laura Sandroni, Manif Zacharias.
           O patronato foi além do Prêmio e ajudou a Academia, como lembra muito bem esse excepcional acadêmico que é Alberto Venâncio Filho, na aquisição da biblioteca de Marcos Carneiro de Mendonça e na aventura ainda não de todo encerrada do Solar da Baronesa.


Escritor José Nêumanne:


            A nordestinidade é, de nossa parte, um ato de convicção e constância, uma forma de vitalidade histórica. Com esse sentimento exalto a sua Paraíba, “pequenina e heróica”, de todos os tempos, de todas as realidades. Louvados sejam o botânico Manoel de Arruda Câmara e o poeta “Caixa d´Água”, o Ponto de Cem Réis e a festa das Neves, o Treze de Campina e o bar do Onaldo, Vidal de Negreiros e o “Velho Capitão”, as bagaceiras dos engenhos – tema para um dos maiores clássicos da língua portuguesa escrito por um saudoso confrade – e Dom Vital, Zelins e Ariano, Celso Furtado e Piragibe, a Borborema e o Cabo Branco, Linduarte Noronha e Augusto dos Anjos, Bodopitá e as inscrições rupestres dos Cariris Velhos, Elba Ramalho e Vladimir Carvalho, o teatro Santa Rosa – onde Gilberto Freyre proferiu a primeira conferência de sua vida – e Castro Pinto, Solon Lucena e Inácio da Catingueira.
E mais, e mais.
          Também seja louvado o gesto de Pedro Monteiro de Macedo a determinar, em 1744, que seu epitáfio fosse fixado no batente principal da porta da igreja de Santo Antonio, com estes dizeres: 

“Aqui jaz Pedro Monteiro de Macedo, que por ter governado mal esta Capitania quer que todos o pisem e todos rezem um Padre Nosso e uma Ave Maria, pelo amor de Deus”

           Louvo-o, escritor José Nêumanne, por não ter faltado com o seu esforço para que nada disso se apergaminhasse na memória dos homens.
Nunca lhe tocou aquele medo que o poeta seu conterrâneo, Sergio de Castro Pinto, descrevia como capaz de se instalar nas palavras, enregelando-as, obrigando a pô-las como em um frigorífico.

Senhoras, Senhores: 

          Quando José Ermírio de Moraes, filho de viúva, deixou as comodidades de menino de engenho, a tradição do bacharelado em Direito, largou-se para os Estados Unidos estudar engenharia, traçou a sua história de valoroso tycoon da indústria brasileira.
          Não desatendeu aos deveres da cidadania. Fez-se político, Senador e Ministro de Estado. Declarou-se compromissado com o desenvolvimento social e não só com o crescimento econômico. 
         Deu à família essas responsabilidades e refiro, ainda que sejam desnecessários, três exemplos da boa sangüinidade do Velho Senador: a Beneficência Portuguesa, a AACD e este Prêmio.
A democracia somente prospera no pluralismo. Nada lhe é tão essencial quanto a ampla repartição do poder; do poder político, também do poder econômico, do poder social.
          Não se diga dela que é uma ideologia. Muito menos elaborada construção teórica de um iluminado. As sociedades ideocráticas favorecem o autoritarismo.
Democracia é poder compartido, que não é sinônimo de equalitarismo mas que não subsiste nas grandes iniqüidades.
          Montesquieu dizia: “A democracia deve evitar dois excessos: o espírito de desigualdade, que conduz ao governo de um só; e o espírito de igualdade extrema, que conduz ao despotismo de um só.
           Impor a igualdade equivale a privar a liberdade. Garantir a liberdade equivale a reconhecer a desigualdade.
          A sabedoria política do lema da Revolução Francesa está em buscar diluir a contradição latente entre liberdade e igualdade pelo sentimento da fraternidade. Em conjugá-las pela solidariedade.
          Cuido em azeitar uma permanente reflexão sobre isto no que me cabe como exercício do meu cargo público, pois o controle social do Estado, próprio das democracias, é complexo e multiforme mecanismo de autoregulação das ações políticas.
         A informação, principal matéria prima da Corte em que trabalho, tem que ser ponderada, pesada, processada para ser julgada com precisão.
Por isso, nunca deixo de lado os versos de T.S. Eliot:

“O ciclo sem fim da idéia e da ação, 
Interminável invenção, interminável experimento,
Conhece o movimento, não o repouso;
O conhecimento das palavras, não o do silêncio:
Conhecimento do verbo mas ignorância do mundo”
...............................................................................
“Onde está a vida perdida no viver?
Onde está a sabedoria perdida no conhecimento?
Onde está o conhecimento que se perdeu na informação?”

