((Este é o 15° capítulo da biografia do poeta e deputado Ronaldo Cunha Lima, que está sendo concluída pelo historiador paraibano José Octavio de Arruda Melo, colega do biografado na Academia Paraibana de Letras. Cunha Lima candidatou-se a uma vaga na Academia Brasileira de Letras. )

 

 

Por José Nêumanne Pinto

   

15.1 – Apenas o poeta; 15.2 – O boa prosa; 15.3 – Poesia, puta caprichosa; 15.4 – Abordagem pela verve; 15.5 – Artesão de sonetos e tercetos: 15.6 – Surpresa e concisão

 



           O menino escutava, absorto, concentradíssimo, o discurso do grande tribuno. Quase não respirava de tanta tensão, tanta atenção. De repente, ao se deparar com uma imagem mais rica, mais bela, não resistiu e suspirou: “Bonito, isso!” Foi a deixa para o velho de longas barbas, a seu lado, impulsionar o braço e alcançar, com a palma da mão direita aberta, o pavilhão auricular, aquilo que no popular se chama de pé-de-orelha. Movido pela força do tapa, o ouvinte rodopiou e caiu alguns metros à frente de onde se encontrava sentado, ao lado do receptor de rádio. Quem contou essa causo foi a vítima, ou seja, o admirador agredido. O objeto de sua admiração era o estro do político e escritor José Américo de Almeida, em campanha para o governo da Paraíba. E o agressor, um seu tio-avô, coronel José Cunha Lima, cujo depoimento no documentário O homem de Areia, de Vladimir Carvalho, viria a provocar muxoxos de desaprovação do primogênito do orador, o general Reinaldo Melo de Almeida.
             Essa história pode ter ocorrido tal como narrada. Ou não. Sabe-se que a memória pode ser traiçoeira ou ainda dar-se a repentes de imaginação. Principalmente quando o narrador é uma pessoa da verve do poeta e tribuno, político e advogado, homem de cultura sempre Ronaldo Cunha Lima. De certo sabe-se que o coronel Cunha Lima e o “homem da praia” eram mesmo inimigos figadais, tendo seus conflitos tido origem na cidade de Brejo de Areia, onde ambos nasceram e o segundo viveu a vida toda. Essa inimizade está bem expressa no tom rancoroso com que o velho coronel se referiu ao antigo desafeto no filme citado: “Hoje em dia falam de Zé Américo como se ele fosse um santo, mas aqui em Areia ele pintou os canecos”, expressão brejeira e deliciosa, mas capaz de conter muita malícia e até muita maldade.
             O fato é que, verdadeira ou fantasiada, real ou imaginária, exata ou exagerada, a história que abre este capítulo funciona, e muito bem, para dar apoio para o que pretende este escriba: acima do gosto pela política, maior que o pendor pelo serviço público por meio da gestão de mandatos populares, mais forte até que a opção pela boemia, nesta incluída a preferência assumida pela ingestão prazerosa de bebidas de forte teor alcoólico, do uísque até a caninha velha de guerra, prevalece na vida e no caráter do protagonista desta biografia empreendida pelo historiador José Octavio de Arruda Melo o pendor pela palavra. Mais que pendor servidão, nem tanto a servidão no sentido estrito da palavra, como sinônimo de escravatura, mas principalmente pelo significado empregado pelo maior de todos os líricos e fundador da língua portuguesa, o soldado caolho lusitano Luís de Camões: os sete anos de pastor nos quais Jacó serviu a Labão por amor à bela serrana Raquel.


15.1 – Apenas o Poeta - Ronaldo tem um currículo político respeitável.    Foi prefeito de Campina Grande duas vezes e para um devoto campinense por escolha como eu, isso já bastaria. Mas ele quis muito mais e mais lhe permitiu seu engenho alcançar. Enquanto escrevo estas linhas, é deputado federal, o que não é pouco, mas também já foi senador. E governador da Paraíba – o que, no dizer das felpudas raposas mineiras, é o máximo que um homem público pode alcançar por méritos próprios, o supremo galardão. O mais, a Presidência da República, é honraria tão alta que passa a depender mais da sorte que de qualquer outro atributo nos limites da atividade humana.
             No exercício dessa profissão, na qual seus colegas não se têm distinguido propriamente pelo zelo com que administram os escassos recursos públicos, ele se tem destacado pela probidade e pela modéstia, o que já lhe daria suficiente valia para figurar entre os próceres de lembrança mais cara. E nestes nossos idos de democracia popular, poucos podem como ele se jactar de tanto prestígio com o cidadão comum. Raros políticos no Brasil gozam de tanta popularidade quanto ele. Ainda assim, ele não reclama para si a definição de Excelência, Político, Deputado, Senador, Prefeito nem mesmo de Governador. Seus eleitores, seus colegas de bancada, seus familiares, seus companheiros de jornadas administrativas o chamam simplesmente de Poeta. E não poderia haver homenagem mais significativa, pois de fato é o caso de reconhecer aqui que se trata de um dos privilegiados alvos das manhas e seduções que a Palavra reserva apenas para alguns eleitos.


