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Tempos de crise são férteis em mutações
éticas. Costumes, valores arraigados e preconceitos
idem, desaparecem em aluviões de palavras nas cloacas
da alma. O desgaste não se realiza de modo automático.
Para dissolver certezas carcomidas é preciso muito
humor ácido, ousadia. A sátira translúcida nasceu com
Luciano de Samosata. Nela, o riso abala os arrogantes
tolos e desonestos que infernizam a sociedade. Na obra
prima de Luciano, o Diálogo dos Mortos, Menipo
é empurrado pelos habitantes do Hades para retornar ao
mundo dos vivos. A sua missão é rir dos tolos que se
imaginam poderosos e importantes. A técnica do
estranhamento, equivocadamente atribuída a Bertold
Brecht (mesmo Hölderlin a usou, com resultados
espantosos) é invenção de Luciano. Que o morto fale
aos vivos e deles ria, isto produz um estranhamento nos
ouvintes e leitores. Tal experiência muda o olhar das
pessoas. Elas percebem que sob a “normalidade”
cotidiana as coisas são esquisitas, nada é tão
racional quanto imaginavam.
A cultura não teria o mesmo rosto sem Erasmo, Morus,
Rabelais, Voltaire, Montesquieu, Diderot, Swift, Joyce.
Todos eles seguiram Luciano. No Brasil, Machado de Assis
praticou o estilo lucianesco. A escrita de Luciano é
aparentemente simples e se deve à arte que na Renascença
será chamada sprezzatura. A simplicidade engana,
como o próprio estilo satírico que fala de coisas sérias
aparentando atitude hilária e vice versa. A sátira
parece algo menor no mundo espiritual, mas sua força
corrosiva abala todas as crenças. Ela acelera o fim das
religiões e dos regimes políticos sem que os piedosos
percebam. Basta rir de um dogma, líder ou massa
fanatizada, para iniciar a sua queda. Os tiranos proíbem
o riso. A Inquisição, os estalinistas e os nazistas,
operaram nos espaços da seriedade. Rir é subversão
intolerável.
Essas lembranças surgem na leitura dos biscoitos finos
que José Nêumanne nos oferece com O silêncio do
Delator (São Paulo, A Girafa, 2004). O romance
radicaliza experimentos anteriores com a língua, os
personagens, a música e o silêncio. Aliás, o próprio
silêncio, segundo o Sobrinho de Rameau, “é colorido
pelos sons”. A ondas sonoras que se encontram,
interpenetram e seguem rumos diferentes em O Silêncio
do Delator geram narrativas caóticas nas quais
percebemos a voz do louco e a voz do escritor que
ironiza os emburrecidos e embirrados revolucionários da
política, do sexo, da escrita. A estrutura do livro
recorda muito Jacques o Fatalista onde o verbo
(numa caricatura blasfema do Pentecostes) sopra onde
quer e mata os lugares comuns dos bem pensantes.
Nêumanne,
com o velório de ritos e oficiantes absurdos, dissolve
ao redor de um caixão que encerra o Nada as caras hipócritas
dos que se imaginam anjos de justiça. Estes pregaram ética,
moral, bondade. Instalados no poder, debocharam das
algaravias antes cometidas e se refestelaram na vidinha
antes denunciada. Eles “chegaram lá”. Não sabem
que estão mais do que mortos. Seus cadáveres, presos
aos lambões da memória coletiva, exibem farrapos de
sentido lógico.
O riso de Nêumanne também dissolve os naturistas (os
filhotes de Rousseau) que pregavam a liberdade sexual e
o fim das repressões (eles mantiveram o volume de Eros
e Civilização virgem de qualquer leitura) e das
normas. “A senhora Swan é toda uma época”, diz um
personagem de Proust. Em O silêncio do delator o
choque dos tempos é mais cruel porque nenhum personagem
pode ser apontado como símbolo. Sumiram os símbolos,
sobraram corpos insignificantes. O núcleo do romance,
no meu entender, encontra-se na fala do morto: “O que
mais me perturba, meu filho amado, não é tanto ir
embora deste mundo vão, que você sempre execrou. Mas a
sensação de que este não é o velório de um homem só.
