O RUÍDO DA IRONIA

 

     
     

O Silêncio do Delator manifesta o ideal de Luciano : brincar com as coisas sérias. Jornalista importante, o autor lanceta o hipócrita tumor ético com a sátira que ordena O Silêncio do Delator. Com escrita límpida e profunda, Nêumanne silencia os tagarelas que infestam o enorme cemitério chamado Brasil. 

     
             
     

                      Roberto Romano

         © Cult 92 (junho 2005) páginas 44-46. 

     
             
             
     

Tempos de crise são férteis em mutações éticas. Costumes, valores arraigados e preconceitos idem, desaparecem em aluviões de palavras nas cloacas da alma. O desgaste não se realiza de modo automático. Para dissolver certezas carcomidas é preciso muito humor ácido, ousadia. A sátira translúcida nasceu com Luciano de Samosata. Nela, o riso abala os arrogantes tolos e desonestos que infernizam a sociedade. Na obra prima de Luciano, o Diálogo dos Mortos, Menipo é empurrado pelos habitantes do Hades para retornar ao mundo dos vivos. A sua missão é rir dos tolos que se imaginam poderosos e importantes. A técnica do estranhamento, equivocadamente atribuída a Bertold Brecht (mesmo Hölderlin a usou, com resultados espantosos) é invenção de Luciano. Que o morto fale aos vivos e deles ria, isto produz um estranhamento nos ouvintes e leitores. Tal experiência muda o olhar das pessoas. Elas percebem que sob a “normalidade” cotidiana as coisas são esquisitas, nada é tão racional quanto imaginavam. 

A cultura não teria o mesmo rosto sem Erasmo, Morus, Rabelais, Voltaire, Montesquieu, Diderot, Swift, Joyce. Todos eles seguiram Luciano. No Brasil, Machado de Assis praticou o estilo lucianesco. A escrita de Luciano é aparentemente simples e se deve à arte que na Renascença será chamada sprezzatura. A simplicidade engana, como o próprio estilo satírico que fala de coisas sérias aparentando atitude hilária e vice versa. A sátira parece algo menor no mundo espiritual, mas sua força corrosiva abala todas as crenças. Ela acelera o fim das religiões e dos regimes políticos sem que os piedosos percebam. Basta rir de um dogma, líder ou massa fanatizada, para iniciar a sua queda. Os tiranos proíbem o riso. A Inquisição, os estalinistas e os nazistas, operaram nos espaços da seriedade. Rir é subversão intolerável.

Essas lembranças surgem na leitura dos biscoitos finos que José Nêumanne nos oferece com O silêncio do Delator (São Paulo, A Girafa, 2004). O romance radicaliza experimentos anteriores com a língua, os personagens, a música e o silêncio. Aliás, o próprio silêncio, segundo o Sobrinho de Rameau, “é colorido pelos sons”. A ondas sonoras que se encontram, interpenetram e seguem rumos diferentes em O Silêncio do Delator geram narrativas caóticas nas quais percebemos a voz do louco e a voz do escritor que ironiza os emburrecidos e embirrados revolucionários da política, do sexo, da escrita. A estrutura do livro recorda muito Jacques o Fatalista onde o verbo (numa caricatura blasfema do Pentecostes) sopra onde quer e mata os lugares comuns dos bem pensantes. Nêumanne, com o velório de ritos e oficiantes absurdos, dissolve ao redor de um caixão que encerra o Nada as caras hipócritas dos que se imaginam anjos de justiça. Estes pregaram ética, moral, bondade. Instalados no poder, debocharam das algaravias antes cometidas e se refestelaram na vidinha antes denunciada. Eles “chegaram lá”. Não sabem que estão mais do que mortos. Seus cadáveres, presos aos lambões da memória coletiva, exibem farrapos de sentido lógico. 

