O FRACASSO DE UMA GERAÇÃO
                 Meio século de política, sexo e rock and roll


Ipojuca Pontes





Se me perguntassem o que “O Silêncio do delator”, de José Nêumanne, tem de “Memórias póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, eu responderia: o fato de, postumamente, um personagem discorrer sobre o passado e o presente, além de, bem ao gosto do bruxo de Cosme Velho, e como se fora um dos alter egos do narrador, interferir na prosa deste de modo a apontar-lhe os excessos, as redundâncias, enfim, as deficiências de sua escrita. Quer dizer, se Machado de Assis estabelecia um diálogo com o leitor a respeito dos seus mecanismos de criação, o personagem João Miguel provoca o narrador, desafia-o, instiga-o, na medida em que questiona o enredo, a intriga ficcional, como também a linguagem que serve de lastro, de sustentação ao romance. Isso sem contar que, coincidentemente ou não, Nêumanne tende a abolir a paisagem no seu livro, ao mesmo tempo em que as suas personagens vivem entre quatro paredes. Ou seja, “O Silêncio do delator” é um romance urbano cujas personagens, paradoxalmente, não saem às ruas, no que também lembram os “claustrofóbicos” viventes machadianos. 

Mas isso não quer dizer que Nêumanne seja um epígono do autor carioca, pois, na verdade, ele imprime ao seu texto o sinete de uma individualidade já reconhecida, inclusive, por Wilson Martins, para quem esse paraibano de Uiraúna conseguiu a proeza de inovar o romance brasileiro. 

O certo mesmo é que “O Silêncio do delator” presta um tributo àqueles com os quais José Nêumanne possui afinidades eletivas desde sempre. Ou desde quando, adolescente míope de Campina Grande, já enxergava longe. Daí, a homenagem a Machado, a Bob Dylan, aos Beatles e a muitos filmes e textos com os quais dialoga no plano da intertextualidade, da metalinguagem e da paródia. 

Em suma, nesse livro convivem, harmoniosamente, o ensaio, a ficção e a poesia, embora os mais preconceituosos ainda hoje delimitem os gêneros literários em compartimentos estanques, quando a diluição deles não exclui, necessariamente, a literariedade de uma obra. Literariedade, aliás, que não falta ao “Silêncio do delator”, livro no qual Nêumanne se vale do seu temperamento eclético, ubíquo, para transitar, com extrema desenvoltura e brilhantismo, do cinema para a música ou desta para as artes plásticas e ainda para a literatura. E aqui convém lembrar que Nêumanne não é benevolente com a geração a que pertenceu: a dos tumultuados anos 60. Antes pelo contrário, pois ele a inventaria sem concessões de qualquer espécie, como o fez – claro que guardadas as devidíssimas proporções – Mário de Andrade quando registrou os 25 anos da Semana de Arte Moderna. 

Enfim, sem jamais perder a ternura, José Nêumanne, mais do que expor, escarafuncha as feridas ainda abertas da geração 60. E o faz a partir de “Inventário”, poema de Pedro Paulo de Sena Madureira com cujos versos ele também arremata os vinte e cinco capítulos que compõem este excelente romance recém-lançado pela Girafa Editora. 

     

© Gazeta Mercantil, sexta-feira 8 de outubro de 2004, página 3. 

 

   
   
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