             Quando vejo, José Nêumanne, seus cuidados com a análise e a pregação democráticas, tudo isto me vem à mente e eu desejei declarar aqui. 


Senhoras, Senhores:
           
           Nesta edição do Prêmio Senador José Ermírio de Moraes, foi difícil escolher um ganhador. De um lado, havia o culto à Democracia como face ostensiva do conjunto de obras de José Nêumanne. Do outro, o espetáculo de preservação da História, em livro admirável de Arno Wehling, Direito e Justiça no Brasil Colonial.
Do meu canto, eu creio, pois não tenho delegação de ninguém para dizer isso, posto que não há nada mais difícil aqui do que falar pelo colegiado, acredito que não fomos pelo caminho rigoroso do mérito, pois daria empate entre a Democracia e a Memória. Fizemos uma opção de circunstância, diante de tantos merecimentos de parte a parte.
Registremos aspectos relevantes em José Nêumanne. Enfileiro alguns:
- o senso de visão ampla, na antologia dos melhores poetas brasileiros do século;
- a astúcia de unir Bob Dylan, os Beatles e Caetano Veloso, como embrulhara num mesmo saco, Barcelona e Borborema, Gaudi e o forró.
            Wilson Martins diz de O silêncio do delator, seu livro que consagramos, ter inovado o romance contemporâneo tanto na temática quanto nas técnicas narrativas.
E eu acrescento: com o extremo bom gosto de se arrimar num poema excepcional. Por isso, repitamos com Nêumanne: “Vá-se entender os mistérios da criação!”.
           Antônio Olinto, com a sua alta expressão de crítico literário, louvando o livro, observa que para entender qualquer realidade é preciso atentar para a sua correspondente ficção. A ficção é uma verdade, e dela vem.
           José Nêumanne produziu o silêncio sonoro do seu protagonista. Diz, fingindo que está calado. Quase lembra a sentença perfeita de Eduardo Portella: o silêncio é o mais dizer, é o que se diz naquilo que se cala.
Acredito que o jornalismo facilitou-lhe conhecer o homem e isto facilitou-lhe a arte no romance. 
          Nêumanne transferiu o datado para o transtemporal. Seu livro também é de acento feminista, como confessa, e enquadra-se no tempo tríbio de que fala Gilberto Freyre.
           Sua intolerância à tirania, tem simetria com o que falou Roberto Romano sobre O silêncio do delator, ao alegar que os tiranos odeiam o riso pois o riso é subversão intolerável.
           Por isso, José Nêumanne, você pode continuar, como é do seu jeito de ser, transgredindo tudo aquilo que lhe parecer “direitinho”. Sempre encontrará um cânone em sua rota, pois sem o cânone só haverá o caos. E do caos você não gostaria. 
Espero um ensaio seu e isto é um afetuoso desafio. Escreva de como a música eletrônica, se música é, interfere na cultura contemporânea e na sociabilidade das pessoas, tema que somente agora começa a ser cuidado no Brasil. Em Música Eletrônica - a textura da máquina, Rodrigo Fonseca propõe uma visão renovada do encontro entre a tradição musical ocidental e os perigos e possibilidades dos novos recursos utilizados na criação musical eletrônica, como observou argutamente o crítico Schneider Carpeggiani.
            Na mesma linha, há de se analisar o fenômeno do “coronelismo” eletrônico, dominador da mídia televisiva dos nossos dias, acolitado pelo uso desabrido de supostas convicções religiosas a serviço da política. 
           Todo esse gosto pela novidade, existe para desafiar intelectuais. Exótico ou não, como o do blog literário. Uma hora dessas há de se inserir nesta Casa, com a mesma atenção que demos ao folhetim eletrônico, trazendo gente de dentro dele para dentro da Academia. Quando nos aliarmos ao blog, o faremos muito bem. É inevitável e um seu tanto inadiável.
            O passado nos autoriza a recusar anemias no fazimento do presente e na formatação do futuro. O novo nos interessa. A tradição desta Casa não é feita de ancoragem de horas, mas da libertação da palavra. Sem pressa e sem descanso.
Não somos nem esféricos, nem monolíticos. Temos as assimetrias da existência mas sem falhar na missão histórica. Haveremos de conciliar o apolíneo com o dionisíaco.
A imortalidade que existe aqui é a da palavra. Hoje premiamos a palavra de José Nêumanne e cuidamos em honrar a memória de José Ermírio de Moraes, um homem de palavra.
              Esta é a casa das palavras e cada um de nós vive a repetir os versos de Drummond:

“Lutar com palavras
É a luta mais vã
Entanto lutamos
Mal rompe a manhã
São muitas, eu, pouco”. 


           

     
© Academia Brasileira de Letras, 25.08.2005 



   
   
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