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O livro Fábulas da Febre, do contista paraibano Carlos Tavares, não chegará às livrarias de São Paulo. Isso definitivamente é uma pena. Pois por causa desse detalhe mercadológico, o leitor do maior mercado do País perderá uma excelente oportunidade de conhecer um prosador estreante competente, inovador e, com o perdão da má palavra da moda, instigante. A coletânea de pequenas ficções (uso aqui a palavra porque a referência ao gênio Borges não se limita ao título) só saiu por livre e espontânea pressão de amigos pessoais do autor, principalmente os poetas Hildeberto Barbosa Filho e Antônio Moraes de Carvalho, e terminou por merecer premiação no concurso “Novos Autores Paraibanos”, promovido pela Universidade Federal da Paraíba, além da edição bem cuidada (apesar do corpinho miúdo, torturante para míopes como este escriba), embora artesanal, assinada pelas edições Prac-Coex.
São reunidos no volume onze contos, mas rigorosamente nenhuma narrativa: Carlos Tavares não narra aventuras. A bem dizer, ele remói desventuras: não se filia à escola de Ernest Hemingway ou Jack London, Guy de Maupassant ou Máximo Gorki, os grandes cultivadores do gênero na literatura mundial. Sua genealogia literária pode ser encontrada nos autores das epígrafes que escolheu para os textos: o Edgar Allan Poe de “Annabel Lee” lhe legou sombras; Giorgos Seféris, Emily Dickinson, João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade e Robert Frost, a alternativa poesia; e Samuel Beckett, o gosto pelo absurdo.
Ao preferir a penumbra à luz ofuscante do verão na praia ou do sertão, Carlos Tavares não se faz propriamente um menestrel de amarguras. De fato, se há uma linha-mestra nessas ficções, ela se encontra na proximidade entre Eros e Tanatos, como lembra com perícia Hildeberto Barbosa Filho, encarregado de escrever a apresentação do livro. Mas a presença da morte rondando o amor não significa necessariamente algo depressivo nem muito menos mal humorado. Ao contrário. O único conto que se aproxima de uma narração, “Um moribundo”, está cheio de momentos luminosos, como esta frase que associa magnificamente o êxtase da carne ao do espírito, na melhor trilha de Juan de la Cruz ou de Teresa d’Ávila: “Chega a ver o rosto de Maria, que toca o seu rosto com dedos de pluma e depois o acolhe em seu colo de nuvens para infinitas carícias”.
Repare no ritmo dessa frase. É ou não é poesia pura? E boa! Na verdade, as 11 ficções desse livro mais se aproximam de poemas em prosa do que de narrativas propriamente ditas. Em “Árias nas cordas do Sol”, por exemplo, o orgasmo é descrito numa variante muito bonita: “Rosa retesada pelo prisma do gozo, gangorreava-se ávida num istmo de urros, gorjeios, risos”. São imagens, ritmos, tessituras - nada de realismo, certo? Daí, a correção da conclusão na introdução de Hildeberto Barbosa Filho: “Carlos Tavares, através de seu característico narrador - narrador de ponto de vista singular, precário, perplexo, onírico, devaneante - se põe como poeta. E como poeta sonda sobretudo a plenitude virginal da linguagem, a sua plasticidade, seus veios acústicos, num viés que se conforma perfeitamente com as matrizes valeryanos do discurso”. Muito bem dito. E é isso que o leitor identifica como sendo um parentesco com Nerval, Rimbaud ou Pessoa, muito mais do que com Rubem Fonseca ou Fernando Sabino, mestres das narrativas curtas de eventos.
Essa preferência pela falta de nexo do sonho teria de levá-lo para o fabuloso (o que de certa forma o aproxima de Cortázar) e também para o absurdo. Convém registrar que ele chegou a explicitar isso no parágrafo de abertura de “A Ilha”, um dos sete movimentos da rapsódia para um caçador de pedras, “O Lírio no Labirinto” (a bênção, vovô Borges), com a qual abre o livro: “Meu pai me deserdou, mas sem saber me deu essa ilha de ouro, esse farol de prata, esse colar de pedras marinhas, essa coroa de jade do imperador do absurdo”.
Enfim, chega o leitor a um personagem de carne e osso, o caçador de pedras, Arnaldo Tavares, fundador da Faculdade de Medicina de João Pessoa, ídolo de várias gerações de médicos nela formado, poeta e sonhador. Ou seja, Édipo-rei comparece entre outros tantos mitos gregos que o sonho do escritor transportou para seu reino: um Deus-pai real de um universo surreal de impressões fantásticas, polifônicas, intertextuais e oníricas, de uma beleza e de uma clareza das quais o leitor terá uma idéia ao ler trechos como a abertura de “Eveline”: “Os dedos nas teclas da máquina tateiam as teias da memória encardida pelo nevoeiro de cinzas que o tempo varre e o vento devolve ao presente”. Quem sou eu para dizer melhor desse autor do que ele mesmo
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