O Silêncio do Delator: Prêmio Senador José Ermírio de Moraes, da ABL --  "melhor romance 2005" - também figurou entre os 14 finalistas do prêmio de melhor livro de 2003/2004 da Jornada Literária de Passo Fundo (RS), em 2005, vencido pelo romance Budapeste, de Chico Buarque de Holanda e  entre os 10 finalistas do Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira.
 

 

 

 

O SILÊNCIO DO DELATOR

(Capítulo 21, p  451-458)

 

 

José Nêumanne Pinto

 

 

 

 

                                   
    NA GLÓRIA!
     De onde tirei este boa noite, perguntou-se Paulo, se a  treva não chegou? Pelo menos para nós, que estamos aqui de pé. Quanto ao horizontal aí...
     O pensamento de Paulo foi interrompido pela chegada de Pepé à área em torno de Ricardo. Os cheiros dos dois se misturaram. Eau Sauvage de um e o cecê selvagem do outro. Polido, Sua Excelência não torceu o nariz. Au contraire. Apertou com vigor e interesse a mão que lhe era estendida. Nenhum gesto de repulsa, nenhuma careta de repugnância. O ministro se comportou comme il faut. Pepé, o recruta, o olhou com simpatia, calor, consideração. Tudo foi devolvido com a mesma intensidade pelo político.
— Já sei, Ricardo, que você não está me reconhecendo.
— Que é isso, companheiro? Como não iria reconhecê-lo? – devolveu Ricardo.
— Não é culpa sua. Estou mesmo velho e acabado. A vida não tem sido fácil, amigo.
— Sim, sei. Posso imaginar.
— A mesma coisa não se pode dizer de você. É claro que eu o reconheceria em qualquer lugar. Eu ou qualquer outro. Afinal, você é um homem público. Sim, claro um homem público de profissão, mas também um homem público no sentido de servir ao público. Ao povo, melhor dizendo. Vive aparecendo na televisão, falando as coisas certas. Gosto de ouvi-lo. Ultimamente não tenho visto televisão. Você sabe, a vida é dura, amigo. Mas mesmo assim, mesmo que você não fosse um homem público eu o reconheceria em qualquer lugar. Você não mudou nada, rapaz. Parece que foi conservado em formol.
Com a mão espalmada Pepé apalpou a barriga de tábua, musculosa coberta por tecidos importados do servidor do povo. A intimidade não agradou ao ministro. O chegante percebeu e recolheu a mão. Mas o outro foi amável:
— Você não mudou tanto assim.
A voz hesitante dava a entender que o cidadão maltrapilho que havia interrompido sua meditação ainda não havia sido reconhecido pelo figurão. Mas este tinha habilidade para lidar com essas situações de multidão. De que lhe serviria tantos anos de palanque e gabinete, rua e urna, se não conseguisse dar uma resposta satisfatória a uma pessoa do povo, mesmo uma pessoa com hábitos de higiene heterodoxos como a que o abordava? De nada. Portanto, com a habilidade com que conduzia os assuntos de sua pasta, qualquer pasta, o ministro deixou a palavra com o outro. Em algum momento, ele não resistiria e terminaria por se identificar.
— Pelo que consigo me lembrar, ministro – ao usar o apodo, a voz do recém-chegado traiu uma certa condição inferior, um complexo, uma situação de vassalagem -, nós até que éramos bastante chegados na juventude.
— Claro que sim. Nós sempre fomos bastante amigos, não é mesmo, companheiro?
É da patota. Só pode ser da patota. Ou, então, é o Coelho, foi se tranqüilizando o burocrata. Mas não permitiu que alguma reação pudesse tirar dos presentes, nenhum deles, inclusive o homem que o abordou, traísse essa mudança de ânimo. Prosseguiu impávido ciente do sucesso de sua estratégia de bom ouvinte. Ela nunca lhe havia falhado. Por que falharia então?
— Ricardo e Péricles. Dava até um bom meio de campo num time de futebol, não é mesmo, amigo? Muito embora você nunca tenha sido um amante exagerado de esforço físico, não é verdade? Você sempre preferiu o exercício intelectual, a argumentação, não era?
Sim. Pepé, é claro. Como não se tinha lembrado antes? Não podia ser outro. Só tinha de ser ele. Afinal, era o único de quem não tinha notícia. Além de Marco Antônio, o Coelho, é claro.

