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José Nêumanne
Político popularíssimo em Campina Grande, Paraíba, para cuja
prefeitura foi eleito “uma par de vêiz”, como ele mesmo diria,
em seu estilo desabusado, franco e pouco elegante no vernáculo,
Severino Cabral é freqüentemente citado em minhas palestras como
um mestre da práxis administrativa e do marketing político.
Excelente exemplo de sua sabedoria nesse campo foi dado no dia
em que recebeu em sua casa para almoçar o embaixador dos Estados
Unidos em Brasília. Antes de contar o episódio, convém adiantar
que sua casa ficava permanentemente aberta à visita de seus
eleitores, que entravam, iam até a cozinha, faziam as refeições
e saíam com naturalidade. E também que seu filho mais velho,
Milton, era diplomata de carreira e estava na embaixada do
Brasil na Romênia quando o ditador comunista Nicolai Ceausescu
foi derrubado por uma insurreição popular. Quer dizer: estava no
cargo, mas não exatamente em Bucareste, e, sim, jogando uma
partida de tênis no Country Clube, no Rio. Só por isso, já dá
para perceber que não é o melhor herdeiro das manhas nem dos
talentos do pai.
Pois bem, o diplomata da
família levou o embaixador americano para o almoço e ficou
indignado quando viu o pai ouvir o cochicho de um assessor e
interromper abruptamente a conversa para sair da sala de jantar
para o hall da casa. Acompanhou-o e percebeu que ele, que era um
homem alto e forte, conhecido como “Pé de chumbo”, se abaixava
para ouvir os apelos de uma senhora muito pobre e andrajosa.
Interpelou-o:
— Papai, como é que o senhor
deixa o embaixador dos Estados Unidos falando sozinho à mesa
para vir atender a essa senhora?
E o velho respondeu na bucha:
— E eu sei lá onde diacho esse homem
vota. Essa mulher eu sei. Ela vota aqui. E vota em mim.
Outra vez, em visita a Salvador, ficou encantado com as
linhas arquitetônicas do Teatro Castro Alves. Contratou um
arquiteto, mandou que ele fosse à Bahia e copiasse o prédio, só
que em dimensões reduzidas. Daí, nasceu o Teatro Municipal de
Campina Grande. Na hora de lhe dar nome, chamou o assessor
especial para teatro, radialista Wilson Maux,
e lhe encomendou uma lista de denominações. Este espremeu os
miolos e listou os literatos mais famosos da cidade e do Estado,
mas isso não satisfez o chefe.
— Oh, seu Wilson, já vi que o senhor
não entende nada de teatro. Nome de teatro tem de ter rima,
rapaz.
— Como rima, seu Cabral?
— Rima, ora essa. Não sabe rimar?
Teatro Municipal patati patatal.
— Sim, mas que nome rimaria?
— Teatro Municipal Severino Cabral,
seu idiota.
— Mas, seu Cabral, o senhor nunca escreveu,
dirigiu nem atuou em teatro nenhum. Por isso, não pode dar nome
a um teatro.
— Que besteira, esse menino! E Plínio
Lemos jogava bola?
É que o Estádio Municipal da cidade
tem o nome do ex-prefeito Plínio Lemos.
Certa vez, seu principal adversário em Campina Grande, o senador
Argemiro de Figueiredo, resolveu lançar contra ele numa campanha
para a prefeitura um jovem deputado estadual pelo PTB, conhecido
pela habilidade no uso das palavras. A sensação da campanha do
rapaz, advogado em começo de carreira, eram seus discursos,
todos metrificados e rimados, nos moldes dos repentes da poesia
popular. Severino Cabral, que havia inovado ao contratar um
marqueteiro profissional para a própria campanha e por consultar
as intenções do eleitor em pesquisas, tomou conhecimento da
preocupação da assessoria com o crescimento surpreendente e
rápido do outro candidato.
— O rapaz é poeta, seu Cabral — justificou
seu marqueteiro.
— Ora, então, o problema é fazer versos? Eu
também sei fazer.
E foi anunciado aos quatro cantos da cidade que “Pé de
chumbo” versejaria no palanque do distrito de São José da Mata
no domingo seguinte. Ele foi, subiu ao palanque e sapecou para a
multidão emudecida:
— Povo de São José da Mata,
Mata de São José: ou São José me mata
ou eu mato São José.
O silêncio de perplexidade prenunciou a derrota. O
vencedor, Ronaldo Cunha Lima, seria deputado federal, senador e
governador do Estado. O atual governador é seu filho, Cássio.
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Milton Cabral também foi governador, mas o pai, não: foi vice e
seria cassado na ditadura militar, da mesma forma que o fora
Cunha Lima. Na campanha para o governo do Estado - com o senador
João Agripino na cabeça da chapa e ele próprio de vice -, “Pé de
Chumbo” protagonizou episódios que enriqueceram o folclore
político paraibano. Consta que, no palanque, um dia, surpreendeu
a assessoria da campanha com uma afirmação inusitada:
— Eu e o dr. João Agripino formamos um trio...
Um assessor, pressuroso, soprou, corrigindo:
— É dupla, seu Cabral. Trio são três.
— Que besteira. Trem não anda em trio e não é
dois?
Na mesma campanha (vitoriosa, por sinal), os candidatos
sentaram-se para comer num restaurante do interior e pediram
bife com arroz. Foram-lhes servidos dois pedaços: um maior e
outro menor. Ele apressou-se em se servir do mais avantajado.
— Ora, Cabral, um homem educado pega o pedaço menor –
resmungou o senador, de notório temperamento ranzinza.
— Deixa de besteira, João! Você não é um homem educado?
Então, se ia ficar com o menor mesmo, está reclamando de quê?
Seus adversários contavam ainda que, certa vez, um auxiliar
menos alfabetizado tentou socorrer-se dele antes de preencher um
cheque de sessenta cruzeiros.
— Sessenta se escreve com esse ou com cê, seu Cabral?
— Faz dois de trinta – teria respondido, ágil e espertamente.
Em outra ocasião, seguindo conselho da assessoria para se
referir ao máximo possível de interlocutores, sempre que
discursasse, inaugurou um cemitério num distrito de Campina
Grande, proferindo:
— Conterrâneos e subterrâneos... |