SEMINÁRIO DE JORNALISMO E LITERATURA
NA
ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS

   
 

 

 

Palestra de José Nêumanne Pinto

 


TERCEIRA SESSÃO
DIA 23 DE OUTUBRO DE 2004

1ª. TRANSCRIÇÃO DAS FITAS DE ÁUDIO 


     

Moderador:
Meus amigos, cumprindo o programa e o horário, 18h, está aberta a terceira etapa do Seminário de Jornalismo e Literatura. Para o dia de hoje, nós temos previstas duas palestras dos acadêmicos Lêdo Ivo e Ivan Junqueira e uma palestra do jornalista de São Paulo José Nêumanne do Jornal da Tarde. Dois acadêmicos vão, a seguir, tecer comentários sobre essa palestra. São os acadêmicos Antonio Olinto e Evanildo Bechara, aqui presentes. E eu, para dar início à sessão, convidaria os que vão participar, que são Lêdo Ivo, Ivan Junqueira, José Nêumanne, Antonio Olinto e Evanildo Bechara, que tomassem lugar à mesa. Quero assinalar que está presente, e se quiser e tiver condições de ficar, o Presidente da Academia Brasileira de Letras, Embaixador Costa e Silva. Senão, evidentemente, é dele a primeira cadeira da primeira fila, da mesma maneira. 
Queria assinalar também, que estão sendo transcritas e digitadas todas as perguntas. No primeiro dia tivemos cerca de 15 perguntas, no segundo dia tivemos cerca de 90 perguntas. As recepcionistas distribuíram as fichas para que os participantes possam [escrever], solicito que não deixem de dar o seu nome, porque o objetivo é, as poucas que puderem ser respondidas diante do horário estreito, serão respondidas. As outras, vamos, com a ajuda dos próprios palestrantes e de um ou dois jornalistas que vão ser encarregados de coordenar as informações, nós pretendemos que elas possam, e devam, ser incluídas nas publicações que serão feitas no início do ano, com a integra das palestras, com a íntegra dos debates e com as contribuições que estão chegando. 
Quero informar também, que o seminário se encerra na próxima semana e ao invés de quinta-feira, será quarta-feira. Com a presença da representação da Académie Française. Vai ser orador principal na próxima quarta-feira, encerramento do seminário, o Acadêmico Pierre-Jean Rémy, da Académie Française, que vem acompanhado da sua esposa, dona Sophie e vem com o diretor geral da Academia, Laurent Personne, jornalista e escritor. E temos esperança de poder, nas conversas com ele, já de alguma forma, tentar oficializar a idéia que surgiu quando da minha visita, na semana passada, à Académie Française, em Paris, e se fazer, no início deste ano, um seminário sobre literatura brasileira, promovido pela Académie Française, em Paris, em que todos os oradores seriam escolhidos entre os membros desta Academia Brasileira de Letras. 
Eu passo a palavra ao primeiro debatedor de hoje, que é o poeta e acadêmico, Lêdo Ivo, que está aqui, inclusive, com a sua esposa. Lêdo Ivo, você tem a alternativa de falar daí, ou se quiser o podium, a seu critério. 

