2005 - um ano com histórias pra contar

 

     
     

José Nêumanne Pinto *

     
     


             

             Meu “adversário de infância” Bráulio, filho de Cleuza, a Marquesa, e Nilo Tavares, publicou este ano o livro Contando histórias em versos, pela Editora 34, no qual ele reuniu as aulas que deu no Teatro Brincante, de Rosana e Antônio Carlos Nóbrega, sobre poesia popular nordestina para profissionais da educação do ensino público de São Paulo. No lançamento do próprio, lavrado no estilo escorreito, elegante e atraente próprio do autor, colunista diário do Jornal da Paraíba, apesar de morar no Rio de Janeiro, a milhares de quilômetros de distância da redação, o sujeito (que presidira o Cineclube de Campina Grande, enquanto eu fora presidente do Cineclube Glauber Rocha, o rival), lançou uma teoria interessante, que eu peço vênia para lhes retransmitir aqui. Segundo o cabra, a arte de contar bem uma história não deve ser confundida como um subproduto de outra arte, a literária. Às vezes, elas se misturam, mas nem sempre. Além do mais, ela pode ser exercida no uso dos atributos da literatura, seja na prosa, seja na poesia, mas também no teatro, no cinema, na televisão, na canção, na ópera, nos folhetos de cordel e nas artes plásticas – vide as historietas em quadrinho e os trípticos medievais.
            Narrar bem uma história pode resultar, ou não, em boa literatura, assim como um bom texto literário nem sempre conta uma história. Não se pode enquadrar no gênero, por exemplo, À procura do tempo perdido, de Marcel Proust, um dos maiores livros do século 20 e de todos os tempos. Ou grande parte da obra de Clarice Lispector, na esteira de A paixão segundo GH. A poesia lírica, que trata do âmago dos sentimentos humanos, também nada tem de narrativa, ao contrário da épica, que propaga grandes feitos. Os romances de feira no Nordeste, gênero popular dissecado por Bráulio em seu interessante manual, são o exemplo tosco, mas nem por isso desprezível, deste ofício.
           De Raminho a Érico - Um bom contador de histórias pode não se dedicar a escrever. Os melhores que conheço são Raminho da Planalto e Quinha de Honorino. Raminho, empresário do ramo do transporte coletivo, passa as horas livres jogando conversa fora no Calçadão, no centro de Campina Grande, nas proximidades da banca de Wellington Nascimento, que vende doces e laticínios. A cada repetição dele, por mais que o interlocutor já tenha ouvido a mesma anedota ou idêntica lorota (habitualmente fescenina) inúmeras vezes, ela se torna cada vez mais interessante, mais engraçada. Quinha, Adalberto, filho de Honorino Brasileiro, notório mentiroso do Matadouro Municipal e da feira livre da mesma cidade, parece ter um estoque inesgotável de piadas e as conta com uma graça inexcedível, embora não tenha talento algum para a escrita. Outro campinense, o citado Bráulio, cujos textos respiram verve, é incapaz de fazer o mais disponível e receptivo ouvinte gargalhar ao fim de um chiste, por mais graça irresistível que este tenha.
              Não conheci pessoalmente Érico Veríssimo, do qual este ano se celebra o centenário de nascimento e se lembra o trigésimo ano da morte. A julgar pelos testemunhos de seus conhecidos, era um homem afável, mas de pouca graça pessoal. Apesar de tocar saxofone num conjunto de jazz e de ser um dos mais celebrados best sellers com as coletâneas de suas crônicas de humor publicadas nos jornais, seu filho Luís Fernando, é da mesma estirpe. Tenho, contudo, uma lembrança gratíssima da noites de sono em que, num quarto de fundos do casarão da rua Ruy Barbosa, atrás do Colégio das Damas, no centro da cidade de Bráulio e Raminho, me transportei para as planícies verdes dos pampas na garupa do cavalo do capitão Rodrigo Cambará e contemplei o vigor solene com que Ana Terra criou seu filho Pedro. Érico Veríssimo foi um grande escritor, o cultor de uma prosa empolgante e bela. Mas, sobretudo, usou a frase com estilo, a palavra lapidada pelo talento de uma prosa incomparável, para contar a história da formação de sua raça, a semente da bravura e do caráter de sua gente.