A VOZ DO MORTO
Aí, negrão, livrou-se de boa, hein? O velho Pepé sempre foi mesmo um boquirroto. Nunca foi mesmo de resistir muito tempo.


NA GLÓRIA!
— Um dia destes lhe telefonei. Deixei recado...
— Não recebi. Desculpe, mas você sabe como andam as coisas. Temos tido muito trabalho. Recebemos uma herança maldita. A burguesia administrou muito mal este país, companheiro. Você sabe disso melhor do que ninguém. Você que está sofrendo na pele a conseqüência nefasta de anos de malversação do Erário, não é verdade?
— É, de fato a secretária que atendeu me disse que você estava muito ocupado e me mandou procurar um assessor lá.
— Que assessor?
— Não me lembro mais. Mas não importa. O assessor não ia entender nada. De que ia adiantar eu lhe dizer que um dia fomos amigos, na adolescência. Que éramos da patota dos sovacões solidários, que nos conhecíamos havia muito tempo. Eu queria mesmo era falar com você. Mas não foi possível. Paciência. Você está muito ocupado. A situação é difícil. Eu sei. Eu entendo.
— Sim, mas o que você manda, companheiro?
— Você sabe, Ricardo, o senhor sabe, ministro, a situação está difícil para todos, mas mais difícil para nós, os pobres. Eu sei, a herança maldita...
— Pois é.
— Então, pensei que você, o senhor, pudesse ter alguma coisa que me servisse.
— Você anda fazendo o que, Péricles?
— Ih, já fiz de tudo um pouco para sobreviver. Meu pai faliu no meio de meu curso de economia, não sei se você sabia.
— Não, não diga. Que pena.
— Pois foi. Com o pouco dinheiro que lhe restou me ajudou a comprar um táxi. Mas você não pode imaginar como é sacrificada a vida de um taxista. Não agüentei, não tinha estrutura para suportar aquilo, rapaz. Uma coisa de louco! Não me casei, optei pelo celibato.
— Invejo você, companheiro.
— Eu não podia nem comigo mesmo. Como sustentaria uma mulher, um filho, não é fato?
— Sim. E assim você se livrou do casamento. Livrou-se de boa, companheiro.
— Família nunca me fez falta. Com o dinheiro que ganhei ralando no táxi freqüentei um seminário. Foi ser pastor. Pensei que ia ter vida mansa. Até que não foi tão ruim assim.


A VOZ DO MORTO
Pode deixar, Pepé. O camarada Ricardo sabe disso. Ele não deixa de ser um pregador. Só que em vez de apregoar a Boa Nova da palavra de Deus na Bíblia, ele exorta seus fiéis a seguirem os princípios do Manifesto do Partido Comunista, de Marx e Engels.


NA GLÓRIA!
Se eu soubesse que o velho Pepé, que deu nome à patota, tinha talento para pregar, lhe teria conseguido um emprego na agência, pensou Paulo, que ouvia, com atenção, a conversa do mendigo e do ministro, até por falta do que fazer. Ou ouvir. Naquele velório...
— Sei, mas por que, então, você renunciou ao ministério religioso, companheiro Péricles?
— Me deu uma coceirinha, sei lá. Uma vontade de sair daquilo. Me sentia mal falando umas coisas. Não dá para explicar. Me associei com uns fiéis da igreja e montamos um cursinho de inglês.
— Eu não sabia que você falava tão bem inglês a ponto de abrir um curso?
— Não falo, nunca falei. Aí que pintou o problema. Pensei que era fácil, bastava contratar os professores. Me dei mal. Fui à falência. Até procurado pela polícia fui.
— Não diga. Lamento muito.
— Então, eu sabia que você ia lamentar, entende? Por isso, pensei que agora, sendo ministro da Saúde, você tivesse algum jeito de me ajudar?
— Sim, é claro. Será um prazer. Não é fácil. Você sabe. Estamos moralizando esse negócio da máquina. Emprego só com concurso. Depois, paramos de nomear e ainda há as injunções políticas, os acordos com o partido da base no Congresso. Temos de respeitar esses pactos. Você sabe, companheiro, temos de zelar pela governabilidade.
— Pois é. Mas eu pensei que você, sendo assim um homem importante, com tantos contatos, pudesse dar uma mão a um velho amigo. Você mesmo disse que eu era o companheiro mais próximo a você na patota dos sovacões solidários.
— Pois é. É verdade. Mas os interesses públicos estão acima das preferências pessoais. Você me conhece bem. Sempre fomos amigos. Sabe como zelo esses princípios, companheiro Péricles.
— Sei. Longe de mim querer que você abra mão deles, o senhor, senhor ministro, abra mão deles. Estive pensando. Gosto muito da natureza, acho um absurdo devastar o meio ambiente como estão fazendo. Quem sabe, você, o senhor, senhor ministro, não conhece alguém numa Ong dessas que luta pela ecologia. Não daria para me indicar alguém? Prometo não decepcioná-lo.