Não, prefiro falar daqui. Senhores acadêmicos, minhas senhoras, meus senhores, Mauro Salles, José Nêumanne. Eu vou falar com as anotações com dois "s" , como diria o Millôr Fernandes, que eu anotei, mas será mais em tom de conversa. Falar de jornalismo e literatura, para mim, é falar da minha experiência pessoal, porque desde os dezesseis anos, na minha província, Alagoas, eu ingressei no jornalismo. Era um jornal chamado Jornal de Alagoas, do Diários Associados de Assis Chateaubriant. De modo que, por mais de quarenta anos, eu fui um chamado "jornalista de banca", isto é, aquele jornalista que acordava todo dia, às cinco ou às seis horas da manhã, para trabalhar no jornal. "Jornalista de banca" como os que estão aqui, por exemplo, o Arnaldo Niskier, o Nêumanne e o Mauro Salles, Antonio Olinto, o Ivan Junqueira. Não o jornalista que colabora em jornal, que vai uma semana, mas aquele jornalista que fez a sua vida, a sua carreira, o seu oficio através do jornal. 
E quando eu me iniciei em jornal, o jornal era muito diferente de hoje. Em primeiro lugar, os jornalistas nem sabiam datilografia, geralmente, escreviam a mão e em resmas de papel ou mesmo papel da imprensa. E nesse jornal importante de província em que eu que trabalhei, o Jornal de Alagoas, uma parte era de linotipos, uma máquina que já foi superada, e outra parte era feita manualmente, letra por letra, nos chamados "caixilhos" de jornal. De modo que por aí, como nos estamos na época do jornalismo digital, a gente pode ver o grande salto que o jornalismo deu nesses 60 anos. Quer dizer, desde a minha estréia como jornalista na província até a atualidade. 
De modo que poucos jornalistas sabiam datilografia. Por exemplo, um jornalista como José Lins do Rego, que escrevia no O Globo, etc, ele escrevia à mão, a letra dele era horrenda, de modo que havia um linotipista que conhecia a letra do Zé Lins Rego, de modo que só ele sabia decifrá-la. De modo que foi nesse jornalismo que eu comecei. E ao mesmo tempo, eu comecei como jornalista e comecei desejando ser escritor, que também era a minha, vamos dizer, o maior desejo ou até ambição. De modo que, desde o começo, então eu descobri que eu teria que ser um homem de duas linguagens: uma linguagem da informação, que seria a linguagem do jornalista e outra linguagem da imaginação, que seria a linguagem da minha realização literária e poética. 
De modo que, então, eu vim para o Rio em 1943 e aqui então eu continuei a minha carreira de jornalista. Um negócio muito curioso, que naquele tempo, o Rio de Janeiro era dividido entre matutinos e vespertinos. Havia uma infinidade de jornais. De modo que ainda hoje de manhã eu comecei a me lembrar, talvez nem me tenha lembrado de todos, mas os jornais que eu encontrei aqui no Rio, na década de 50, os matutinos eram: “O Correio da Manhã”, que era talvez o jornal mais importante, mais respeitado que havia e até o mais aristocrático num certo sentido, “O Diário de Notícias”, que era um jornal importante e que se distinguia por publicar toda a movimentação militar, que havia transferência de militar e da Aeronáutica, da Marinha, do Exército, etc. De modo que era um jornal muito respeitado pela classe Militar. Havia “O Jornal”, que era um grande jornal dos Diários Associados, de Chateaubriant. Esse jornal, aliás, um jornalista atualmente famoso, Fernando Moraes, até escreveu a história do Assis Chateaubriant. Havia o “Jornal do Comércio”, que era o jornal tradicional, muito ligado à Academia, os seus diretores eram geralmente membros da Academia Brasileira de Letras. Inclusive esse jornal publicava numa página inteira, uma terceira página, toda a Ata das Sessões da Academia, de modo que era assim um jornal muito ligado à nossa instituição. E havia “A Manhã”, que era um jornal criado pelo poeta e acadêmico Cassiano Ricardo, era um jornal do Estado e pertencia à União e se destinava, não apenas, à informação, mas também à doutrinação do chamado Estado Novo ou Estado Nacional ou Ditadura Vargas. Havia “O Diário Carioca”, que ostentava na primeira página sempre um artigo de um famoso jornalista, muito combatido, JE de Macedo Soares. Havia “O Radical”, que muitos achavam que era da imprensa "marrom". 
E havia uma coisa curiosa, que era um jornal chamado “Luta Democrática”, que era um jornal que explorava as pequenas misérias e vicissitudes das classes mais pobres, dos subúrbios, da Baixada Fluminense. De modo que esse jornal se caracterizava pelas suas manchetes surpreendentes. De modo que ainda hoje, eu guardo, eu e o Arnaldo Niskier guardamos na memória alguma dessas manchetes que emocionavam a cidade inteira. Eu vou citar algumas. Por exemplo, a história de um operário que uma vez chegou na casa, a mãe não tinha preparado a comida, houve uma briga, ele matou a mãe, então esse jornal, no dia seguinte, publicou a seguinte manchete: “Matou a mãe sem motivo justo”. Há também a história de um operário que resolveu visitar a família no interior fluminense. Então na hora de sair de casa de manhã, ele chamou a mulher para acompanhá-lo, a mulher alegou que estava com muita dor de dente e não ia. Ele então foi obrigado a ir sozinho. Mas houve um grande congestionamento na Avenida Brasil, de modo que quando ele chegou o ônibus já tinha partido. Ele então voltou para casa, quando ele ia entrando em casa, notou um gemido, então presumiu que a dor de dente da mulher tivesse aumentado. Ele abriu o quarto, a mulher estava transando com um camarada. Ele então tentou matar o camarada, etc. Foi um caso de policia. No dia seguinte, a “Luta Democrática” apresentou a seguinte manchete: “O gemido era imoral”. A história também de uma senhora de subúrbio muito ciumenta que resolveu decepar a genitália do marido. No dia seguinte, a “Luta Democrática” publicou a seguinte manchete: “Cortou o mal pela raiz”. Há também, nesse mesmo jornal, uma vez, uma moça, uma estudante da Escola Normal, comeu um cachorro-quente e se sentiu mal, foi para o Hospital Miguel Couto, etc, fizeram uma lavagem. Então ele deu como manchete: “Cachorro faz mal à moça”. E, finalmente, o caso assim mais estrondoso, é a história de alguns desocupados que, na zona rural do Rio, violentaram um porco. Então, o repórter levou a matéria para o secretário, o secretário então ficou indignado, disse: “Mas isso não é título," Estupraram um porco ". A sociedade não admite um título dessa natureza. Vamos ter que mudar”. Então, no dia seguinte saiu: “Estupraram o suíno”. De modo que, esse era o jornalismo daquela época. 
Agora, além dos jornais, havia as revistas daquela época, da década de 40. Que eram “O Cruzeiro”, a grande revista, equivalente à “Veja” de hoje, “A Cigarra”, onde eu trabalhei, “O Detetive”, que era uma revista destinada ao romance policial, "Vamos Ler", que era uma revista de entretenimento, “A Noite Ilustrada”, que era uma revista de fotos, “Carioca”, que era uma revista dirigida por R. Magalhães Jr, o grande jornalista e repórter que depois se tornou membro da Academia, e eu sou ligado a essa revista porque quando eu era adolescente, em Alagoas, essa revista tinha um concurso literário, concurso de contos. E esse concurso, eu ganhei, algumas vezes, prêmios e também Clarice Lispector ganhou prêmio, de modo com as alegrias do R. Magalhães Jr. era de ter sido padrinho literário de mim e da Clarice Lispector. 
Havia também “O Malho”, “A Revista da Semana”, “FonFon” e “A Careta”. Todas essas revistas, e quase todos os jornais que eu citei, sumiram. O que prova que os jornais e as revistas são como as criaturas humanas e até como as civilizações: nascem, surgem e desaparecem. Quando eu cheguei aqui ao Rio, eu fui trabalhar no jornal “A Manhã”, que era o jornal do Estado Novo, do governo. Era um jornal muito curioso, feito um jornal moderno, criado por Cassiano Ricardo, que era um grande jornalista. Foi o primeiro jornal brasileiro a apresentar notícias nacionais na primeira página, especialmente notícias dos estados. Porque naquele tempo, os grandes jornais, como “O Correio da Manhã" , apresentavam toda a primeira página era de noticias internacionais, como se o Brasil fosse uma colônia, como se o Brasil não tivesse o menor interesse para o leitor. De modo que “A Manhã”, do Cassiano Ricardo, que era um jornal ligado ao Getúlio Vargas, etc, foi o primeiro a projetar o Brasil na sua primeira página. E era um jornal muito importante, porque entre os seus redatores e colaboradores, figuravam Gilberto Freire, José Lins do Rego, Cecília Meireles, Affonso Arinos de Mello Franco, Vinícius de Moraes, que era o crítico de cinema, Lúcio Leão, Oliveira Viana, Menotti Del Picchia, Manuel Bandeira, Adonias Filho, Jorge de Lima, Murilo Mendes. De modo que, é muito curioso, a menção a esses nomes, porque mostra as curiosas relações entre a inteligência e o poder aqui no Brasil. Naturalmente que depois da queda do Estado Novo, esses grupos se dispersaram, etc e talvez até muitos deles tenham dito que eram da oposição daquele tempo. Também em 1944, tendo eu publicado um livro "Ode e Elegia", que recebeu um critica muito elogiosa de Álvaro Lins, que era então o grande crítico do “Correio da Manhã” e a figura mais respeitada da crítica brasileira. Eu, então, fui convidado para ser o cronista dominical do “Correio da Manhã”. Isto permitiu que, ao lado de minha atividade jornalística, eu também começasse a exercer, semanalmente, uma determinada atividade literária e me inserisse no hall dos cronistas brasileiros. O “Correio da Manhã” foi um jornal muito importante da década de 40. 
Bem, na década de 50, houve três acontecimentos que eu considero fundamentais. Primeiro lugar, o surgimento de “Manchete” para concorrer com “O Cruzeiro”, uma revista que realmente revolucionou a indústria de entretenimento no Brasil e foi criada por Adolfo Bloch, um imigrante russo, de uma família de tipógrafos, de modo que ele trazia até uma experiência ancestral a esse respeito e foi uma revista que teve muita influencia até o seu fechamento recente. Foi a revista que sucedeu ao “O Cruzeiro”. Em segundo lugar, foi a fundação da “Tribuna da Imprensa” por Carlos Lacerda. Nesse jornal eu fui trabalhar e foi outra experiência que me converteu num jornalista político, ao lado do Murilo Melo Filho, que eu acho que não está aqui não. Ah! Está aqui, é? Aliás, falando em Murilo Melo Filho, ele se iniciou, eu mencionei aqui “O Correio da Noite”, um pequeno jornal católico que aqui havia no Rio e foi lá, então, que o Murilo começou a sua trajetória que terminou aqui na Academia Brasileira de Letras. E também, a fundação de a “Ultima Hora”, um jornal criado por um outro filho de imigrantes, Samuel Wainer, para apoiar Getúlio Vargas. Curioso que desses jornais, quer dizer dessas criações da década de 50, só a “Tribuna da Imprensa” sobreviveu. Uma vez que a “Manchete” e a “Última Hora” já não mais existem. 
Agora, ao longo do tempo, várias coisas devem ser salientadas. Em primeiro lugar, é a linguagem jornalística, por exemplo, a mudança de linguagem. Quando eu comecei a trabalhar havia uma coisa em jornal chamado “nariz de cera”, quando você escrevia uma noticia, você primeiro tinha que fazer um comentário inicial, por exemplo “Inundação no Rio de Janeiro”, você deveria dizer que o Rio era uma cidade sujeita a inundações, essas coisas, etc. então lá no meio da notícia você colocava que, ontem o Rio foi inundado. Mas depois como houve, após a Segunda Grande Guerra, a influência francesa no Brasil foi substituída pela influência americana, criou-se a primeira Faculdade de Jornalismo no Brasil e os jornalistas deixaram de ser fruto do convívio deles nas redações, da experiência transmitida pelos companheiros mais velhos. Os jornalistas então vinham das faculdades, vinham naturalmente, quase sempre, inteiramente "crus", não tendo jamais entrado numa redação de jornal e tendo mais um conhecimento empírico do que fosse jornalismo. 
Mas nessa época então se criou, por influência dos manuais de jornalismo americano, uma nova figura de retórica jornalística, era o lide, que era você, numa notícia, dar o mais importante da notícia na primeira linha, e depois então o sublide, que já era o complemento daquela primeira informação, e assim por diante. Isto constituiu uma verdadeira revolução no jornalismo brasileiro, que é um negócio curioso, porque eu me lembro quando eu era jovem, lá na imprensa, por exemplo, uma vez era o aniversário do chefe de polícia, eu tinha feito uma nota dizendo: “Faz anos hoje, o senhor fulano de tal, o chefe de polícia”. O secretário do jornal disse “Não, isso não pode ser assim, está muito seco”. Então ele escreveu: “A data de hoje assinala o transcurso do aniversário natalício de fulano de tal, chefe de policia”. Quer dizer, você tinha que encompridar o mais possível uma notícia. Por exemplo, ele me deu umas notícias de falecimento lá em Alagoas, também era assim: “Confortada pelo sacramento da Santa Madre Igreja, entregou ontem a alma ao Criador a virtuosa senhora Fulana de tal, não sei quê, após insidiosa moléstia, porque naquele tempo, não se falava nem em doença, nem enfermidade, a palavra era moléstia, que zombou de todos os recursos da ciência médica.” Era assim que se dava uma nota de falecimento na época. 
De modo que também neste tempo, na década de 50, foi introduzida no jornal uma coisa curiosa, que, como o ensino já começava ficar um pouco desagregado na década de 60, de 50 para 60, alguns jornais começaram a admitir, a criar o chamado copidesque, quer dizer um corpo de redatores e de jornalistas que se incubia de copiar, de corrigir e até de traduzir as matérias trazidas pelos repórteres. Eu presumo que o Ivan Junqueira foi um copidesque do Jornal do Brasil. Isto começou, aliás, com Graciliano Ramos, no “Correio da Manhã”. É um negócio curioso, aliás o problema da linguagem jornalística, porque hoje eu considero que a linguagem jornalística é a mais precária e às vezes a mais, vamos dizer, constrangedora que nós podemos imaginar. Porque como eu vim de uma época em que a gramática, a educação humanística era muito rigorosa, os jornalistas sabiam escrever, o que não ocorre hoje, porque na maioria dos jornais os textos são realmente muito mal escritos. Eu posso até dar exemplo, há poucos dias, eu li numa das mais famosas colunistas políticas do Brasil, uma frase que era mais ou menos assim: “O presidente José Sarney não dispôs-se a apoiar a emenda que foi-lhe sugerida pelo senador tal”. Isso eu li num grande jornal brasileiro, num grande jornal carioca. E quase todos os dias há erros dessa natureza. 
De modo que, continuando, eu me volto para uma visão da atualidade jornalística, que é talvez o que eu possa chamar de “a morte do jornalismo de jornal”. Porque pela minha experiência, o Rio tinha quinze jornais, hoje tem três: “O Globo”, “Jornal do Brasil”, “Jornal do Comércio” e “O Dia”, quatro jornais. E o “Extra”, de modo que são cinco jornais! Então isso prova que cada vez, é um negócio curioso, cada vez a leitura de jornais está diminuindo no mundo inteiro. Os jornais americanos compram que outros jornais, assimilam os outros jornais e a tiragem não aumenta, de modo que é um tipo curioso, quer dizer, os jornais perderam o predomínio, o controle da informação do primeiro momento, graças ao rádio e à televisão, que são duas novas linguagens importantíssimas. A própria civilização verbal de antigamente se tornou hoje uma civilização visual e audiovisual, é uma civilização de imagens, de modo que o texto perdeu cada vez mais a importância no jornalismo brasileiro. Os vespertinos, por exemplo, sumiram. Antigamente havia matutino e vespertino, mas quando o jornal começou a se industrializar, chegaram à conclusão que a permanência do jornal na banca favorecia as vendas e de modo que todos os jornais como “O Globo”, por exemplo, que era vespertino, saía ao meio-dia e, às vezes, até com tiragens três horas da tarde, passaram a ser matutinos. 
Outra coisa muito curiosa, é que antigamente os jornais tinham donos, por exemplo, “Correio da Manhã”, o Dr. Paulo Bittencourt, “Diário de Noticias”, era o Orlando Dantas, “A Notícia” era o Cândido Campos, eram instituições familiares, o “Diário Carioca” era o Horácio de Carvalho Jr., etc. De modo que, hoje os jornais, praticamente pertencem a corporações, você não pode identificar quem é o dono, ao não ser, no caso ainda do “Jornal Estado de São Paulo”, ou então do “O Globo”, de modo que, esta foi também outra mudança que ocorreu no jornalismo brasileiro. Outro caso a salientar é a proliferação de revistas, porque se aquelas revistas tradicionais sumiram, hoje qualquer banca de jornal oferece um número impressionante de revistas, sobre vários assuntos, sobre gastronomia, sobre astrologia, revistas eróticas, etc, de modo que especialmente a indústria da revista erótica, que é consumida no país inteiro, com aquelas mulheres nuas, que aliás, em Alagoas, por exemplo, esse tipo de revista é chamado de “revista de mulher de papel”, porque as mulheres aparecem apenas nas fotografias. 
A título de reflexão final, cabe-me dizer que, na minha opinião, a televisão em que a visualidade superou o texto é, a meu ver, o jornalismo atual, é o jornalismo da imagem. E dizer que o jornalismo não foi para mim apenas, vamos dizer, um oficio, o oficio da minha vocação e um dos caminhos de afirmação pessoal e literária. Foi o meu espaço de conhecimento do homem, quer dizer, porque o fato de ter sido jornalista me propiciou um grande conhecimento da natureza humana, tendo um grande convívio com as mais diferentes pessoas, das mais diferentes classes sociais e também já que o objetivo desse seminário é estudar exatamente “jornalismo e literatura”, há muita discussão sobre o jornalismo, como se fosse o jornalismo uma coisa separada da literatura, a literatura separada de jornalismo. Embora o jornalismo pertença ao universo da informação e a literatura ao universo da imaginação, há uma espécie de interpenetração dos dois gêneros, de modo que no meu caso pessoal, porque a minha visão do jornalismo é uma visão pessoal, uma visão nascida da experiência, eu diria que o jornalismo me ensinou, entre as coisas que me ensinou, me ensinou, vamos dizer, uma espécie de clareza e de exatidão, que eu presumo que eu não teria tido se não tivesse exercido o jornalismo. 
Em um livro meu, “Confissões de um poeta”, eu afirmo que a profissão de jornalista é uma das que mais ensejam ao conhecimento da natureza humana. Com suas grandezas, misérias, ambições, você, como jornalista, conhece todo mundo, desde o candidato a Presidente da República, até o mendigo, de modo que isso lhe dá uma grande riqueza de formação, de conhecimento e de convívio. Então, nesse livro, eu digo que as profissões que mais, vamos dizer, com mais exatidão ou com menos inexatidão podem revelar a natureza humana, que podem levar a gente a conhecer a natureza humana são a de padre, a de prostituta, a de médico e a de jornalista. De modo que eu não saberia dizer onde em mim começa o poeta e onde começa o jornalista. O jornalismo me ensinou a ser claro, mesmo sendo obscuro e me ensinou a ser um observador do coração humano. Muito obrigado!