O riso de Nêumanne também dissolve os naturistas (os filhotes de Rousseau) que pregavam a liberdade sexual e o fim das repressões (eles mantiveram o volume de Eros e Civilização virgem de qualquer leitura) e das normas. “A senhora Swan é toda uma época”, diz um personagem de Proust. Em O silêncio do delator o choque dos tempos é mais cruel porque nenhum personagem pode ser apontado como símbolo. Sumiram os símbolos, sobraram corpos insignificantes. O núcleo do romance, no meu entender, encontra-se na fala do morto: “O que mais me perturba, meu filho amado, não é tanto ir embora deste mundo vão, que você sempre execrou. Mas a sensação de que este não é o velório de um homem só. É o velório de uma geração inteira, o sepultamento do sonho desta turma de gente bem-intencionada, mas que não soube cuidar direito das próprias intenções, por melhores que fossem”. Tal diagnose da geração “militante” é respondida na fala do louco : “Um dia, você vai ficar sabendo que nós todos somos um só. E a vida flui com você ou sem você”. Bons fundamentos tinha Michel Foucault ao dizer que a loucura é “raiz calcinada do sentido”. Na Stultifera navis somem as individualidades, todos são igualmente insignificantes. 

As “traduções” de marcos mundiais da cultura para os nossos tempos são notáveis no romance, todas escondidas por espantosa sprezzatura que engana leitores não habituados à literatura antiga. As formas clássicas assumidas por Nêumanne ajudaram os homens do passado a refletir sobre o teatro e as gerações que se disputam o espaço vital. “Você pode alegar”, diz o morto ao seu filho, “que no fundo toda guerra, inclusive a Guerra Fria, tinha como objetivo principal o espaço vital. Até a guerra entre as gerações de certa forma não deixa de ser uma disputa por um lugar ao sol. Por isso, minha morte não deixa de ser uma retirada de cena para que você e os filhos que você tiver e os filhos que eles gerarem ocupem o espaço que antes eu ocupava. C´est la vie, mon fils. A morte também é a vida, amado filho meu”. Tais linhas retomam os primórdios da nossa ética. Elas recolhem as doutrinas das Leis platônicas (I, 644d,e). Mas Santo Agostinho fornece o trecho que mais se parece aos enunciados de Nêumanne: “No mundo, diríamos que os filhos dizem aos pais: ´deixem esta terra, nós também queremos desempenhar a comédia!´. Pois toda esta vida, que nos conduz de tentação a tentação, é apenas uma comédia do gênero humano”. Agostinho é citado por Ernst Curtius (A literatura européia e a Idade Média Latina) num livro que recolhe fórmulas decisivas da cultura ocidental. 

Nêumanne recorre a experimentos estilísticos com ironia dissolvente. Sua memória cultural é imensa e polifacetada. Ela vai da música ao teatro, deste à poesia e aos romances do século anterior, tudo informado por um domínio espantoso da história. O silêncio do Delator pode ser explicado como a Fenomenologia do Espírito impiedosa de nossos dias. Numa coluna como esta, dedicada à ética, vale indicar a sua leitura. No livro são dissecados os nossos costumes, num exorcismo contra os zumbis alojados na sociedade e nos aparelhos estatais, nas igrejas, na imprensa e nas academias. 

A sprezzatura de Nêumanne evidencia uma refinada bricolagem de gêneros, estilos, doutrinas, visões de mundo. Cada página continua o trabalho pictórico e sonoro da anterior mas exibe, como num caleidoscópio fascinante, novas formas e conteúdos. A graça de sua escrita encontra-se na reunião das dissonâncias e na síntese de imagens literárias que antes pertenciam a vários gêneros. Nêumanne, nas dobras de uma escrita ao mesmo tempo séria e álacre, aplica em nossa língua a lição de Horacio do conúbio entre o utile e o dulce. E mais precisamente: ele retoma as fantásticas realizações de Luciano e reatualiza para a cultura moderna os sorrisos e sofrimentos das pobres marionetes que imaginam, como Pinóquio, serem homens nas trilhas do Eterno. O Silêncio do Delator manifesta o ideal de Luciano : brincar com as coisas sérias. Jornalista importante, o autor lanceta o hipócrita tumor ético com a sátira que ordena O Silêncio do Delator. Com escrita límpida e profunda, Nêumanne silencia os tagarelas que infestam o enorme cemitério chamado Brasil. 

 

     
           
           
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