É o velório de uma geração inteira, o sepultamento
do sonho desta turma de gente bem-intencionada, mas que
não soube cuidar direito das próprias intenções, por
melhores que fossem”. Tal diagnose da geração
“militante” é respondida na fala do louco : “Um
dia, você vai ficar sabendo que nós todos somos um só.
E a vida flui com você ou sem você”. Bons
fundamentos tinha Michel Foucault ao dizer que a loucura
é “raiz calcinada do sentido”. Na Stultifera
navis somem as individualidades, todos são
igualmente insignificantes.
As “traduções” de marcos mundiais da cultura para
os nossos tempos são notáveis no romance, todas
escondidas por espantosa sprezzatura que engana
leitores não habituados à literatura antiga. As formas
clássicas assumidas por Nêumanne ajudaram os homens do
passado a refletir sobre o teatro e as gerações que se
disputam o espaço vital. “Você pode alegar”, diz o
morto ao seu filho, “que no fundo toda guerra,
inclusive a Guerra Fria, tinha como objetivo principal o
espaço vital. Até a guerra entre as gerações de
certa forma não deixa de ser uma disputa por um lugar
ao sol. Por isso, minha morte não deixa de ser uma
retirada de cena para que você e os filhos que você
tiver e os filhos que eles gerarem ocupem o espaço que
antes eu ocupava. C´est la vie, mon fils. A
morte também é a vida, amado filho meu”. Tais linhas
retomam os primórdios da nossa ética. Elas recolhem as
doutrinas das Leis platônicas (I, 644d,e). Mas Santo
Agostinho fornece o trecho que mais se parece aos
enunciados de Nêumanne: “No mundo, diríamos que os
filhos dizem aos pais: ´deixem esta terra, nós também
queremos desempenhar a comédia!´. Pois toda esta vida,
que nos conduz de tentação a tentação, é apenas uma
comédia do gênero humano”. Agostinho é citado por
Ernst Curtius (A literatura européia e a Idade Média
Latina) num livro que recolhe fórmulas decisivas da
cultura ocidental.
Nêumanne recorre a experimentos estilísticos com
ironia dissolvente. Sua memória cultural é imensa e
polifacetada. Ela vai da música ao teatro, deste à
poesia e aos romances do século anterior, tudo
informado por um domínio espantoso da história. O silêncio
do Delator pode ser explicado como a Fenomenologia do
Espírito impiedosa de nossos dias. Numa coluna como
esta, dedicada à ética, vale indicar a sua leitura. No
livro são dissecados os nossos costumes, num exorcismo
contra os zumbis alojados na sociedade e nos aparelhos
estatais, nas igrejas, na imprensa e nas academias.
A sprezzatura de Nêumanne evidencia uma refinada
bricolagem de gêneros, estilos, doutrinas, visões de
mundo. Cada página continua o trabalho pictórico e
sonoro da anterior mas exibe, como num caleidoscópio
fascinante, novas formas e conteúdos. A graça de sua
escrita encontra-se na reunião das dissonâncias e na síntese
de imagens literárias que antes pertenciam a vários gêneros.
Nêumanne, nas dobras de uma escrita ao mesmo tempo séria
e álacre, aplica em nossa língua a lição de Horacio
do conúbio entre o utile e o dulce. E mais
precisamente: ele retoma as fantásticas realizações
de Luciano e reatualiza para a cultura moderna os
sorrisos e sofrimentos das pobres marionetes que
imaginam, como Pinóquio, serem homens nas trilhas do
Eterno. O Silêncio do Delator manifesta o
ideal de Luciano : brincar com as coisas sérias.
Jornalista importante, o autor lanceta o hipócrita
tumor ético com a sátira que ordena O Silêncio do
Delator. Com escrita límpida e profunda, Nêumanne
silencia os tagarelas que infestam o enorme cemitério
chamado Brasil.
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