Moderador:
Agradeço ao poeta e acadêmica Lêdo Ivo, não só essas observações sobre jornalismo e literatura, mas essas lições de vida. O seminário atribui a cada orador um diploma e convida pessoas significativas para entregá-los. Se ainda não fugiu, está aí o editor José Mário Pereira, da “Topbooks”, que eu convidaria que aqui viesse para entregar ao Lêdo Ivo o diploma de orador desta palestra. José Mário ainda está aí? Fugiu, José Mário Pereira, inclusive, o seu “Topbooks”, vai tomar conta, em poucos meses, da livraria da Academia Brasileira de Letras, no andar abaixo. Convido o também jornalista Valdir Ribeiro Durval, do “Pen Club”, para que venha aqui para entregar este diploma ao Lêdo Ivo. 




FITA 8 LADO A (continuação fita 7 lado A)
Moderador:
Valdir Ribeiro Durval é editor de uma revista de poesia trimestral, de alta qualidade e ele me informou hoje, que na próxima sessão, na sessão de encerramento, vai dar exemplares da revista, do seu número que está circulando agora, para todos os participantes que estiverem presentes.
Com a palavra, o Secretário Geral desta Academia e grande estimulador dessa fase brilhante que a Academia está vivendo, sob a presidência do embaixador Costa e Silva e dele próprio, uma diretoria muito engajada, o poeta e jornalista Ivan Junqueira, que também franqueio se quer falar dali ou daqui, fica às suas ordens. As palestras duram vinte e cinco minutos. 

