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Dois
episódios recentes dão muito bem as dimensões da
universalidade e da atemporalidade deste gênero por excelência
de literatura que é a poesia. Quando ainda assinava uma coluna
no suplemento semanal sobre livros do jornal carioca O
Globo, o poeta e crítico mineiro
Affonso Romano de
Sant’Anna escreveu alguns textos antológicos sobre a viagem
que fez ao Irã, tendo tido a oportunidade de conhecer a Pasárgada
original dos persas e visitar o túmulo do grande guerreiro
conquistador Ciro, do qual reproduziu para seus leitores, a
grande maioria dos quais jovens sequiosos por novidades e
curiosidades, o dístico filosófico e profundo que serviu de
epitáfio ao imperador: “não lamente, oh mortal, / aquele que
aqui jaz / pois ele fez tudo o que fez / e reinou na guerra e
paz”, na tradução de Affonso, inserida
em seu poema Pasárgada
(in Vestígios,
Rocco). Ao lê-lo, a primeira lembrança que me ocorreu foi do
clássico soneto Ozymandias
(nome grego de Ramsés) de Percy B. Shelley, o nobre gênio da
poética inglesa, no qual o marido de Mary, imortalizada por seu
romance Frankestein,
atribuiu ao Faraó o desaforo: “Olhem para minha obra, seus
poderosos, e se desesperem!”
Entre
os sábados em que esses textos foram publicados e este domingo
muita água passou por debaixo das pontes, mas a dura verdade
transmitida pela experiência de Ciro e Ramsés viajou pelo
globo terrestre e pelos séculos, passando por Shelley e também
por Manuel Bandeira, um dos maiores criadores de poesia no
Brasil em todos os tempos e de quem sobrevive o genial poema que
adota a cidade persa de Pasárgada como tema: “Vou-me embora
pra Pasárgada, lá sou amigo do rei”, certo? Passaram também
pelos computadores de vários brasileiros, como Bandeira e
Sant’Anna, um poema da lavra deste, vergastando a mentira como
prática padronizada (infelizmente) na condução dos negócios
públicos no Brasil. Escrito na gestão do general Figueiredo,
canto do cisne da ditadura militar, contra a qual o poeta
militou, os versos parecem tratar do Brasil contemporâneo, onde
gestores públicos acusados de corrupção, chamados a se
explicar nas CPIs congressuais, apelam, sempre com sucesso
inexplicável, à Justiça para que esta lhes garanta o direito
de... mentir.
É
muito representativo – e o preclaro leitor vai permitir a este
escriba mais esta licença crítica – que felizmente este País,
em que se recorre à Justiça, sempre com sucesso, para insultar
o distinto público com o direito de faltar à verdade, esta
compareça, de forma indelével e elegante, nos dois volumes
editados pela L&PM da Poesia
reunida (de
1965 a
1999) do jornalista que foi a Pasárgada e visitou a última
morada do conquistador da Ásia antiga. Que também é um scholar respeitável, um professor de talento reconhecido e
apregoado e, sobretudo, um dos críticos mais equipados nesta língua
de Camões e Machado.
Naufrágio
na margem - Já é a segunda vez em que se reúne
a poesia
completa de
Affonso Romano de
Sant’Anna. A primeira foi em
A poesia
possível (Rocco,
1987). Uma coletânea de seus Melhores
poemas foi incluída na competente e oportuna coleção da
Global Editora. Certamente, sendo o poeta prolífico e jovem,
outras reuniões e antologias virão a lume, coisa mais que
oportuna necessária neste Brasil de poetas demais e leitores de
poesia de menos. Conservado seu estro, mantido seu sucesso,
inesgotado seu brilho de professor e exegeta, nós, seus
leitores, ainda seremos premiados com excelentes oportunidades
reservadas a alguns poucos eleitos, uma bênção também para
seus colegas menos aquinhoados, pois um poeta que se edita num
mercado em que
a poesia
fica à margem lutando, ainda assim, contra alguma oportunidade
de naufragar, a oportunidade que um grande tenha será sempre
uma chance para o menor.
Tristão
de Athayde, o mais festejado dos críticos literários do
Brasil, viu em seu colega mais jovem o oposto do portenho Jorge
Luís Borges, que se trancou numa torre de marfim para produzir
uma obra poética inefável e sem dúvida bela, mas também
percebeu entre os dois uma semelhança que os irmana: a
capacidade de ser universal, de pertencer ao “planetarismo poético”,
que cada um deles tinha e tem. No exíguo espaço que me cabe
para falar de obra tão completa e vasta, peço vênia para
citar os derradeiros versos de seu poema Que país é este?, que escolhi para figurar na antologia Os
melhores poemas do século 20, que organizei para a Geração
Editorial em 2001. “Povo / não pode ser sempre o coletivo de
fome. / Povo / não pode ser um séqüito sem nome. / Povo / não
pode ser o diminutivo de homem. / O povo, aliás, / deve estar
cansado desse nome, / embora seu instinto o leve à agressão /
e embora / o aumentativo de fome / possa ser / revolução.”
Assim se faz a melhor poesia: com militância, mas sem concessões.
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