| |
|
|
SÃO PAULO - O que mais impressiona na leitura de qualquer texto
da lavra de Adriana Falcão é a naturalidade gaiata, lúdica e
pueril com que ela lida com as palavras. Na crônica esportiva,
costuma-se medir a perícia de alguns craques (caso de
Ronaldinho Gaúcho, eleito o melhor jogador do mundo pela Fifa)
pela intimidade que eles possam ter no trato com seu instrumento
de trabalho, a bola. Diz-se que quem conhece bem a bola a tuteia,
enquanto os pernas-de-pau, coitados, maltratam o esférico e o
tratam com reverência exagerada, de Sua Excelência para cima.
Se há no ofício da escrita algum habitante da Pátria do poeta
lisboeta Fernando Pessoa, esta nossa língua portuguesa, alguém
a quem a metáfora futebolística se amolda à perfeição é
ela. A metáfora esportiva vem a calhar, porque a sra. Falcão
elegeu como personagem importante de um de seus novos livros, A
Comédia dos Anjos, um ser humano que, presume-se, passeia
de chuteiras pelos gramados como se nada calçasse, assim como
ela própria não recorre às luvas para armar parágrafos.
A ação desse texto hilariante, irreverente e saboroso
transcorre em maio de 1958, às vésperas da primeira grande
conquista da história desse esporte bretão que consagrou Fio
Maravilha e Roberto Dinamite e que deu glória e fortuna a Romário
e Rivaldo: a da Copa do Mundo da Suécia. Um mês antes de cair
o queixo do mundo com os dribles de Garrincha e os gols de Pelé,
uma zelosa mãe morre, mas se recusa a se recolher ao sono
eterno para evitar que a filha caia na lábia de um jogador de
futebol, prestes a ser convocado para a seleção. A autora não
se faz de rogada em esclarecer que a protagonista intrometida é
inspirada na própria mãe, já morta, embora ela mesma não
possa ser identificada com a filha sonsa e indecisa, cujo coração
balança entre o craque malandro e o honesto e malsucedido dono
de bar falido, que amanha o empedernido coração materno.
VERTIGEM LAPIDAR - A sra. Falcão tem experiência no métier.
Em parceria com o marido, João, já escreveu para teatro (o
musical Cambaio, com canções de Edu Lobo e Chico
Buarque) e cinema (O Auto da Compadecida) e, em seus vôos-solo,
enriqueceu o complicado universo da literatura infantil (Mania
de Explicação), se aventurou pelos campos minados dos
livros juvenis (Luna Clara e Apolo Onze), parodiou
em nossa linguagem cotidiana O Pequeno Príncipe, de
Saint-Exupéry (A Máquina) e desempenha, com galhardia,
a missão de fazer o povo rir na nova versão da bem-sucedida série
cômica da televisão A Grande Família, criada por
Oduvaldo Viana Filho e Armando Costa. Mas A Comédia dos
Anjos vai muito além de um trabalho bem feito por um
profissional que domina a carpintaria de seu ofício. Seu texto,
curto, vertiginoso, original e lapidado como uma pedra faiscante
é a prova de que rir pode ser a atividade mais inteligente do
homem. E que diversão e boa literatura não se excluem, como
prova este livro leve e solto.
Nisso é confirmado por outro, PS Beijei, escrito por ela
em parceria com Mariana Verissimo, filha (de Luis Fernando) e
neta (de Érico) de grandes artesãos da prosa em português.
Adriana Falcão é internauta de carteirinha, viciada até a
medula no intercâmbio verbal via internet e, com a mesma
facilidade com que inventa histórias impressas, salpica as
frases na telinha do computador como se fossem varinhas de condão
com estrelinhas na ponta, seduzindo o leitor com seu estilo
gaiato, ágil e acelerado. Mariana e ela criaram Bia e Lili,
duas adolescentes em cuja correspondência por e-mail
compartilham as delícias ainda não testadas, mas já
imaginadas, de um beijo e as expectativas de prazer e emoção
das festas que podem levar a esse sonho de consumo.
O PRAZER DA VELOCIDADE - Este outro livro, de leitura ainda
mais rápida e digestiva que o anterior, é um excelente exemplo
de como a linguagem dos escribas da rede internacional de
computadores pode enriquecer o estilo literário sem agredir a língua
nem provocar arrepios de indignação nos cultores dos cânones
gramaticais. As autoras executam com habilidade a tarefa de
contar a história a que se propõem sem trair os códigos e
posturas das personagens, mas também sem confundir o leitor com
a barafunda profusa de seus códigos secretos que impediriam a
compreensão do enredo. Com a devida vênia pelo eventual
exagero da metáfora empregada, eis um livro que é uma delícia
de ser lido.
Enquanto A Comédia dos Anjos leva o leitor ao paroxismo
do riso, a ponto de lhe furtar o fôlego, alterando-lhe o ritmo
da respiração, portanto, e assim atendendo a uma das exigências
da boa prosa, tal como enunciadas pelo craque colombiano Gabriel
García Márquez, PS Beijei reproduz o apreço da
juventude pela velocidade sem tropeçar em clichê nenhum. Em
ambos os textos, a superficialidade aparente é apenas um jeito
diferente, inteligente e interessante de ser profundo.
|
|
|
|