              Os amados Jorge e Paulo - As piadas de Raminho só têm graça contadas por ele e, portanto, só sobreviverão enquanto sobreviverem seus interlocutores. A saga de O tempo e o vento, não! Enquanto se imprimir tinta sobre papel, a vida que dela pulsa saltará aos olhos encantados dos leitores do futuro. Este também será o destino de Gabriela, seu Nacib, Tiete do Agreste e Quincas Berro d’Água. Na apresentação do Teatro Brincante, tomei conhecimento das aventuras de Ramon, o andarilho e da vida do grande menestrel negro do Mississipi na Balada de Robert Johnson, dois exemplos do talento de narrador de Bráulio Tavares, incapaz de contar bem uma piada, mas hábil manipulador da palavra escrita e do verso cantado. E imaginei que está na hora de recuperar a boa fama dos causeurs (a palavra francesa é besta, mas não há em português outra capaz de definir de forma tão precisa quem saiba contar bem um “causo”).
              Revolta-me o ar de superioridade pedante com que alguns leitores desavisados, metidos a crítico, torcem o nariz para o estilo de Jorge Amado ou para o sucesso de Paulo Coelho. Alguém que conteste o talento literário de um primor de prosa literária como a novela A morte e a morte de Quincas Berro d’Água, não merece muita atenção mesmo. E há uma dose de preconceito e inveja em quem não seja capaz de perceber a importância que tem para todos os escritores do Brasil e do mundo o fato de as histórias contadas pelo ex-parceiro de Raul Seixas percorrerem o planeta em várias línguas, sendo lidas por milhões de pessoas no mundo inteiro. Mas nem sequer os que não admitem a permissividade do estilo do baiano ou a pouca sofisticação da escrita do mago podem lhes negar o troféu de excepcionais narradores, capazes de cativar o leitor até com uma história que este já conheça e lhe tenha sido contada por outrem. Por falar no amado Jorge, que tanta falta nos faz, o bode velho é lembrado com carinho e emoção por sua viúva, Zélia Gattai, no delicioso e terno Vacina de sapo e outras lembranças.
              O colombiano e o japonês - O alquimista, sucesso definitivo de Paulo Coelho, reproduz um conto que faz parte das Mil e uma noites. Plagiário, Paulo Coelho? Hahahaha! Meu citado “adversário de infância” Bráulio Tavares também publicou em 2005, pela Casa da Palavra, a coletânea Contos fantásticos no labirinto de Borges. Nela teve o trabalho de garimpar textos de vários escritores, entre os quais Edgar Allen Poe, Franz Kafka, Ray Bradbury e Robert Louis Stevenson, nos quais o grande poeta e contista argentino Jorge Luis Borges bebeu a inspiração para contar histórias geniais como O aleph. Borges adoraria ter lido essa coletânea, pois sua maior diversão era justamente espalhar pistas sobre os textos que o inspiravam e tudo o que Bráulio fez foi isso: pegar referências nas misturas de erudição e armadilhas de pegar leitor do genial escritor e delatá-las.
              Nas estantes das livrarias há um exemplo de como a mesma história pode ser contada magistralmente e de formas diferentes. O último sucesso do Prêmio Nobel colombiano Gabriel García Márquez é a novela Memórias de minhas putas tristes. Esta história sacana, cheia de humor, sexo e poesia, foi baseada, conforme o autor deixou claro, em outra novela, A casa das belas adormecidas, de outro laureado pelo Nobel de Literatura, o japonês Yasunari Kawabata. A história é idêntica, mas o fundador de Macondo insere um cheiro de canela e maresia caribenha na delicada porcelana narrativa das aventuras de um idoso que busca conforto dormindo com virgens, sob o compromisso de que elas permanecerão virgens ao amanhecer em seu leito.
             De Florença e Recife - O escritor brasileiro que mais se aproxima de García Márquez é uma pernambucana chamada Maria Cristina Cavalcanti de Albuquerque, que acaba de ter reeditada pela Girafa Editora sua obra-prima lançada originalmente pela Editora Bagaço, de Recife, Luz do abismo. É a história de sua ilustre família, com origem florentina no sangue do poeta Guido, narrada de um jeito que seduziu o maior crítico do Brasil, Wilson Martins. Maria Cristina é psicanalista de profissão e irmã do grande sociólogo Roberto Cavalcanti, cuja obra, feita em parceria com o ministro e acadêmico Marcos Vinicius Vilaça, Coronel, coronéis, foi relançada este ano, no qual se comemora o quadragésimo aniversário de sua primeira edição.