Acadêmico Ivan Junqueira
Senhores acadêmicos, minhas senhoras, meus senhores, em primeiro lugar, eu queria, não apenas agradecer, mas também parabenizar vivamente essa iniciativa de Mauro Salles, ao organizar este seminário sobre Literatura e Jornalismo. Eu me lembro, que de início, eu prometi a ele que compareceria na qualidade de Secretário Geral à Abertura do Seminário e depois voltaria quando fosse a minha vez de falar. E eu descubro que estou participando de todas as sessões desse seminário, todas muito importantes, com depoimentos significativos e esclarecedores, para essa platéia enorme, como há muito tempo a Academia não vê, e naturalmente uma platéia vivamente interessada no tema Jornalismo e Literatura. 
Na linguagem teatral há um termo que se chama “a deixa”, é quando um ator começa a falar a partir de uma pista que lhe deixa outro ator em cena. E como eu ouvi, com muito interesse, todas as palestras que foram aqui proferidas, algumas coisas me chamaram muito a atenção, e eu vou começar então essa minha fala de hoje aproveitando certas deixas. A primeira delas, e que tem tudo a ver com o tema, é a de Carlos Heitor Cony, quando fez a sua conferência, no primeiro dia, e se referiu aqui, ao caráter datado do jornalismo e à condição de permanência da literatura. Ele usou, inclusive, uma imagem muito engraçada, dizendo que o escritor permanece porque é um mergulhador de águas profundas. Enquanto o jornalista, seria aquele peixinho de aquário, que se move o tempo todo para que a cena se torne mais visível por parte de um auditório, que cada dia quer uma coisa nova. É uma função inarredável do jornalismo trazer a cada dia uma coisa nova. Essa coisa nova que se chama notícia. 
Então, nós estamos aqui, diante de uma situação quase paradoxal. Porque esse caráter datado, afastaria qualquer possibilidade do exercício da literatura dentro do âmbito jornalístico. Então, a conclusão seria: nada é mais distante e nada é mais próximo do que o jornalismo da literatura e vice-versa. Se nós pensarmos, por exemplo, em termos estritos desta Academia Brasileira de Letras, o número de jornalistas que pertenceram a ela é simplesmente incalculável. Ela foi fundada, inclusive, em 1897, por vários jornalistas, que eram também escritores. É o caso de Alcindo Guanabara, é o caso do próprio Machado de Assis, que era um cronista exemplar na sua época e é o caso de Raul Pompéia, é o caso de Olavo Bilac, que lidou inclusive com propaganda. Como é o caso também de Euclides da Cunha, porque na origem de Os Sertões está uma grande reportagem jornalística, porque Euclides da Cunha foi, o que hoje nós poderíamos entender, como um correspondente de guerra. Ele foi encarregado pelo “Estado de São Paulo” de cobrir a tragédia de Canudos e ali sem que talvez ele soubesse, ou talvez soubesse, mas sem que ninguém mais pudesse desconfiar, estava nascendo aquela tessitura intricada e absolutamente genial, responsável inclusive por uma espécie de identidade nacional que é “Os sertões”. Agora, quando Euclides começou a enviar as suas matérias para o Estado de São Paulo, a impressão que me fica é que, numa certa medida, talvez numa grande medida, ele tentou fugir dessa datação do tempo. Naquela época, inclusive, isso deveria ser mais fácil, porque Euclides não lidava ainda com aquele jornalismo profissional que se instala mais ou menos na década de 1920 no nosso país, quer dizer, o jornalismo amador se despede, então Euclides tinha a liberdade de criar o texto que bem entendesse, porque todo o jornalismo que se prática no século 19, como observou aqui, em sua palestra, o nosso confrade Eduardo Portella, é aquele jornalismo do publicismo e da crônica. Quer dizer, na verdade, um jornalismo mais datado ainda, mas que no entanto, dava a quem se exercitasse nessa área, uma liberdade literária, e sobretudo estilística, maior do que se da hoje ao escritor que, por ventura, passa pelo jornal. 
No meu caso, eu não fui um jornalista regular. Eu ia e saía, ia e saía, e se eu for computar todos esses anos de prática jornalística, são mais de vinte ou trinta anos ligado a jornal. E eu tive uma espécie de, uma sorte muito grande, de me iniciar em jornal quando, praticamente, estava começando toda a grande reforma do nosso jornalismo. Eu me lembro que eu me iniciei, ainda completamente cru, na “Tribuna da Imprensa”, que já tentava fazer um jornalismo mais de acordo com a época em que então se vivia. Passei depois para o “Diário Carioca”, que na verdade, foi a grande matriz da revolução jornalística, que depois ocorreria mais precisamente na década de cinqüenta, no “Jornal do Brasil”. Agora, o que acontece? Desde que eu me entendo como alguém que definiu um destino na vida, a minha preocupação está ligada à poesia. Num certo sentido, o jornalismo atrapalha o escritor, porque traz para dentro da sua escrita aquele caráter datado do dia-a-dia, mas por outro lado, é na prática do jornalismo que todos nós aprendemos a ser econômicos, limpos, concisos e até algo avaros, no que diz respeito à nossa maneira de nos expressar. De maneira que neste sentido, o jornalismo me trouxe uma enorme benesse, sobretudo para tudo aquilo que eu escrevo em prosa. 
Eu não sou um ficcionista, tenho inclusive uma enorme inveja de todos os ficcionistas, porque eu sei que jamais poderei escrever prosa de ficção. Mas eu sempre escrevi o que se poderia chamar de prosa "ensaística", e eu me lembro que há uma diferença enorme entre a prosa do meu primeiro livro de ensaios, que é “A Sombra de Orfeu”, inclusive um livro que foi premiado por esta casa, e o meu segundo livro que se chama “O Encantador de Serpentes”. Quando eu, por acaso, releio esses textos, é enorme a diferença em matéria de contenção, de perda de tempo com as palavras, do apuro da própria linguagem, da preocupação com a clareza e da concisão com aquilo que se escreve. 
Evidentemente, que pouco depois, mais ou menos na década de setenta, eu começo a praticar algo de diferente e que aí foge um pouco daquele problema da datação. Luis Paulo Horta, da vez passada, disse aqui umas poucas palavras sobre a atividade dele, não propriamente como o grande editorialista que ele é, mas como o crítico de música. E quando você exerce a crítica em jornal, você pode programar melhor o seu texto. O texto que você escreve sobre um volume de poemas, sobre um romance, enfim, sobre qualquer obra literária, ele não está muito preso a este problema de tempo. Inclusive eu me lembro que desde 1977, até o fim da década de oitenta, à parte o meu trabalho de copidesque, como lembrou aqui o Lêdo Ivo, eu me tornei um colaborador permanente, como crítico literário, de “O Globo”, “Jornal do Brasil”, “O Estado de São Paulo” e a “Folha de São Paulo”. E foi porque, nesses artigos, eu me libertasse um pouco do caráter de datação, é que eu pude depois recolher esses textos, em diversos livros de ensaios que eu publiquei. É claro que, para efeito de publicação, muito se mexia nesses textos, muito se corrigia, se atualizava, achava-se aqui uma frase melhor do que aquela escrita na época em que o foi, mas na verdade, todos aqueles textos iam abastecendo a minha futura ensaística. E nesse sentido, a prática do jornalismo me ajudou imensamente, com todos aqueles fatores que eu anunciei aqui há pouco. Você aprende a ser claro, você aprende a ser conciso, você aprende a se comunicar melhor e, sobretudo, você aprende a amar o autor e, como disse Lêdo Ivo, a compreender melhor a própria condição humana. 
As minhas passagens em jornal, na verdade, foram sempre passagens de um escritor que se sabia não ser um jornalista. Daí estas constantes idas e vindas, daí os períodos pequenos que eu permaneci em jornal. Da última vez, inclusive, tive a oportunidade de fazer uma amizade dessas que não morrem mais, no “Jornal do Brasil”, quando o chefe de redação era o nosso José Nêumanne, que está aqui à mesa. E Nêumanne, não é apenas um jornalista, é também um grande poeta e um homem que sabe escrever com um sabor inexcedível, um texto de análise crítica de livros e de outras chamadas manifestações do espírito. E eu gostaria de contar aqui um episódio, em que dentro do jornal, num determinado momento, numa hora que se diria mágica, o jornalismo e a poesia se deram as mãos. O Nêumanne haverá de se lembrar disso, era uma cobertura de Carnaval de 1984 e vários jornalistas haviam saído do Rio de Janeiro, estavam de férias e de repente eu e o Nêumanne tivemos que inventar a primeira página do “Jornal do Brasil”. Essa página, não só por causa da felicidade dos textos, mas também por causa da qualidade das fotografias, se tornou histórica na redação, merecendo inclusive os mais rasgados elogios, naquela época, de Nascimento Brito. Mas me parece, que foi isso que naquele momento, além da nossa objetividade, nós colocamos nos nossos textos também um pouco da nossa subjetividade, para analisar tudo que havia acontecido e que culminava naquela Quarta-Feira de Cinzas. De maneira que, vejam vocês, como o jornal e a literatura, às vezes, se dão as mãos. 
Agora, eu tenho a impressão de que para o verdadeiro escritor, se ele tem uma trajetória muito acentuada dentro do jornalismo, isso vai acabar por se tornar um empecilho no que respeita à evolução da sua literatura. Porque a criação literária, como qualquer outra forma de criação, a primeira exigência que ela nos faz, é a exigência da solidão e não se pode imaginar como dentro de uma redação de jornal haja solidão, é a anti-solidão por excelência e, no entanto, cada um de nós - e eu vivi essa experiência de uma maneira muito intensa - que um dia foi jornalista se apaixonava por aquele clima de jornal. O clima de redação é cotidianamente uma experiência eletrizante, porque você está notificando o tempo, as coisas que estão acontecendo dentro daquele fragmento de tempo. Lêdo Ivo disse aqui uma coisa, com a qual eu não concordo muito, eu acho que o jornalismo de jornal não está se enfraquecendo e não se enfraquecerá jamais. Mesmo diante da internet, mesmo diante da televisão, quer dizer, dessa verdadeira era da imagem que nós vivemos, mesmo diante disso, o que nos queremos, a cada manhã, ao abrir a porta da nossa casa, é encontrar um jornal, pelo menos um jornal. Como eu estou casado com uma jornalista, eu recebo quatro. É claro que não posso lê-los, mas pelo menos folheio cada um deles, e é uma coisa que eu considero um pouco alarmante para quem já deixou a redação dos jornais, a primeira coisa que eu faço, antes às vezes de escovar os dentes e de tomar o café é pegar “O Globo” e o “Jornal do Brasil”, quer dizer, o meu pão cotidiano é o jornal. E eu tenho a impressão que, essa vivência, essa necessidade de se ter o jornalismo sempre à mão, não é de hoje, não é de ontem e não será de amanhã. Eu acho que é uma necessidade de todos os tempos. 
Luis Paulo Horta, em sua brilhante palestra, lembrou os casos de Heródoto e de Plutarco. A historiografia de Heródoto está cheia de insights jornalísticos e as vidas paralelas de Plutarco, como ele muito bem explicou, é quase o cultivo de um jornalismo cotidiano, de um jornalismo de dia-a-dia. E ele foi muito feliz aqui quando lembrou aquela cena esplendidamente descrita por Plutarco, daquele cavalo que ninguém conseguia domar e que Ciro duvidava de que um dia fosse domado e, no entanto, Alexandre, o Grande conseguiu domar esse cavalo. E aquilo nós é descrito de uma maneira tão encantatória e faz parte realmente de uma crônica daquela época. 
O jornalismo moderno, se assim podemos chamá-lo, aquele jornalismo que começa na França e na Inglaterra no século 17, era também uma necessidade da época e era uma atividade importantíssima dentro desses países, por exemplo, no jornal “The Expectator”, era o grande jornal Londrino do século 18, foi ali que o Dr. Samuel Johnson se tornou o verdadeiro ditador da literatura inglesa. Tudo o que se aprendia a respeito dos tempos anteriores a Samuel Johnson, vinha filtrado por ele, numa medida tal que ele condenou ao ostracismo, durante dois séculos, toda uma fase das mais brilhantes da poesia inglesa, que foi justamente a da Methaphysical Poetry, que somente no século 20, foi resgatada por outro grande poeta chamado TS Elliot. 
Bom, eu concluo daí, que cada um de nós, aqui na Academia, passou boa parte de seu tempo nas redações de jornal. Eu tenho aqui na primeira fila Arnaldo Niskier, que nos confessou outro dia ter passado meio século de sua vida, ligado à redação de jornal e da sua Manchete querida. E Arnaldo ainda está atuando até os dias de hoje. Ontem mesmo, publicou uma crônica exemplar sobre educação no Brasil, no Caderno B, do “Jornal do Brasil”, onde ele nos fala com saudade daquele instituto das normalistas, Instituto de Educação da Tijuca, que é o bairro de nascimento dele, onde num determinado momento havia um glorioso América Futebol Clube. 
E está ali Murilo Melo Filho, que é outro jornalista que veio de “Manchete”, e que durante muitos, muitos e muitos anos exerceu o jornalismo político. E Alberto da Costa e Silva, que, se não me engano, começou em jornal aos 16 anos. Então, há um ponto tangencial entre literatura e jornalismo. Esse ponto de tangência é particularmente visível na casa de Machado de Assis, de maneira que cada um de nós tem o seu tempo de passagem, tem a sua experiência pessoal e é sobre isso que eu me decidi refletir aqui. 
Quais são essas ligações? Quais são essas estreitas ligações entre jornalismo e entre literatura? Como uma manifestação pode ajudar à outra e como, num determinado sentido, ela depende da outra? Em determinado momento, particularmente na segunda metade do século passado, era quase impossível distinguir, pelo menos no Brasil, literatura de jornalismo, porque há o caso, e esses casos não são poucos, de romances que eram publicados em folhetins de jornal. A participação do escritor no jornalismo do século 19, durante a época da Abolição e durante os primeiros tempos de República, a relação do escritor com o jornalismo, seja através do publicismo, seja através da crônica, seja através daquele jornalismo amador a que nos referimos aqui, essas relações são sempre muito intensas e algo decisivas naquilo que cada um deles deixou para a posteridade. 
Eu gostaria de terminar esta palestra, dando uma outra versão daquelas fantásticas manchetes da Luta Democrática, a que se reportou aqui Lêdo Ivo. Falo do caso do porco. A história que eu conheço, não é bem essa. É claro que a origem esta numa frase que era “Comer o porco”. O redator-chefe indignado mudou para “Estuprou o suíno”, e o dono do jornal não satisfeito recorreu ao latim, e o título teria sido, “Coitus cum bestia”. Muito obrigado. 

Moderador:
Eu queria agradecer as palavras com que o acadêmico Ivan Junqueira abriu a sua palestra, fazendo referência ao esforço de organização. Esse seminário que está sendo coordenado pela Interamericana, não teria existido senão fosse em primeiro lugar a extrema cooperação que tivemos de acadêmicos e jornalistas do Brasil todo. Mas, principalmente, a gente tem que lembrar que essas coisas envolvem custos, envolvem um mínimo de organização, envolvem suporte para os que vêm aqui e a sensibilidade de dois patrocinadores, o Bradesco e a Brasil Telecom, tomara que seja transmitido a outros patrocinadores e a outras empresas para que a cultura não fique ao desamparo. Eu queria convidar o acadêmico Arnaldo Niskier, que foi um dos idealizadores desse seminário para que viesse entregar a Ivan Junqueira o diploma que a organização lhe confere. 

FIM DO LADO A FITA 8

FITA 7 LADO B (continuação da fita 8 lado A)


Moderador:
Eu queria informar que dois dos acadêmicos aqui presentes, Arnaldo Niskier e Murilo Melo Filho, vão se retirar antes, porque vão representar essa Academia numa cerimônia de entrega de um prêmio a ABL, que vai ser feito dentro de meia hora, pela Folha Dirigida. Parabéns a essa Academia Brasileira de Letras e aos representantes que vão receber este prêmio. Muito obrigado. 
Queria convidar agora, o jornalista, meu colega, só não é colega demais porque eu sou pernambucano, e entre Pernambuco e Paraíba, há umas discussões ainda não resolvidas. Poeta, sempre agitando o movimento intelectual em São Paulo. 

Com a palavra, o nosso José Nêumanne. 



