Por Aquiles Rique Reis

 Zé Ramalho está na praça com o CD Parceria dos Viajantes (Sony BMG). Todo de inéditas, feitas em parcerias com Zeca Baleiro ("O Rei do Rock"); Chico César ("A Nave Interior"); Jorge Mautner ("Montarias Sensuais"); Zé Nêumanne ("O Norte do Norte"); Oswaldo Montenegro ("Do Muito e do Pouco"); Toti ("Procurando a Estrela"); Robertinho de Recife ("Farol dos Mundos") - ele que é também o produtor e o arranjador na maioria das 11 faixas do disco -; Fausto Nilo ("Pássaros Noturnos"); Toni Garrido, Da Gama, Lazão, Bino Farias ("Chamando o Silêncio"); Dominguinhos ("Porta de Luz") e Chico Guedes ("As Aparências Enganam"), o trabalho vem em boa hora.

Por mais que não faltem justificativas para os discos atuais apostarem em "projetos", e até por todas elas, o fato de um compositor gravar músicas inéditas compostas especialmente para seu novo trabalho merece atenção redobrada.

E olha que estamos falando de alguém que tem chão percorrido, não de um compositor novato - este não tem jeito, tem de estar sempre disposto a dar a cara à tapa, expondo-a a um mercado mais para sádico do que para receptivo. Trata-se de um cara que tem público cativo, um compositor que encanta a muitos com sua música sempre instigante. 

Sua vasta obra está longe de se ter tornado fácil a fim de atingir o maior número possível de admiradores - mas consegue atingi-los e demonstrar que popularidade é compatível com bom-gosto e qualidade. Ao mesmo tempo em que busca fazer música para tocar nas rádios que determinam o sucesso da hora, Zé Ramalho não cede às tentações que poderiam adocicar tal pretensão.

Ele é sucesso desde que compôs e gravou a primeira música. Percorre diversas faixas de um público eclético: os rotulados de brega e os adeptos do rock and roll; os que amam o ritmo nordestino e os que buscam a experimentação de novos modelos musicais.

Zé Ramalho é feito pedra bruta lapidada a cada nova canção. E Parceria dos Viajantes o encontrou em momento vivamente inspirado. Suas melodias, dadas às letras de cada parceiro escolhido, percorrem um universo musical digno de quem sempre se habilitou a ter uma ou mais faixas de seu disco alçada à condição de sucesso nacional. Neste disco, diversas músicas novamente se candidatam a esse pódio de reconhecimento. 

"O Rei do Rock" é o cartão de visita que anuncia um disco intenso. "A Nave Interior", música que conta com a boa pegada da roqueira Pitti, é outra a demonstrar o quanto letristas e poetas perceberam muitíssimo bem a intenção de Zé Ramalho. 

Um dos pontos altos do CD é "O Norte do Norte", cujos versos foram extraídos da primeira estrofe de um poema de José Nêumanne Pinto. A melodia criada para eles por Zé Ramalho os tornou ainda mais épicos e belos. Emocionante é a interpretação de Sandra de Sá. Arrepiante é a sua voz carregada de sentimento, a quase chorar as palavras: "Do norte do Norte/ As águias decolam/ Para vôos sem volta/ Lá, tudo começa/ A voz do mundo/ A vez do mundo". 

Daniela Mercury e a Banda Calypso se saem bem cantando nas faixas em que atuam - "Procurando a Estrela" e "Pássaros Noturnos", respectivamente. Mas quem dá show mesmo é Zélia Duncan (a nova Mutante, salve ela e sua coragem!), que se vale de viva picardia para magistralmente interpretar "Porta de Luz", um lindo bolero composto por Zé Ramalho e Dominguinhos. 

Aliás, as escolhas dos parceiros e das participações especiais demonstram o cuidado com que o disco foi pensado. Fica nítida a sensação de que cada um dos que participaram da realização do novo CD de Zé Ramalho o fizeram compreendendo perfeitamente o sentido sonhado por ele. Isso é válido para os arranjos criados por Robertinho de Recife, para os músicos que os tocaram e até para os que conceberam o projeto gráfico da capa (bela!) - enfim, todos os que se acercaram de Zé Ramalho. E os letristas, principalmente eles, encontraram nele alguém que soube valorizar cada palavra pensada por eles.


Aquiles Rique Reis, vocalista do MPB4 e autor de O Gogó de Aquiles, ed. A Girafa. 

 

© Coluna do aquiles, publicada em abril de 2007, nos seguintes jornais: Diário do Comércio (ACSP), Meio Norte (Teresina), A Gazeta (Cuiabá), Jornal da Cidade (Poços de Caldas) e Brazilian Voice (EUA).Abril de 2007. 

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José Nêumanne, jornalista e escritor, é editorialista do Jornal da Tarde e autor de O silêncio do delator, prêmio Senador José Ermírio de Morais, da Academia Brasileira de Letras, em 2005. 

Obras do jornalismo de ficção e biografia: Mengele: A natureza do mal. São Paulo: EMW, 1985, romance-reportagem; Atrás do palanque: Bastidores da eleição presidencial de 1989. São Paulo: Siciliano, 1989, reportagem; Reféns do passado. São Paulo: Siciliano, 1992, artigos e ensaios políticos; Erundina: A mulher que veio com a chuva. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1989, perfil biográfico; A república na lama: Uma tragédia brasileira.São Paulo: Geração Editorial, 1992.

 

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