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Como
a crônica, ao contrário de outros tipos de texto, não exige
um gancho retirado do noticiário do dia nem assume compromissos
com a lógica plana, que conduz os raciocínios de reportagens,
artigos e editoriais, foi disseminado o preconceito de ser um gênero
menor da literatura e uma forma de jornalismo para autores
preguiçosos. A contribuição dada por um cronista puro sangue
como Carlinhos de Oliveira e a transformação de cronistas em
escritores de fama, caso de Rubem Braga, não a resgataram desse
limbo, no qual permanece como um estilo típica e quase
exclusivamente brasileiro. Trata-se, evidentemente, de uma
injustiça provinda do desconhecimento de quem lê de uma
característica de quem escreve: não existem textos fáceis ou
complexos - eles se dividem apenas em bons ou ruins. Mas é
preciso reconhecer, e logo neste preâmbulo, que o que tem sido
feito com a crônica dos tempos que não voltam mais de
cronistas impagáveis como Luiz Martins, neste jornal, mais que
justifica sua má fama: ocorreu com o gênero que a falta de cânones
precisos fosse confundida com facilitário e muitos cultores
desavisados e mal habilitados (muitas vezes também mal
intencionados) confundissem leveza com leviandade e liberdade de
tratar um tema como libertinagem para desperdiçá-lo.
O livro O
Doido da Garrafa (130pp., R$ 32), de Adriana Falcão, que acaba
de ser lançado pela filial recém-instalada do forte grupo
editorial espanhol Planeta no Brasil, é, ao mesmo tempo, um
resgate da velha e boa crônica dos tempos de Marcos Rey e uma
oportunidade de conviver com os fundamentos de um tipo de texto
que permite uma leitura prazerosa, e não necessariamente
superficial. Trata-se de uma coletânea de textos preparados
pela autora para a edição carioca do suplemento de serviço (Vejinha)
da revista Veja no Rio de Janeiro.
A
colaboração de Adriana Falcão na Vejinha dá ao leitor
carioca o privilégio de manter contato permanente com uma legítima,
inovadora e excepcional cronista, da estirpe de João do Rio e
Rachel de Queiroz (desde a Última Página de O Cruzeiro até
este Caderno 2). O leitor da coletânea, oportunamente lançada
em livro, terá a chance de se associar a este comentário
provando os “suspiros” (aqui no sentido daquele doce de
clara de ovo, e não dos arroubos e amuos das heroínas românticas)
preparados por esmero por uma artesã que trata o vernáculo com
descontração, sem nunca perder a consideração. Por isso, os
textos reunidos no volume são leves, mas jamais levianos.
Eles
foram repartidos entre os temas favoritos da autora – entre
eles “doidos e afins”, “criação” e “cartas”. Na
primeira parte estão os “de amor”, como aquele, antológico,
em que os amantes são classificados de “grandes e
pequenos”: “o pequeno ama, o grande se deixa amar.” Em
seguida, vêm os “de pensamentos e divagações”. Entre
estes destacam-se aqueles em que Adriana Falcão aborda sua relação
de intimidade, servidão e afeto com o dom e o ofício que abraça:
ela põe o leitor a par da busca do tema pelo cronista e da luta
contra a palavra, que, segundo um ilustre antecessor dela, o
poeta Carlos Drummond de Andrade, é de todas a mais vã.
Vale a pena destacar um trecho de um desses textos sobre a matéria-prima
da perícia da artesã. Lá vai: “As palavras têm corpo e
alma mas são diferentes das pessoas em vários pontos. As
palavras dizem o que querem, está dito e ponto. As palavras são
sinceras, as segundas intenções são sempre das pessoas. A
palavra juro não mente. A palavra mando não rouba. A palavra
cor não destoa. A palavra sou não vira casaca. A palavra
liberdade não se prende. A palavra amor não se acaba. A
palavra idéia não muda. Palavras nunca mudam de idéia.”
Assim escreve essa cronista que se mantém fiel às tradições
do gênero ao inová-lo. “Que não daria eu pela memória de
um encontro com Borges que não aconteceu anos atrás”,
confidencia num texto. Noutro voa para ainda mais longe da
gaiola do formalismo: “A sala do coração tem muitas janelas
e duas portas. A que dá para dentro e a que dá para fora. A
que dá para dentro está sempre aberta. A que dá para fora
vive trancada.”
Adriana Falcão tem pleno domínio de um ofício que parece fácil
ou então remanesce impossível, que é esse de fazer parecer
simples o que de mais complicado há na condição humana. O
texto dela mantém portas e janelas abertas nas manhãs de verão
para que o ar possa refrescar os porões de nossas almas, mas
queima lenho na lareira para lhes aquecer as águas furtadas nas
frias noites de invernada. É sempre boa companhia, como só
ocorre com bons escritos – sejam as crônicas de antanho,
sejam essas de agora.
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