Jornalista José Nêumanne



Bem, eu resolvi falar aqui porque as pessoas que me encontram na rua e que me vêem na televisão estranham e me acham grande, pois achavam que eu sou pequeno, só porque não tenho pescoço. E como sou um poeta menor, um escritor bissexto e um jornalista obscuro, pois todo editorialista é obscuro por oficio, não posso também sair diminuído no porte físico. Então, resolvi mostrar-lhes minha altura real. Afinal, sou um sertanejo paraibano, com 1m80cm de altura e me orgulho disso: como diz Mauro Salles, morreram pelo menos uns 200 sertanejos para eu sobreviver e ainda ficar desse tamanho. 
Confesso a vocês que não preparei nada do que eu devia lhes falar, porque não consegui definir direito. Recorri à memória para ver em que determinado momento que sacanagem eu fiz com Ivan Junqueira (fui chefe dele) para ele me pôr falando aqui entre Lêdo Ivo, ele, Evanildo Bechara e Antonio Olinto. Ou pensei que podia ter cometido alguma gafe numa das festas que freqüento amiúde na casa do Mauro Salles. Então, só quero lhes dizer o seguinte: o escasso brilho da minha participação nesse seminário não é fruto de irresponsabilidade minha. Nenhum jornalista ou escritor no Brasil recusaria um convite desses. É pura irresponsabilidade dos senhores Ivan Junqueira, Mauro Salles e outros. 
Quero também dizer que, como todo jornalista, sou oportunista e vou me aproveitar bastante de deixas que ouvi aqui. Já que Ivan falou de deixas! E mais: vocês todos estão autorizados a discordar de mim, porque eu não sou dono da verdade, mas um provocador e vim aqui para provocar. Provocar o mestre Lêdo Ivo, que fez uma palestra brilhante e me retirou a possibilidade de recorrer à história do jornalismo e de contar piada com manchete. E Ivan Junqueira, que fez a associação perfeita entre jornalismo e literatura. Hemingway, se não me engano, dizia que todo escritor deveria passar pela redação do jornal, mas só fica no ponto depois de sair dela redação. Vai ver que é por isso que continuo na redação do jornal e Ivan não está mais.
Então, gostaria de fazer algumas pequenas provocações, que podem até virar grandes, dependendo da opinião e das idéias que vocês tenham dos assuntos que vou tratar. Vim aqui lhes fazer uma denúncia e um apelo. A denúncia que farei é que a política, o jornalismo e até a literatura estão assassinando a língua portuguesa. Nós tivemos um presidente que, ao longo de oito anos, achava que era muito bonito e muito importante falar outras línguas. E agora nós temos um presidente que não fala outras línguas e mesmo seu português é bastante precário, o que não impede que eu tenha lido no jornal O Globo uma coluna do meu amigo, o professor de português Pasquale Cipro Neto, elogiando muito o português falado por nosso presidente. Só tenho mesmo de reconhecer é que, se realmente o português do Lula é muito precário, não é tão mais precário assim que o português praticado na imprensa brasileira. É cada vez mais depauperado o português que se imprime nos jornais e nas revistas do Brasil. Aquele exemplo que Antonio Olinto deu é extremamente caridoso e até o considero corporativista. Ele estava era defendendo os jornalistas, dando um exemplo com um erro tão pequeno, como constato diariamente lendo jornais. Sim, ao contrário de Ivan, não sou casado com uma jornalista, mas com uma médica. Só que, como ele, recebo em casa quatro jornais e leio mais dez, porque editorialista escreve muito pouco, mas lê muito. E vocês não podem imaginar como me deparo com pastéis e com erros de português dolorosos. O meu único consolo é que a literatura brasileira também não é assim muito mais generosa no trato da nossa língua materna que o jornalismo não. 
Há pouco conversava com Ivan sobre a perspectiva de alguns grandes prêmios literários serem dados ainda este ano para um escritor que não escreve em português, mas numa espécie de latim vulgar, alguma coisa parecida com português. Até que dá para entender razoavelmente 20% do que ele escreve, mas certamente em vernáculo não é. Aliás, é uma prática comum na literatura brasileira hoje: é muito raro encontrar um escritor contemporâneo que escreva em português escorreito. Então, a minha provocação é a seguinte: a língua portuguesa, seja na imprensa, seja na literatura, nos meios de comunicação em geral, está em franca dissolução. Recentemente, eu vi numa novela de grande audiência no horário nobre da tevê, uma personagem , professora de ofício, confessar que tinha "baixa estima". Ou seja, a pessoa que escreveu confundiu "auto", do prefixo grego “de si”, com alto, uma coisa grande. Como eu, por exemplo, que sou alto, ou não sou? Então, isso é uma coisa corriqueira: nos jornais, na televisão, o português está sendo vilipendiado. Um dia desses, eu falei sobre esse assunto para uma platéia, assim como vocês, em São Paulo, e ao meu lado estava o colega Rodolfo Konder, que citou um número, que confesso que não anotei, um número “x” de línguas que desaparecem diariamente no mundo. No Brasil também desaparecem muitas línguas indígenas, está certo que são línguas que não se escrevem, não se imprimem. Este, evidentemente, não é o caso do português, que é uma língua escrita e impressa, mas eu não tenho muita certeza se o português será uma língua com uma sobrevida muito grande por causa de algumas circunstâncias específicas, uma das quais é um problema grave, que é o desprezo que nós temos pela própria língua materna. Ele pode ser expresso pelo fato de um presidente preferir falar sempre inglês ou francês, ou pela evidência de que um professor de português considera que mudar o gênero de advérbio seja uma coisa correta, desde que quem o faça seja o presidente da República. É o exemplo de como o poder político pode manipular até a gramática. 
Então, gostaria de colocar para vocês, meus queridos mestres acadêmicos, a missão de tentar salvar a Língua Portuguesa. Peço vênia para citar um exemplo pessoal: sou membro do Instituto Cultural Velásquez, que é um grupo de intelectuais e empresários de São Paulo, convocados pelo governo da Espanha para estreitar a amizade e o intercâmbio cultural entre nós, brasileiros e os espanhóis. Recentemente, esse grupo foi recebido pelo Rei Juan Carlos, da Espanha, e tive a oportunidade de cumprimentá-lo pelo brilhante trabalho geopolítico que seu país vem fazendo em relação ao castelhano. 
Há alguns anos, viajei pelo interior dos Estados Unidos e fiquei espantadíssimo com a freqüência com que o castelhano invade a maior potência do mundo. E isso num território onde se fala o verdadeiro esperanto contemporâneo, que é o inglês. Hoje, no Oeste americano os juizes são obrigados a recolher testemunhos em castelhano - isso está previsto na lei. E mesmo em estados do norte e do nordeste dos Estados Unidos o castelhano se faz presente. Constatei isso pessoalmente no interior de Illinois, onde andei de ônibus e as passagens de ônibus são bilíngües - em inglês e em castelhano. Enquanto isso, nós desprezamos nossa língua. Aliás, gostaria de pedir desculpas por ter sido muito duro com Lula e com Fernando Henrique, esquecendo-me do nobre par de vocês José Sarney, cultor do “portunhol”, e de Fernando Collor, autor do célebre “duela quem duela”. E há quem diga que ele costumava pedir “cueca-cuela”. 
Então, cumprimentei o Rei da Espanha, porque considero que, realmente, hoje, no universo, num planeta globalizado, a língua é um elemento de domínio econômico e de dominação política da maior importância. É claro que os americanos mandam no mundo porque têm mais dinheiro, porque têm mais poderio militar, mas também assistimos a um verdadeiro massacre da cultura americana e da língua inglesa sobre todos os outros países do mundo. Em qualquer país que alguém chegar e falar inglês, qualquer um, basicamente, entende. Menos talvez em Nova Iorque, mas isso aí não pesa tanto. A verdade é que isso não acontece com o português e nós temos a triste sensação de que o português é uma língua que está desaparecendo. E está desaparecendo até nos textos literários, nos quais está sendo substituída por alguma coisa meio diluída, que eu não sei bem definir o que é. Talvez estejamos voltando às origens do galaico-português ou do latim vulgar. Está desaparecendo, principalmente, nos meios de comunicação e eu espero que a Academia, como tem entre as suas funções a guarda e a necessidade de manutenção e sobrevivência da língua, encare essa missão como uma missão difícil, uma missão de guerra, uma missão da maior importância. 
Eu, pessoalmente, me coloco, ideologicamente, nessa defesa assumindo para vocês posições muito claras. Eu, por exemplo, acho que é quinta coluna quem espalha por aí que nós falamos uma língua brasileira. Eu aprendi no sertão da Paraíba uma língua chamada portuguesa, Esta língua, eu falo em Portugal e lá sou entendido. E meu neto, que também é neto de portugueses, está ouvindo essa língua da minha parte com sotaque brasileiro e da parte da mãe dele e dos avós maternos dele com sotaque português, mas é a mesma língua. Então peço desculpas a quem defende a terminologia Língua Brasileira, mas acho que, de fato, essa divisão, essa tentativa de criar uma língua própria, como se fosse uma coisa que existisse, é mais uma forma de enfraquecimento, de fragilização da nossa língua portuguesa. 
Calculo que aqui nesta platéia, haja muitos estudantes universitários de Letras e de Português e alguns deles discordarão radicalmente de mim. Mas eu quero ainda defender, e com muita veemência, apesar de respeitar todas as opiniões em contrário, a língua canônica: sim, sou a favor do cânones gramaticais. Acho que uma certa mentalidade, que foi disseminada, caiu nas graças da universidade brasileira - essa de dizer que não há erro de português, que a língua correta é a língua falada pelo povo, seja qual for a língua que o povo fale - e é tida como progressista, socialista, de esquerda, antielitista, na minha opinião, perdoem-me as pessoas que discordem de mim, é, na verdade, no fundo fascista e elitista. E vou aqui tentar explicar com minha argumentação de editorialista para vocês. 
Acredito que temos um enorme patrimônio impresso, guardado em bibliotecas, de uma beleza e de uma grandeza imensuráveis. O idioma português não é o mais prolífico do mundo nem foi nele que se produziu a melhor literatura, mas é uma língua que tem Camões, que tem Machado de Assis, que tem Eça de Queiroz. É uma língua que tem um patrimônio cultural e estético invejável. Então, acho que, quando se prega na universidade, como se faz no Brasil, o relaxamento em relação aos cânones gramaticais, de uma certa forma se está pregando a inacessibilidade do pobre, que não se pode instruir, a esse enorme patrimônio. Então, em nome de um certo liberalismo, de deixar esse pobre falar como ele quiser, dizer “menas” ou coisas que o valham, esta é, no fundo, uma atitude preconceituosa. Pois, em nome desse populismo, se faz, na verdade, um impedimento elitista mercê do qual a pessoa que não tem acesso à universidade também não venha a ter acesso ao patrimônio literário e lingüístico. 
Não sou radical a ponto de achar que aqueles narizes de cera, a que nosso querido poeta Lêdo Ivo, meu ídolo desde criança, se referiu, sejam usados em nossa linguagem coloquial. Eu falo um português coloquial, vocês falam um português coloquial. Uma coisa diferente é quando escrevemos. Só que eu acho que a língua é um instrumento de comunicação. E, sendo a língua um instrumento de comunicação, é preciso que haja um acordo tácito entre as pessoas que se comunicam a respeito, no mínimo, de significados. O que nós vemos hoje é que cada pessoa usa a palavra com o significado que quer, e o interlocutor que se vire para entender. E há também, uma redução absurda do universo vocabular, falado e escrito. Quer dizer, até é possível reconhecer que principalmente entre os jovens haja uma informalidade maior e essa informalidade produza um certo encurtamento do universo vocabular. Mas resumir a língua inteira a cinco ou seis gírias é um empobrecimento que levará à diminuição e em última instância até ao desaparecimento dessa língua. É claro que eu não sou estúpido a ponto de dizer que a língua portuguesa vai acabar, que meu neto não vai mais falar português - ou o filho do meu neto -, mas eu percebo um abastardamento da língua e esse abastardamento está sendo endeusado, do ponto de vista político. Defendi essas idéias polêmicas numa reunião na Biblioteca Mario de Andrade e estava ao meu lado um ilustríssimo professor de português da USP, que argumentou, quando me referi ao uso da flexão do advérbio pelo presidente Lula, que tem uma predileção especial pelo inexistente advérbio “menas”, que o Conde Almeida Garrett também flexionava os advérbios. Então, a única defesa que me restou, como polemista, foi dizer que isso é provável, eu não me lembro de ter lido “menas” no Conde Almeida Garrett, mas eu não ia desmentir o professor de português. Mas eu tinha certeza de uma coisa, conhecendo Lula como conheço, e bem, desde 1975: não foi lendo Almeida Garrett que ele aprendeu a falar “menas”. 
Então, essas são as provocações que eu queria pôr à discussão, porque eu não teria muito mais coisas a fazer depois da aula de história na minha profissão e que eu, comovido, ouvi ali sentado ao lado do Lêdo Ivo, na qual ele traçou em 25 minutos a história da imprensa de uma forma sintética e cheia de graça. Sou – sempre fui - admirador do Lêdo como poeta, mas jamais poderia imaginar que ele fosse um historiador da imprensa tão preciso. E nessa briga que ele arrumou aí com Ivan Junqueira, que, aliás, Ivan Junqueira arrumou com ele, a respeito do desaparecimento dos jornais, eu, como homem de Guttenberg, tenho a triste notícia a dar a meu querido amigo Ivan Junqueir: os jornais estão desaparecendo, sim. Há pesquisas cientificas demonstrando claramente o esvaziamento da imprensa e basta alguém ler os jornais brasileiros para logo perceber que eles estão piorando, lamentavelmente. E o pior é que também estão perdendo o mínimo de apelo que eles tinham, principalmente entre os mais jovens. Há estudos científicos - os americanos são muito bons nisso - que mostram o envelhecimento progressivo do leitor de jornal. A média de idade do leitor de jornal está aumentando muito, provando que Ivan e eu vamos ler jornal até a morte, mas meu neto, Pedro, dificilmente lerá. É muito provável que os jornais desapareçam e eu, como jornalista não tão antigo como Lêdo, mas da geração de Ivan, lamento muito. Ivan, aliás, mentiu, ao se definir como um jornalista bissexto, que ia e voltava: ele é um jornalista brilhante e essa página que ele citou é um trabalho no qual eu só entrei com incentivo, pois foi um trabalho dele e foi um trabalho antológico. Aconselho a todos vocês a a procurarem nos arquivos, pois se trata de uma página de grande qualidade tanto literária quanto gráfica. 
Pois bem, então, nessa briga do desaparecimento do jornal, infelizmente Antonio Olinto fez a observação correta: os jornais estão desaparecendo mesmo, o fato de nós ainda lermos jornais não significa muita coisa, pois os jovens estão deixando de ler e eu não tenho muito a dizer aos jovens para que eles leiam os jornais. Bem, o fato é que eu tinha previsto falar alguma coisa sobre jornalismo cultural, mas não me resta mais tempo algum e eu vou só lhes dizer que o jornalismo cultural no Brasil se vendeu ao mercado. Então, a imprensa na qual milito - e me orgulho de ser jornalista, não sei fazer outra coisa na vida - está participando de uma forma deletéria de depauperar a língua portuguesa e até a ajudando, de forma indireta, ao deixar de promover e de levar ao leitor a informação sobre a verdadeira literatura. Hoje, apesar de alguma exceções, aliás exceções basicamente cariocas, O Prosa e Verso, de O Globo e o Idéias, do Jornal do Brasil, não há espaço para a indústria cultural editorial na imprensa brasileira. Em São Paulo, o Estado de S. Paulo tinha um suplemento cultural famoso, histórico, que desapareceu, hoje está fundido no Caderno 2, aos domingos. E o Jornal da Tarde, em cuja redação trabalho, extinguiu um suplemento que tinha grande importância na veiculação de idéias críticas, que era o Caderno Leitura, que circulava aos sábados. Hoje, nós não temos mais críticos na imprensa, o último dos críticos é Wilson Martins, que já é um homem idoso, de grande talento, de grande importância, cujo trabalho é magnífico, mas um homem idoso. Quando se extinguir Wilson Martins, infelizmente não teremos mais a prática contínua e necessária daquilo a que Ivan Junqueira se referiu, que é a crítica literária no Brasil. Tudo isso faz parte de um processo de metástase lenta e gradual dessa doença de que são acometidos os meios de comunicação e que está matando a língua portuguesa de inanição.
Então, gostaria de colocar essas questões para vocês e de pedir que todos aqui pensassem um pouco em que os cânones gramaticais continuam sendo necessários para que haja um acordo tácito mínimo de pelo menos se entender o que o outro fala. Muito obrigado!