15.2 - O boa prosa - Nosso amigo Bráulio Tavares, no lançamento de seu livro Contando histórias em versos no Teatro Brincante de Antônio Nóbrega, na Vila Madalena, em São Paulo, lançou uma nova e instigante idéia: a de que a narrativa não é um subgênero da literatura, mas uma arte à parte que fornece munição para a prosa, a poesia (épica ou de bancada), o cinema, a canção popular, o teatro e até as artes plásticas (as histórias em quadrinhos contemporâneas ou os trípticos medievais, por exemplo). A milenar arte de contar histórias – na qual, segundo o Prêmio Nobel da Literatura Gabriel García Márquez, foi pioneiro o personagem bíblico Jonas, que contou ter vivido no ventre de uma baleia - não deve, segundo Bráulio, ser submetida aos grilhões de quaisquer gêneros literários, mas assumir, de maneira soberana, a própria autonomia. Bráulio mesmo é um exímio narrador de histórias em romances de cordel ou em contos de ficção científica, mas incapaz de contar bem uma anedota, especialidade dos causeurs, para usar aqui uma palavra francesa, não para esnobar ninguém, mas apenas para colher tudo o que o amplo significado do termo permite na língua de Voltaire e Chateaubriand. No Calçadão em Campina Grande pontificam grandes contadores de anedotas, capazes de fazer o interlocutor rir ao lhe narrar pela enésima vez a mesma piada, mas sempre com graça renovada. Ronaldo pertence a essa estirpe especial dos cultores do verbo oral, gente como seu amigo Raminho da Planalto ou Quinha, mais que legítimo herdeiro do célebre mentiroso da feira livre e do matadouro municipal Honorino Brasileiro.
               Conversador de graça infatigável, nosso biografado dispõe do dom da percepção dos personagens dos causos que conta e do ouvinte, além da noção exata do tempo da narrativa, segredo elementar dos humoristas profissionais da ribalta, do cinema e da televisão. Esses talentos o tornam um orador que domina a tribuna, a exemplo de seu mestre nesta arte, o político paraibano Alcides Carneiro, de uma geração anterior à sua e que foi genro de outro tribuno magnífico, o citado protagonista do causo que abre este texto, o estadista e escritor de Areia José Américo de Almeida. Ao lirismo de Carneiro e ao sarcasmo de José Américo RCL acrescenta o gosto pelo debate fogoso das idéias sobre a melhor forma de gerir os negócios públicos. E um conhecimento dos cânones gramaticais e dos caprichos da palavra oral difícil de encontrar em seus mais bem dotados adversários.


15.3 - Poesia, puta caprichosa - Costumo dizer – e já andei escrevendo isso bastante – que ninguém escolhe ser Poeta. A Poesia é que o escolhe. Como aquele proverbial dito bíblico, muitos podem pretender ter essa relação especial com a Palavra, seus dengos, seus ritmos e seus molejos, mas apenas os amantes que ela seleciona e chama ao leito podem se considerar seus serviçais. A Palavra é uma puta manhosa que não obedece a critérios de moral, caráter, fortuna ou beleza para selecionar seus gigolôs favoritos.
              Charles Dickens era um vulgar construtor da própria imagem biográfica, viciado em luxo e riqueza, mas se tornou o mais célebre dos ficcionistas da literatura universal dedicado a içar do pântano da miséria moral as vítimas da revolução industrial. Louis Ferdinand Céline foi anti-semita estúpido e bajulador dos fascistas, mas poucos trataram com tanta fidalguia e elegância a língua francesa, literária por excelência, como ele o fez. Pessoalmente Jonathan Swift era um escroque, mas o escritor, um gênio. Os exemplos pululam na História da Literatura. Só se descobriu que Carlos Drummond era um velho devasso depois de ele ter morrido. Parte da veia criadora de Albert Camus se originava de sua doentia necessidade de ter múltiplas parceiras sexuais. Seu antes amigo e depois desafeto Jean-Paul Sartre adotou posturas políticas posteriormente tidas e havidas como equivocadas, mas nos legou textos literários imortais.
              Ronaldo é um desses privilegiados pela Puta, que é ao mesmo tempo proxeneta, com o dom da palavra poética. Se eu ainda tivesse alguma dúvida sobre isso, a teria dirimido completamente no dia em que, invejoso, ouvi o jovem Astier Basílio, outro favorito da Grande Cortesã, dizer, de cor, um soneto ronaldiano (de 50 Canções de amor e um poema de espera). Uma beleza! Um instante de fulguração extasiante. Reproduzirei aqui o último terceto, três primorosos versos que talvez algum gênio da poesia em língua portuguesa quisesse ter assinado: “Eu quero vê-la. Eu preciso vê-la. / E se ela se esconder em alguma estrela, / eu serei noite pra poder guardá-la”.


