| |
Será superficial imaginar que as relações do poeta e político paraibano Ronaldo Cunha Lima com a língua se limitam à intimidade que ele sempre manteve e nunca escondeu com a verve. Superficial, embora natural: a verve nele é de tal ordem que ela aparece logo no primeiro contato, na apresentação social. O autor deste Sal no rosto tem os dons da palavra-estilingue e da palavra-esgrima. Na conversa informal, ele dispara flechas verbais em todas as direções e tonto ficará quem tente delas se esquivar. Na tribuna age como se empunhasse um florete ágil, flexível, mas nem por isso menos contundente. Em tais momentos, ele se permite a todas as liberdades poéticas e pula da trova para a paráfrase como se manobrasse um caiaque numa corredeira. Dá até para imaginar que a palavra se deixa manobrar pelo trovador ou pelo orador exatamente porque ele não respeita os limites da conveniência nem da exatidão. É o dom do proxeneta que todo poeta tem de ter, sob pena de nunca receber a visita da prostituta, que é volúvel, cheia de caprichos e não dá a mínima para quem a manipule cheio de dedos e sem segundas intenções. A poesia é dócil tirana.
Mas saiba você, que se prepara para ler esta coletânea de sonetos, que o rei do florete, o atirador de estilingue, o manipulador dos bumerangues verbais (vício adquirido nas funções de desafio de violeiros na companhia de outros maganões como Raimundo Asfora e Agnelo Amorim) sabe tratar bem a mundana, como se esta fosse uma dama, quando se senta à mesa nas quais se sirvam banquetes canônicos. Ronaldo, o trovador, o espadachim, o guri do estilingue, o caçador de bumerangue em punho, também se dá muito bem nos laboratórios da língua culta impressa. Seus sonetos e tercetos traem o domínio exemplar dessas técnicas sutis e o emprego culto da gramática do qual pouquíssimos entre seus colegas que torcem o nariz para o pé quebrado, ao contrário dele, podem orgulhar-se. O boêmio ousado que despe as palavras a goles de cachaça do Brejo natal é também o estilista capaz de vestir a meretriz como uma baronesa na hora de levá-la aos bailes formais da Corte. O segredo do soneto (e mais ainda do terceto) é a difícil manobra da originalidade ancha nos espaços mesquinhos do rigor técnico. Poucos não foram os poetas que respiraram aliviados quando o verso livre do modernismo os desobrigou desse risco, em que o verso pode perder o viço - e até a vida. Senhor do ritmo, dono de um ouvido raro para seu mister, o autor destes poemas não se faz de rogado em enfrentar esse desafio, desprezando as comodidades da liberdade métrica. Leia, prove e comprove.

|
|
| |
José Nêumanne, jornalista e escritor, é editorialista do Jornal da Tarde e autor de
O silêncio do delator, prêmio Senador José Ermírio de Morais, da Academia Brasileira de Letras, em 2005.
Clique na capa para ter acesso à livraria virtual.
|
|
| |
De acordo com a
legislação em vigor, esta mensagem não pode ser considerada
SPAM por possuir: identificação do remetente; descrição
clara do conteúdo; e opção de remoção. Se você não deseja
mais receber mensagens como estas, envie-nos novo e-mail,
colocando em ASSUNTO, a palavra RETIRAR. Webdesigner: estacao@neumanne.com
|
|