Moderador:


Meu caro colega José Nêumanne, obrigado por esse brilhante depoimento, pelo bom humor com que o conduziu. Eu queria convidar a presidente do “Pen Club”, Maria Beltrão para que entregasse o diploma ao nosso José Nêumanne. 
Queria dizer que já temos mais de quarenta perguntas, mostrando, como realmente este público está nos ensinando muita coisa. Uma das coisas maiores que esse povo está ensinando, quando estimuladas, as pessoas participam. Então isto é muito bonito e muito reconfortante para nós todos. 
Queria passar a palavra, temos, hoje, dois comentaristas, para Antonio Olinto, que foi um dos idealizadores deste seminário, que vai, em dez minutos fazer os seus comentários sobre o que é que já ouviu dos três palestrantes de hoje. 



Moderador:

Acadêmico Antônio Olinto


FITA 8 LADO B (continuação fita 7 lado B)

Agora, eu quero falar sobre o nosso Nêumanne. Nêumanne é um homem extraordinário, não só como poeta, mas como jornalista. Mas eu tenho um amor profundo pela língua portuguesa. Há dois anos, a Suécia organizou um seminário sobre a língua portuguesa e foram convidados dois acadêmicos, eu e o Marcos Vilaça, fomos a Estocolmo, comparecemos e no primeiro dia, um sueco, um rapazinho de uns quinze anos perguntou por que é que nós estávamos aqui, era mais ou menos essa platéia, todos aqui, discutindo língua portuguesa, por que língua portuguesa? Aí o chefe, Arthur Lunskvist disse: “É muito simples, a Suécia tem sete milhões de habitantes, somente sete milhões de habitantes falam sueco. Não há curso de sueco em nenhum país do mundo, ninguém está interessado em aprender sueco. É por isso que todos nós desta sala, sabemos inglês como segunda língua, que é com ela que nós vivemos. A língua portuguesa tem 220 milhões de pessoas falando português. É do nosso interesse, na Suécia, este paisinho – ele disse mesmo assim - com sete milhões de habitantes, aprender uma língua que é falada por 220 milhões de habitantes.” Portanto, há que ter um amor profundo por essa língua. 
Quando, em Londres, um jornal fez uma estatística dos jovens, quantas palavras sabiam para usar na vida, descobriram essa coisa espantosa, os rapazes de rua sabiam somente trezentas palavras, eles vivam com trezentas palavras. Com trezentas palavras, você não pode amar, não pode odiar, não pode conversar. È impossível viver com trezentas palavras, quando se sabe que Shakespeare usou doze mil palavras, que Machado de Assis usou dez mil palavras, e que cada acadêmico que está aqui presente, deve ter usado, no mínimo, de quatro a cinco mil palavras. Porque é com a palavra que a gente pensa, é com a palavra que a gente analisa, é com a palavra que a gente odeia e ama, então temos que saber palavras. 
O que existe hoje, existe realmente uma globalização lingüística, que sempre houve. No tempo dos romanos, o latim se espalhou pelo mundo. Bem depois, a França começou a predominar no mundo, o francês se espalhou pelo mundo. E agora, há muito tempo, é o inglês. Porque eles têm o poder, e saem com o poder pelo mundo e impõem de certa maneira a sua língua. É claro que temos que lutar contra isso, não podemos chegar na Barra da Tijuca e ver escrito “drive thru”, quer dizer, pode guiar em frente. Nós não estamos nem em Nova Iorque, nem em Miami, para colocar um anúncio de “drive thru” para motorista brasileiro. Portanto, isto precisa ser combatido, mas a língua que é nossa precisa ser defendida, é claro que Nêumanne tem razão. Quando existe uma deterioração da língua, mas precisamos combater essa deterioração, porque o pior, eu sou terrorista, eu termino quase todos os meus discursos e conferências dizendo o seguinte: nós temos vinte milhões de analfabetos absolutos, não sabem fazer um ‘A’ e temos mais ou menos trinta e cinco milhões de semi-analfabetos. É possível, é possível levar um país deste para frente, com vinte milhões de analfabetos absolutos? Sabem o que é isso? São quatro Uruguais. O Uruguai tem cinco milhões de habitantes, tem universidade, tem tudo. São três Suécias, que tem sete milhões de habitantes. Nós não podemos carregar este peso. É um peso, não só na consciência, mas no corpo, na economia, em tudo, na cidadania. Como ter cidadania com vinte milhões de analfabetos absolutos. Portanto, além da Fome Zero, existe também a Letra Zero, porque nós temos fome de letras, temos fome da língua portuguesa, temos fome de lê-la, decorá-la, entendê-la, expandi-la, porque ela é o nosso maior instrumento. 
E, ao lançar este seminário, Mauro Salles provocou isto, esta comparação, entre o jornal que temos todos os dias nas mãos, escrito em português, mal português às vezes, errado português - mas para isso temos Bechara, grande gramático e lingüista para ensinar como deve fazer - escrito em português nosso, com, às vezes, as nossas gírias, além de que, eu que faço uma página literário na “Tribuna da Imprensa” e fiz páginas literárias no Globo e em vários lugares, os jornais também têm as suas páginas literárias, têm também uma literatura que também vai todas as semanas, que vai a um público que fala desta coisa maravilhosa que é a língua portuguesa usada e bem usada. Usada como a usou Machado de Assis, como a usou Euclides da Cunha, quando o português era inteiramente diferente, mas era uma beleza de português, e isto é a nossa maior propriedade. Isto é nossa vida, porque a gente pensa com palavras, ama palavras, sonha com palavras. Muito obrigado. 



