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“Eu
bem quisera, quando chego a ver-te, / vendo este infame amor,
poder negá-lo; / porém logo a razão justa me adverte / de que
só há remédio em publicá-lo: / porque do grão delito de
querer-te só é pena bastante o confessá-lo.” Com estes
versos fortes e pungentes, a bela e avançada Sór Juana Inés
de la Cruz, cuja devoção devo a Octavio Paz, autor de dois
alentados volumes sobre ela, aborda o dilema cruel do religioso
católico que, tendo de amar apenas Jesus Cristo, só pode amar
o próximo dele se distanciando e vendo-o como coletivo, jamais
como indivíduo. Esse dilema emerge de forma delicada, mas não
menos atroz, no texto confessional que vem de ser trazido a lume
pelo sociólogo, acadêmico e antes de tudo soldado da Companhia
de Jesus Fernando de Bastos Ávila, carioca e quase centenário.
No livro A alma de um padre - testemunho de uma vida>, Ávila
aborda esse paradoxo, recordando, com recato mas sem remorso, os
pouco freqüentes, mas nem por isso menos importantes, episódios
de sua vida em que o encantamento estético por uma pessoa do
sexo oposto se não o desviou da vocação religiosa foram
marcantes a ponto de serem lembrados na idade provecta. Tal
abordagem é feita com parcimônia retórica, mas bravura
espiritual. Não pode ser desprezível a franqueza de um servo
de Deus (e ainda mais com a fama cavilosa que tem a ordem
religiosa a que pertence, de missionários mais respeitados pela
combatividade que pela ética) - e particularmente de uma geração
criada antes dos avanços do aggiornamento promovido nos anos 60
do século 20 pelo Papa João 23.
Relato sem hipocrisia - Convém anotar desde já que tal
franqueza não se cinge aos conflitos internos provocados pela
submissão das ânsias da carne às ambições do espírito, mas
também ao convívio, nem sempre fraterno, entre os colegas de
opa. O cândido relato do padre Ávila não poupa desafetos nem
oculta idiossincrasias. Passa, portanto, a anos-luz de qualquer
laivo de hipocrisia.
Neste particular, simpatias e antipatias do autor comparecem às
lembranças pessoais do autor sem disfarces, nem sequer o da
falsa modéstia. Essa característica do texto, além de sua
qualidade literária indiscutível e de sua verve contagiante,
torna a experiência pessoal de quem o lavrou algo útil a quem
o deletra. Neste livro, o leitor encontra o encanto que o dom de
escrever confere às memórias de poucos homens ilustres que se
aventuram à difícil missão de falar de si mesmos. Esse dom
faltou a Paulo Duarte, de vida relevante, mas narrada sem parcimônia
e com enfado, assim como sobrou em Pedro Nava, que, ao recordar
com brilho uma vida comum, expôs o gozoso mistério da boa
literatura: menos importa a história a contar que o jeito de
narrá-la. Recorrendo a exemplo mais remoto e clássico, é
ainda o caso exemplar de Joaquim Nabuco, de cuja obra-prima,
Minha formação, padre Ávila transpôs o título para um capítulo,
reservando-se a um instante de humor, soltando numa notinha de pé
de página a sutil (e gentil) boutade: “Joaquim Nabuco me
desculpe, se, cem anos depois, me aproprio do título de sua
obra imortal.” Revela a anedota mais que sense of humour de
quem a criou, a humildade do reconhecimento do pecado (do
furto), embora com a atenuante de ser este venial, tornando-se,
então, paradoxalmente quase uma virtude.
O pecado da pobreza - Paradoxo e pecado mortais na edição
deste original livro de memórias, no qual um diário remoto é
anexado ao fim de cada capítulo recém-escrito, é o de sua
pobreza. A capa, com as duas mãos em súplica dirigidas a um bólido
solar, lembra aqueles folhetos tão bem-intencionados quanto mal
realizados graficamente distribuídos aos fiéis nas missas de
domingo. A diagramação é mais coerente com a capa modesta que
com o nível do texto. E a revisão podia ter sido bem menos
negligente.
É um pecado, que a Edusc, com as bênçãos da Academia
Brasileira de Letras, tenha criado, com essa amadora displicência
editorial, um obstáculo entre o leitor comum e a obra.
Restam-nos a fé e a esperança paulinas de que o leitor,
acautelado, releve tais defeitos e tome conhecimento de um texto
de alta qualidade literária, muita decência e grande respeito
- virtudes raras no cenário conturbado e grosseiro de nosso
mercado editorial.
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