15.4 – Abordagem pela verve - A primeira relação estabelecida por Ronaldo com a palavra foi a da verve, da veia do improviso. Ele tem o talento do repentista, aliado ao senso de oportunidade do trocadilhista. Ele é o oposto daquele tipo criado por Jô Soares nos programas humorísticos da televisão, que sempre achava a resposta certa à provocação de algum adversário tempos depois de haver precisado dela. O Poeta é rápido na abordagem da palavra como poucos podem sê-lo.
              Essa verve, que faz dele, como já vimos, ao mesmo tempo um tribuno brilhante, o que muito lhe serviu na política, e um conversador memorável, é que lhe permite uma resposta rápida, aguda e profunda a qualquer adversário, assemelhada à de um amigo e companheiro dele de geração, além de várias vezes adversário nas lides do Fórum, ele como advogado de defesa e o outro como promotor público: Agnelo Amorim. Este “promográfico”, como prefere ser definido, por causa das atividades de sua gráfica Santa Fé, na qual imprime desde propaganda política até o jornal O boi Lucas, para as festas do fim do ano, é, ele mesmo, protagonista dos melhores episódios humorísticos lembrados por RCL, caso do famosíssimo texto satírico O Evangelho de Campina Grande: “No princípio era o verbo, aí vieram os Gaudêncio e o transformaram em verba; depois, vieram os Agra e ficou só o princípio”- uma referência jocosa (e desairosa) a duas das famílias mais poderosas e temidas da cidade.
              Outra deliciosa anedota do folclore político campinense diz conta de sua escolha por fazer uma campanha – a primeira, ainda muito jovem e contra um adversário literalmente de peso, o Pé de Chumbo Severino Cabral – toda em versos improvisados no palanque. A novidade seduziu o eleitorado com a rapidez de um curto rastilho de pólvora. Dizem os malvados que seu Cabral anunciou um discurso em versos no distrito de São José da Mata e tudo o que conseguiu balbuciar foi: “São José da Mata, São José da Mata, ou São José da Mata me mata ou eu mato São José da Mata.”


15.5 - Artesão de sonetos e tercetos - Esse é um caso típico em que a inspiração poética deu resultados eleitorais práticos: o improvisador de palanques nascido em Guarabira foi eleito pela primeira vez prefeito de Campina Grande. Cassado pelos militares, voltaria depois ao cargo nos braços de um povo acostumado a abordá-lo nas ruas, botecos ou na própria casa sempre pelo epíteto de Poeta. Nos tempos de exílio do poder dos mandatos populares, advogou em São Paulo e no Rio de Janeiro e respondeu em versos a questões sobre a vida e a obra de um de seus ídolos, o também poeta e também paraibano Augusto dos Anjos, com garantidos êxitos popular e financeiro. O ritmo do poeta do Engenho Pau d`Arco se faz presente na produção do poeta de livros, da poesia trabalhada, que ele também sabe ser, além de ditos pelo autor com registro de gravação em CD, como o Recital sem limite. RCL é um devoto praticante das antigas (e abandonadas) artes da poesia com rima, ritmo e métrica. Sua poesia de matriz popular se esmera na realização de sonetos e tercetos, técnicas de difícil execução e resultantes de um conhecimento gramatical acima da média.
              ”O soneto é uma obra de artesão e de ourives. Não houve até agora nenhum grande poeta que não tenha tentado, ao menos uma vez, escrever um soneto. Aparentemente, ele aprisiona o poeta nas suas exigências. Mas talvez seja justamente este colete-de-aço e esta camisa-de-força que funcionam como um verdadeiro desafio, o de resumir em apenas 14 linhas – divididas em duas quadrinhas e dois tercetos toda uma história, todo um amor, todo o poema e toda uma canção”, escreveu o jornalista e escritor Murilo Melo Filho na introdução (“Ronaldo Cunha Lima: escravo e senhor do poema”, definição inspirada, a ponto de servir de mote para o cabeçalho deste capítulo) de seu livro 50 Canções de amor e um poema de espera, cujo título lembra o Pablo Neruda herói dos jovens românticos de todos os tempos, leitores de 20 Poemas de amor e uma canção desesperada, também de influência marcante na obra de RCL pelos transbordamentos de emoção. Uma característica, aliás, típica de outro sonetista de escol, o carioca Vinicius de Moraes. Grande poeta, mas desprezado pela crítica acadêmica, seja por cultivar a poesia clássica pré-modernista, seja por sua condição de letrista número um da Música Popular Brasileira (daí, a tentativa de depreciá-lo com o apelido de Poetinha), este agora está sendo resgatado tanto por um reconhecimento crítico póstumo quanto pela divulgação de sua obra mercê do documentário dirigido pelo ex-genro Miguel Farias. Vinicius também é lembrado no texto citado do acadêmico potiguar: “Segundo Vinicius de Morais, as pessoas estão com muita necessidade de emocionar-se. E até de chorar”.
            Poeta por excelência da emoção, o RCL de Poemas amenos, amores demais, título em que se deixa levar pelo gosto pelo trocadilho, envereda por outra técnica árdua, a do terceto. Abre o livro com o abecedário das paixões, as musas em ordem alfabética. Entre elas, Vitória: “Para os meus desenganos, / Vitória foi uma história / de perdas e danos”. Como é dado perceber nesse terceto, o Poeta está sempre de mãos dadas com o causeur, o apaixonado com o trocadilhista, o mercador de emoções de olho na prateleira das memórias de amores sempre presentes. “Ler Ronaldo”, observa, com argúcia, o prefaciador Irapuan Sobral Filho, “é sentir palavras. Há mais palavras entre letras do que pode imaginar um período inteiro”. 