Moderador:


Muito obrigado ao Antonio Olinto. Eu fui colega, muitos anos de Antonio Olinto, na redação de “O Globo”, então vou tomar a liberdade de pedir que ele venha aqui e eu mesmo vou entregar, ao meu colega que tanto me ensinou, o diploma deste seminário. 
Vou dar uma informação, hoje tivemos, com chuva e tudo, a presença de 325 membros do grupo de participantes, que é exatamente a lotação deste Teatro R. Magalhães Júnior, sem as cadeiras anexas. Eu gostaria de dar parabéns a esse grande público participante. 
Queria passar agora, para seus comentários, ao professor, gramático e acadêmico e grande ser humano que é, Evanildo Bechara. 



Acadêmico Evanildo Bechara


Senhores acadêmicos, prezados colegas de mesa, prezados participantes do Seminário Jornalismo e Literatura. Eu nunca fui jornalista, também nunca fui escritor de ficção, mas sobre esses dois campos, eu sou professor de linguagem, sou professor de língua portuguesa e automaticamente, sou professor da matéria-prima com que se fazem os jornais e com que se fazem os livros de literatura. De modo que estou afinado com este seminário, e neste sentido, quero deixar aqui expresso o meu agradecimento ao Mauro Salles, amigo e conterrâneo, pelo convite que me fez de participar desta penúltima mesa sobre a matéria. 
Na realidade, jornalismo e literatura são apenas duas faces deste esplendoroso mistério fabular, que se chama linguagem. E é curioso observar que, embora a linguagem seja uma faculdade inerente ao humano, porque só os humanos falam, nós temos realmente da linguagem um conhecimento muito rudimentar, mesmo entre os especialistas vigoram idéias que foram aqui proclamadas pelo nosso colega Nêumanne, com muita razão, como jornalista, da deficiência da ótica por que se observa a linguagem. 
De um modo geral, só se pensa que a linguagem está refletida nas línguas, e realmente durante muitos séculos, a lingüística e os estudos de linguagem se reduziam aos estudos da língua, aos estudos das línguas. Mas, na realidade, a linguagem é um fenômeno muito mais amplo, que envolve planos diferentes que precisam ser levados em consideração para que a pessoa atinja aquilo a que hoje, modernamente, damos o nome de competência lingüística. 
A competência lingüística se divide em três planos fundamentais. O primeiro plano é o plano do pensar, porque nós não falamos somente com as línguas, nós falamos também com outros subsídios que fazem parte deste fenômeno extraordinário, que se chama linguagem. Este plano do pensar, envolve também o conhecimento do mundo, do mundo objetivo em que estamos inseridos e graças a eles nós podemos descodificar mensagens que não dependem exclusivamente do conhecimento idiomático, do conhecimento de uma língua particular. 
Quando nós sabemos fazer a distinção entre um político de mãos limpas e uma criança de mãos limpas, a diferença não está no plano da língua, mas neste plano superior do pensar e do conhecimento do mundo objetivo, porque nós sabemos que há políticos que não honram a confiança que lhes foi depositada pelos eleitores, como também sabemos que há crianças que ainda não internalizaram as regras de higiene. A diferença entre uma criança de mãos limpas e um político de mãos limpas, não está na língua portuguesa, mas está no nosso conhecimento do mundo. De modo que a primeira condição para se usar, para se chegar à competência lingüística, nós temos de saber pensar e temos de conhecer o mundo. Isto nos traz, não somente um avanço da nossa cultura geral, indispensável para qualquer ato de falar e escrever, mas também nos permite dissertar sobre esses temas. 
O segundo plano é o plano idiomático. É o plano do conhecimento da língua, a que se referiu muito bem José Nêumanne e eu agradeço vê-lo incluído nesta nossa campanha do aperfeiçoamento da língua portuguesa, que deve ser antes de tudo, o aperfeiçoamento da cultura. No tempo em que se pensava que a nossa preocupação estava no estudo das línguas, e ainda hoje se pensa assim, quando se quer fazer a melhoria da língua portuguesa, pensa-se em uma série de providências que não vão resolver o problema. Aumentar o número de aulas de língua portuguesa, introduzir o latim, ensinar lógica para fazer a meninada pensar, quando, na realidade o que nós devemos fazer é aumentar a nossa cultura, não é a língua que está deficitária. Está deficitária a nossa cultura, o nosso conhecimento do mundo e a nossa competência da nossa cultura de um modo geral. O segundo plano idiomático, é o plano da língua, como eu disse, a que se referiu José Nêumanne, com muita argúcia e com muito patriotismo. 
E o terceiro plano, é o plano do texto, de modo que a diferença entre literatura e jornalismo está, justamente, neste terceiro ponto. Já Buffon dizia “le style c’est l’homme même” - o estilo é o próprio homem e justamente a diferença entre o jornalismo e literatura está na diferença dos estilos, está nas diferenças das visões do mundo. O jornalismo trabalha para o seu semelhante imediato, a literatura trabalha para o eu interior. Empiricamente, Cony fez essa dicotomia, falando do jornalismo como aquele que vive no aquário, enquanto o literato é aquele que mergulha na profundeza das águas. A profundeza das águas é exatamente o nosso eu interior, aquela experiência de falar muito menos interessadamente com quem nos ouve ou quem nos lê, mas para traduzir a si mesmo, este é o literato. O jornalista, não. O jornalista é aquele que tem como menção maior comunicar a outrem uma informação. 
Modernamente nos estudas de linguagem, não somente se privilegiou a pessoa que fala, mas também o ouvinte, um grande estilista alemão Carlos Fosler chamou atenção para isto: não basta atender à pessoa que fala, mas é preciso também atender à pessoa com quem se fala. Surgiram daí várias disciplinas novas lingüísticas, erradamente vistas e entendidas como substitutas da gramática. Não, a gramática estuda o plano da língua, o plano idiomático e essas disciplinas que estudam o texto, a lingüística textual, a análise do discurso, a estilística, a pragmática, essas disciplinas estão voltadas exclusivamente para o texto. O texto na sua materialidade, como se referiu Lêdo Ivo, o texto do lide e do sublide, porque não é só no estilo, não é só feito com palavras, mas é também feito com toda uma arquitetura material do texto. De modo que, a meu ver, todos nós, em campos diferentes, estamos trabalhando nesse prodigioso campo da linguagem, em que a língua portuguesa é apenas um dos seus setores. 
Uma língua, português, francês, espanhol, é apenas um mergulho do homem na sua historicidade, por isso é que não se faz referência a uma língua sem adjetivos, como se faz referência à linguagem. Eu não preciso dizer linguagem humana, porque a linguagem, como vimos, é um privilégio dos humanos, mas quando falamos de língua, temos de dizer língua portuguesa, língua francesa, língua inglesa, língua alemã, etc. Porque uma língua determinada, uma língua particular é justamente o mergulho do homem na sua historicidade. E o texto é o mergulho do homem na sua vida interior, nas suas necessidades imediatas, quer do jornalismo, quer nas profundezas da sua mensagem literária no escritor. De modo que este seminário, é um seminário que há de representar um esforço, no sentido de que esses dois campos, jornalismo e literatura, estejam irmanados com uma preocupação com a linguagem, e na linguagem irmanados na preocupação com a língua e com o texto, isto é com o estilo. 
E gostaria de reforçar as informações e as críticas do colega José Nêumanne, exatamente quanto à necessidade de que a língua portuguesa seja realmente, vamos dizer, recuperada das suas excelências. E esta recuperação das excelências da língua portuguesa, não está somente no aprendizado da língua, mas no aumento da cultura geral, porque é pela cultura geral que a língua então se expande. De modo, que este comentário é um comentário que sobrepaira as informações muito bem apresentadas pelos colegas de mesa e esses comentários querem, mais uma vez reforçar a necessidade de que nós voltemos a oferecer à língua portuguesa a dignidade da sua posição altaneira, a dignidade de uma linguagem escorreita e uma dignidade que seja incontestavelmente, que esteja incontestavelmente paralela à missão a que esta país se destina com o progresso da educação e da cultura. Muito obrigado. 