A VOZ DO MORTO 
Ih, amigo, não acredite que deste mato saia coelho. Nosso camarada Ricardo Azevedo está comprometido com o desenvolvimentismo e os princípios da ecologia o contradizem. Melhor você tentar outro. Por que não se oferece para ser caseiro do Paulo? Depois, o último grande espaço pelo qual os ecologistas estão brigando é a floresta amazônica. Mas os bandidos chegaram na frente. As máfias internacionais, com sede em Moscou, a antiga capital da única pátria socialista, já compraram as populações nativas, dando-lhes caminhonetas, e não miçangas, metralhadoras, e não espelhos. E agora os índios zelam pela internacionalização da floresta tropical pelo crime organizado. Contrabando de armas, diamantes, material de biodiversidade para pesquisa científica, tudo isso passou para o controle da bandidagem. As Ongs e os missionários são coadjuvantes nesse processo. E os índios serão dizimados mesmo. 



NA GLÓRIA!
Os índios serão dizimados mesmo, pensou Paulo, ouvindo, com interesse, a conversa do mendigo com o ministro e temendo que aquele o procurasse para dar uma mãozinha em sua sobrevivência e este não o reconhecesse, da mesma forma como não havia reconhecido Pepé, embora, é claro, se parecesse muito mais com o Paulo dos tempos da patota do que o que lhe dera nome se parecia com o adolescente imberbe e cabeludo que virou um profeta do Apocalipse calvo e de barba pontuda, cheia de piolhos.
— Tome meu cartão. Falaremos a respeito. Esta não é a melhor ocasião.
— Sim, claro, desculpe, apesar disso foi um prazer revê-lo.
Pode crer que o prazer foi todo dele, pensou Paulo.
— O prazer foi todo meu – disse o ministro. E voltou à meditação original.


A VEZ DE TUDO
Eu não arrumei nada para dizer, mas está tudo legal, cantou John Lennon antes de acabar a antepenúltima faixa do álbum histórico dos Beatles. O final era uma verdadeira parafernália de sons, tentando reproduzir o amanhecer numa fazenda, com uma seqüência de efeitos que reproduzem vacas mugindo, cavalos galopando e relinchando, passarinhos gorjeando, cães ladrando nervosamente. E o galo cantou mais uma vez, anunciando a passagem para a 12ª faixa com um efeito devido à genialidade do maestro George Martin, que descobriu uma analogia entre o cacarejo das galinhas e as primeiras notas da guitarra que levam o ouvinte ao teatro onde se apresenta a banda dos corações solitários regida pelo sargento Pimenta. 


NA GLÓRIA!
O recruta Pepé recolheu o cartão perfumado do ministro, acolheu a mão dele na sua, deu dois passos para trás e fingiu pensar sobre a vida e a morte olhando as pálpebras fechadas e os fios mortos da barba do extinto João Miguel. 


A VOZ DO MORTO
O silêncio é privilégio
de quem delata 
Daria uma bela epígrafe e até o título, hein? O silêncio do delator! É isso aí. 


        

  ©O silêncio do delator. São Paulo: A Girafa Editora, 2005, p  451-458

 

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José Nêumanne, jornalista e escritor, é editorialista do Jornal da Tarde e autor de O silêncio do delator, prêmio Senador José Ermírio de Morais, da Academia Brasileira de Letras, em 2005. Clique na capa para ter acesso à livraria virtual.

Obras do jornalismo de ficção e biografia: Mengele: A natureza do mal. São Paulo: EMW, 1985, romance-reportagem; Atrás do palanque: Bastidores da eleição presidencial de 1989. São Paulo: Siciliano, 1989, reportagem; Reféns do passado. São Paulo: Siciliano, 1992, artigos e ensaios políticos; Erundina: A mulher que veio com a chuva. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1989, perfil biográfico; A república na lama: Uma tragédia brasileira.São Paulo: Geração Editorial, 1992.

 

 

 

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