OBRA LEMBRA SÉCULO 20 POR MEIO DE MORTO FALANTE


Walter Fontoura

 

   



       Não é um livro convencional, esse "O silêncio do delator", que José Nêumanne lançou por estes dias no Café Suplicy, em São Paulo. 

         O personagem principal, João Miguel, já começa o romance morto e dentro do caixão, no seu velório, mas falante e vivaz, prometendo revelar ali mesmo tudo o que estiver ao seu alcance. 

         Professor universitário, mulherengo e desastrado, João Miguel "vê" desfilarem ao seu lado os companheiros dos primeiros anos da juventude, quase todos frustrados, como ele, por não terem sido capazes de realizar seus sonhos – e muito menos de mudar o mundo, como um dia pretenderam. E promete: 

        "Agora que já me despi das vaidades humanas, agora que me livrei das censuras, agora que ninguém nem nada mais poderá me atingir, contarei tudo. Tudo o que sei, tudo o que intuí". 

        Na imobilidade do caixão, em pleno velório, João Miguel recebe e troca opiniões e impressões, discute, responde, repreende e descompõe ou elogia e até declara amor aos que vão levar-lhe o último adeus. 

        Os personagens dirigem-se ao morto, e ele a eles; no diálogo que travam vai-se tecendo a história. Mas não se revelam pelos nomes. A narração é feita através de sete vozes, que dão um certo ar de coro grego ao texto: "Na Glória!" é a voz que descreve o velório; "Na Paz do Mundo" é a política; "A Vez do Louco" trata da iniciação dos amigos do morto; o sexo está em "Atrás do Muro"; as transgressões ( como drogas ) estão em"Os Pés do Torto"; histórias de personagens paralelos ao grupo, em "O Cais do Porto". "A Voz do Morto" fala por João Miguel, ou vice-versa, naturalmente. 

         São todos sobreviventes "dos rebeldes anos 60 do século 20", e suas intervenções estão recheadas de referências a quase tudo que foi relevante naqueles anos e despertou o interesse, fez sonhar ou tocou a imaginação do grupo que agora se reúne no velório para despedir o professor João Miguel, mortíssimo mas falando sem parar. 

         Os Beatles, Jorge Luíz Borges, Lênin, Che Guevara, Sartre, Kennedy, Jorge Amado, Marylin Monroe, John Kennedy, Stalin, Maria della Costa, Hitler, Ray Charles, Charles Chaplin, Martin Luther King, Gabriel Garcia Marques, Milton Nascimento, Burt Lancaster, Glauber Rocha, Alain Delon, Carlos Lacerda e Belchior, entre outros, estão mais e menos na memória coletiva, no imenso, atilado e bem informado diálogo que é "O silêncio do delator". 

          Na capa, entre a foto de Maria della Costa e os Beatles, há um sujeito de cabelo preto e bigodinho que segundo José Nêumanne o capista, Newton César, supunha ser Sandro Polônio, mas é o tenente Bandeira, nacionalmente famoso no fim dos anos 50 ao ver-se envolvido no rumoroso "crime da Ladeira do Sacopã", no Rio. O tenente Bandeira não aparece no livro, mas não fica mal ali, naquele clima sobrenatural. 

        O leitor terá talvez a tentação de identificar alguém, ou o próprio autor, em algum personagem. Mas é inútil. Nêumanne não está lá. Marco Antônio, o Coelho, também não tem relação alguma com o líder comunista Marco Antônio Coelho, nem Ricardo Azevedo é um quadro do PT, filho do Clóvis Azevedo. 

         Nenhum personagem da vida real está retratado no livro, em ação, exceto talvez Pedro Paulo de Sena Madureira, o poeta e editor, cujo poema "Inventário", dedicado a José Neumanne Pinto, vai publicado no fim do volume. "O silêncio do delator" é um livro escrito em Português legível, como era o de Rubem Braga, como é o de José Nêumanne. 




 

    © 9 de outubro pela Folha de S. Paulo Ilustrada, pag. 4



   
   
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