Moderador:


Queria agradecer ao professor Bechara, seus comentários, eu queria solicitar a presença aqui de Emanuel Públio Dias, diretor da Interamericana, que coordena a equipe que está nos bastidores trabalhando para produzir tudo que vem depois do seminário. Nós estamos digitando todas as perguntas, todas serão respondidas. Nós estamos gravando todos os depoimentos, todos eles serão complementados pelos seus autores e corrigidos e vão se transformar em publicações, em revista, em livro, em cd, destinados a estimular o debate sobre o jornalismo e literatura, e não a resolver o debate. Emanuel. 

Moderador:
Eu queria assinalar que recebemos oitenta perguntas, mais ou menos, o tempo vai ser respeitado e vou dirigir uma pergunta a cada um dos três palestrantes, que é o que possibilita e vou fazer um comentário, que nós recebemos uma crítica de um dos presentes aqui, que não se conforma que haja tantos palestrantes, que haja tanto comentarista e que o chamado “espaço aberto para o debate”, acaba não ocorrendo. A gente, para realizar alguma coisa tem que estabelecer normas de organização e se ater a elas para que se possa ter o mínimo de eficiência. Essa pessoa vai ter também a sua pergunta publicada junto com as outras, vou procurar conversar com ele posteriormente e acho muito bom que as pessoas possam fazer as suas críticas. 
Lêdo Ivo, uma pergunta de Paloma Danenberg, que diz assim: “Gostaria de saber o que o senhor acha da volta dos folhetins. Isso seria possível nos dias de hoje?”

Acadêmico Ledo Ivo
O folhetim está ligado a um determinado tempo do jornalismo brasileiro, não é verdade? Por exemplo, no caso brasileiro, no tempo de José de Alencar, logo no começo da independência, depois Machado de Assis e etc. E há novas formas de folhetim, na minha opinião. Na minha opinião, o verdadeiro folhetim do nosso tempo é a novela de televisão. 

Moderador:
Ao acadêmico Ivan Junqueira, Biessa Alves dirige a seguinte pergunta: “Se é necessário seguir os cânones da língua, como deixar que ela evolua? Se não houvesse evolução nos idiomas, talvez ainda estivéssemos falando latim ou aramaico?”

Acadêmico Ivan Junqueira
Não, eu acho que está havendo aí uma pequena confusão. Nenhum de nós aqui, na Academia, embora estejamos desempenhando o papel de guardiões das palavras, nenhum de nós veta qualquer tipo de transgressão no uso da linguagem, porque essa transgressão envolve uma determinada forma de estilo. Mário de Andrade tentou todas as transgressões possíveis e infelizmente acabou escrevendo numa língua em que ninguém mais entende ninguém. Guimarães Rosa, muito bem fundamentado no plano da língua, foi muito adiante porque desenvolveu uma espécie de estilo cujo objetivo se situava exatamente no plano estético. Agora eu pergunto a vocês, sem o cânone, o que é que se vai transgredir? Se você não conhece o cânone, você vai transgredir o quê? Então, é nesse sentido que a norma culta tem que presidir qualquer criação literária. Agora a partir daí é que surge a possibilidade da transgressão. Agora, até a transgressão se situar no plano estético, é um caminho muito tortuoso, muito difícil e que só realmente os grandes mestres conseguem resultados realmente positivos. Mas eu queria que todos vocês meditassem sobre isso, e é nesse sentido que eu encampo, em gênero, número e grau, a denúncia feita por José Nêumanne, sem o conhecimento do cânone, não há o que transgredir porque não se sabe o que se está transgredindo. 

Moderador:


Francisco Marco Júnior pergunta ao Nêumanne o seguinte: “No tocante ao fato da nossa língua estar na UTI, você concorda que o nosso povo é aculturado e adora estrangeirismo?” 


O estrangeirismo é um vício resultante da civilização. Se for um mal, será um mal necessário à própria civilização, principalmente para quem vive nesta globalização, na qual é natural falar em hambúrguer, hot-dog e coisas do gênero. Não recebo com grande entusiasmo essa lei do Aldo Rebelo de proibir estrangeirismos, pois esse método já não deu certo, por exemplo, na França, que tem uma língua muito mais divulgada e muito mais disseminada do que a nossa. Eu não vejo problemas na absorção do estrangeirismo, o meu problema maior é em relação à confusão que há entre a transgressão e a incompetência. Peço-lhes aqui licença para complementar a resposta que Ivan deu há pouco à questão da transgressão da regra, porque achei que a pergunta foi até mal dirigida ao Ivan – perdoe-me a pessoa que perguntou , já que, na verdade, ela tinha de ser dirigida a mim, porque Ivan não se referiu à questão canônica e quem falou nela fui eu. De qualquer maneira, eu retomo, aqui, a partir da questão do estrangeirismos, o tema do cânone da norma culta, não apenas para endossar o que o Ivan falou – “sem norma culta, não há transgressão” - como também para acrescentar que a transgressão só é possível com uma enorme competência do domínio técnico da norma. Só uma pessoa que tenha um domínio técnico extraordinário da norma é autorizada a transgredir. Não há uma rigidez da língua, é claro que a língua é dinâmica e ela se move. O que não pode é haver ultrapassagem do limite da compreensão. O exemplo que Ivan citou é perfeito: Mário de Andrade tentou criar outra língua, uma língua que para ele seria mais adequada para o Brasil. Essa língua se perdeu e a literatura de Mário escrita nessa língua também. Aliás, Glauber Rocha também fez uma tentativa nesse sentido, malsucedida. Guimarães Rosa, não. Guimarães Rosa, profundo conhecedor da norma culta, profundo conhecedor da lingüística, de outros idiomas, fez um amálgama de uma grande transgressão, de uma grande beleza estética e que permanece viva até hoje. Então, esse é o limite. Não há limites de rigidez: não estou querendo, aqui, manter a língua portuguesa engessada, não é isso. A língua é dinâmica e ela evolui e quem faz a língua evoluir é o povo. Só que tem de haver um mínimo de compreensão entre duas pessoas que a falam e mais ainda entre uma pessoa que escreve e a outra pessoa que lê. Então, existe a necessidade de se fixar, através da norma culta, códigos que permitam a comunicação entre duas pessoas. Em relação ao estrangeirismo, acho que é um problema muito mais residual, fruto do nosso tempo e tem a ver muito mais com o coloquialismo, com a língua falada do que propriamente com a língua escrita. Muito obrigado pela atenção.



Moderador:


Obrigado. Eu queria chamar a atenção dos companheiros que a próxima sessão de encerramento é na quarta-feira e como vai haver fones para a tradução simultânea, porque o orador vai falar em francês, o principal orador do dia, eu recomendaria que chegassem um pouco mais cedo para que o processo de entrega de fones possa ser feito de maneira a não adiar o início da reunião. Eu dou por encerrada a sessão e peço apenas que o Arthur Cantalício procure se identificar comigo para que a gente converse um pouco lá na porta. Muito obrigado a todos vocês. 
Resposta a perguntas encaminhadas por escrito:



Perguntas:


1 - Qual a sua opinião sobre a presença nas redações de pessoas formadas em outras áreas, como história, economia e relações internacionais? O desrespeito aos cânones gramaticais nos textos jornalísticos não se deve, em parte, ao desaparecimento do copydesk? 


A presença de pessoas com outra formação e outra experiência profissional que não a do jornalismo nas redações só pode enriquecer o exercício da profissão, desde que essas pessoas sejam bem escolhidas e exerçam de forma competente a missão que lhes cabe exercer. Não vejo por que transformar as redações em guetos de jornalistas e apenas jornalistas profissionais – o que poderia limitar ainda mais o já limitado universo cultural de nossas publicações periódicas.
É provável que a extinção do copydesk, uma exigência da economia e da nova tecnologia, tenha ajudado a empobrecer a qualidade média dos textos de jornais. Mas a principal causa desse processo é a má qualidade do ensino de português em nossas escolas, principalmente as faculdades de comunicação, nas quais obrigatoriamente são formados os jornalistas para o exercício da profissão.



2 - Como o jornalismo pode ser fiel à sua função social e despertar a consciência crítica da população? 

A função social do jornalista é contar tudo o que sabe e manter a sociedade informada. E lutar para que chegue a ela a mais variada e plural gama de opiniões a respeito dos assuntos de seu interesse.

3 – As elites do país têm interesse em manter as altas taxas de analfabetismo presentes em nossa sociedade? Em que isso contribui para a perda da verdadeira língua portuguesa?

É provável que sim. O esquema de dominação do coronelismo incluía a manutenção das massas na ignorância. No neocoronelismo petista, são mantidos o assistencialismo da esmola como um bom valor e até uma certa valorização positiva da ignorância como se o saber fosse negativo e excludente. É claro que isso contribui para a depauperação galopante da língua – não apenas a canônica, mas até a coloquial.



  © O Estado de São Paulo, 22 de fevereiro de 2006

 

 

Encontro com Nêumanne , o analista político

 

Palestras mais recentes:

 

Palestra de Nêumanne sobre o panorama político nacional: para os membros do sindicato das empresas Petroquímicas, em Mauá, na Grande São Paulo; para a alta diretoria da Suzano Petroquímicapara; o congresso da Officer, onde já esteve como um dos palestrantes, em 2005. 

 

A seguir:

 

Em abril: 19 (quarta-feira) - 9h - Hotel Sofitel - SP 
Palestra de Nêumanne sobre o panorama político nacional, para uma convenção do Açúcar Guarany

 

Contatos:

 

Fone: 0 (...) 11 - 3258.8878

 

E-mail: neumanne@neumanne.com

   
   
 

José Nêumanne, jornalista e escritor, é editorialista do Jornal da Tarde e autor de O silêncio do delator, prêmio Senador José Ermírio de Morais, da Academia Brasileira de Letras, em 2005. Clique na capa para ter acesso à livraria virtual.

Obras do jornalismo de ficção e biografia: Mengele: A natureza do mal. São Paulo: EMW, 1985, romance-reportagem; Atrás do palanque: Bastidores da eleição presidencial de 1989. São Paulo: Siciliano, 1989, reportagem; Reféns do passado. São Paulo: Siciliano, 1992, artigos e ensaios políticos; Erundina: A mulher que veio com a chuva. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1989, perfil biográfico; A república na lama: Uma tragédia brasileira.São Paulo: Geração Editorial, 1992.

 

 

 

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