Psicanalista como Maria Cristina, o baiano Humberto Mariotti lançou em 2005, pela mesma editora, um romance que ainda vai dar o que falar, principalmente entre o leitorado feminino, Antigamente era janeiro. Breve e instigante tratado sobre as relações entre homem e mulher, o livro saiu na esteira de outro lançamento, embora de outro gênero, Profanação, radiografia romanesca das entranhas do poder em Brasília, flagrada por um ghost writer de profissão, história parecida, porém diversa, da que contou o grande compositor Chico Buarque de Holanda em seu livro Budapeste, premiado na Jornada Literária de Passo Fundo, batendo escritores, entre eles José Saramago, que também acaba de lançar romance novo, As intermitências da morte.
             O sultão e o ciumento - Sherazade é personagem de Vozes do deserto, o livro de Nélida Piñon, que levou prêmios na Espanha (Príncipe de Astúrias) e no Brasil (Jabuti). E a filha do vizir que seduziu o sultão lhe contando histórias é também a padroeira de Danuza Leão, personagem impagável da crônica social e narradora de raro talento, que enfeitiça leitores, não apenas de livros, mas também dos jornais e revistas, que cometeram a indiscrição de revelar com detalhes picantes os segredos que ela guardou para seu livro de memórias, cujo título (dado por Millôr Fernandes), denuncia o conteúdo: Quase tudo. O bom leitor não deve se contentar com o que leu nas resenhas - Danuza tem 72 anos de idade e um de seus maridos, o cronista e compositor Antônio Maria (Ninguém me ama, ninguém me quer, Manhã de carnaval, etc.), era tão obsessivo que tinha ciúme até de si mesmo -, pois a prosa da autora é saborosa. Assim como o é o romance O poço dos milagres, de Carlos Nejar, prosa poética de poeta profissional. E também os contos de Adélia Prado em Eu quero a minha mãe, um belo achado de título.
               Neste ano, em que veio a lume uma reedição do genial Teresa, namorada de Jesus, seu autor, Deonísio da Silva, considera que o melhor texto de ficção em prosa foi Quando alegre partiste, de Moacir Japiassu, recomendadíssimo pelo belo título, pelo tema (março de 64), pelo currículo do escritor e pelo talento de descobridor de Deonísio. José Mario Pereira, da Topbooks, editor de fina percepção, leu, com entusiasmo, os contos do concorrente Luís Schwarcz, da Companhia das Letras, em Dircuso sobre o capim. E a efeméride capital do ano, os 400 anos de Dom Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes, o maior de todos os romances já escritos, dá ocasião à leitura de Nas trilhas de Quixote – Uma viagem pelos caminhos do cavaleiro andante, projeto do jornalista Fernando Granato que a sensibilidade da editora Luciana Villas Boas, da Record, não deixou passar em branco.
              Neste país, onde há mais poetas que leitores de poesias e mais editoras que livrarias, não deixa de ser gratificante encontrar tanto material para recomendar, findo um ano profícuo como este – o ano em que Flávio Tavares, o jornalista gaúcho trocado por Charles Elbrick, recheou com novidades suas já publicadas antes Memórias do esquecimento, a melhor obra sobre tortura na ditadura militar. Boa a ponto de o prosador argentino Ernesto Sabato compará-lo com Fiodor Dostoievski, de Recordação da casa dos mortos, e de o jornalista brasileiro Hélio Fernandes afirmar que Graciliano Ramos, de Memórias do Cárcere, dele se orgulharia. Com toda a razão e todo o mérito.

     
             
     

     
     

     
      José Nêumanne, jornalista e escritor, é editorialista do Jornal da Tarde, comentarista da Rádio Jovem Pan e autor de O silêncio do delator, romance ganhador do Prêmio Senador José Ermírio de Morais, da Academia Brasileira de Letras,como melhor livro de 2004.      
     

     
             
           
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