José Nêumanne Pinto

 

 

 

 

Li Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, três vezes. A primeira foi no quarto dos fundos, no quintal da casa onde morava na Rua Rui Barbosa, atrás do Colégio das Damas, em Campina Grande. Li freneticamente sem parar, sem dormir, quase sem comer.Aquele texto encantador, cheio de nuances, tão rico de vocábulos e ao mesmo tempo de uma precisão exemplar na descrição de tipos e paisagens, me encantou, me arrebatou. A segunda vez foi num passeio de turismo. No ano em que descobri que a morte passeava nas alamedas de minhas veias, sob a forma de diabetes, cumpri um roteiro turístico com a família pelas cidades históricas de Minas. De Belo Horizonte dei um pulo até Cordisburgo, a cidade natal do autor, e conheci a venda do pai dele. Ali tive a segunda dimensão não só daquele romance de gênio, mas também de toda a sua obra literária: era como se estivesse ouvindo as conversas dos peões, boiadeiros e tropeiros que paravam ali para se abastecer e certamente introduziram o autor, desde menino, a seu linguajar típico, fixo àquele solo, mas universal ao mesmo tempo. Faço a terceira leitura até hoje. Leio o romance como me habituei a ler poesia e como também faço com a Bíblia. Não é texto para ser relido de um fôlego só nem de enfiada. Convém abrir uma página a esmo e mergulhar nele até onde o tempo permitir, deixando que seu ritmo, sua prosódia, invada as retinas e assim chegue à alma e ao coração. Recorro a esse exercício sempre que sinto necessidade de encontrar num texto maravilhoso alheio meu próprio estro perdido na leitura da porcaria toda impressa por aí afora.

 

Leia mais: "Fundamentalistas da transposição", artigo publicado hoje, em O Estado de São Paulo. Clique aqui!

 

José Nêumanne, jornalista e escritor, é editorialista do Jornal da Tarde e autor de O silêncio do delator, prêmio Senador José Ermírio de Morais, da Academia Brasileira de Letras, em 2005. Clique na capa para ter acesso à livraria virtual.

 

 
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