15.6 – Surpresa e concisão - Na introdução do Livro dos Tercetos – breves e leves poemas, o cronista de jornal e político (foi colega de RCL no Senado) Paulo Alberto Monteiro de Barros, que assina com o sugestivo pseudônimo de Arthur da Távola, pontificou: “O terceto é técnica muito difícil. Não possui o redondeamento e a geometria do desfecho lógico-fácil do quarteto. Um pouco deforma, pois afronta as formas maiores com mais espaço para a expressão. O terceto é definitivamente incompleto. Tal como o tango – dá o penúltimo acorde sem emitir o final, deixando em suspenso a conclusão – em parte para que esta se faça no espírito do leitor, em parte por uma razão filosófica: a de que nada, a rigor, conclui-se no mundo mutante do poema. Não se pode dizer que os tercetos de Ronaldo Cunha Lima tenham inspiração direta no ‘hai-kay’ japonês. O ‘hai-kay’ é fluido, sugestivo e proponente. Os tercetos de Cunha Lima são claros, definidos e oponentes. Por vezes, envereda pelo território da incompletude e da sugestão própria da inspiração oriental. Aproxima-se, nesses casos, do `hai-kay’, sem o ser, nada obstante. Este não é, porém, o aspecto principal. O é o fato de estarmos diante de um desafio: o de compreender esse florilégio de mensagens. Ora são filosóficas, ora puramente poéticas, ora com sabor de trova do pé quebrado, ora carregadas de amor, ora amorosas, ora confidentes. Em todas elas, porém, a surpresa permanente, a excepcional concisão na forma e economia de meios para o máximo de expressividade.” Melhor não seria dito, então que fique aqui o registro.
                 Antes de concluir este texto, permito-me citar um parágrafo da introdução que eu mesmo escrevi para outro de seus livros de poesia: “O autor de Poemas de sala e quarto é econômico, como Oswald de Andrade o foi. Como Proust gostaria de sê-lo. Nem por isso, o poeta-boêmio se perde no sentido lúdico do orador de comícios ou do contador de causos das mesas de botequim. O poeta deste livro comunica-se com as palavras quase como se elas fossem materiais. O leitor percebe que sua relação com elas é táctil. O escritor as acaricia, cada uma delas transformada no dorso de uma felina. E as lambe, cada qual tornada o sorvete de todas as infâncias. O poeta se lambuza. O leitor se compraz.”
                 Rei da paráfrase, metalingüista da gramática, como já mostrou em seus mais recentes livros de poesia, Ronaldo Cunha Lima é da palavra servo e senhor, para usar como fecho e como título deste breve capítulo a descoberta de Murilo Melo Filho. Daí, a conclusão de que tudo o mais em sua vida aborda e cerca o verbo como princípio, meio e... fim!

 

José Nêumanne Pinto, jornalista e escritor, editorialista do Jornal da Tarde e comentarista da Rádio Jovem Pan, ambos de são Paulo, é poeta e romancista. Seu romance O silêncio do delator ganhou o prêmio Senador José Ermírio de Morais, da Academia Brasileira de Letras, em 2005, como “o melhor livro de 2004”.  Clique na capa para ter acesso à livraria virtual.

   
   
 
 
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