| |
|
|
Por
ser um competente e respeitado jornalista e ter sido militante
político estudantil e da esquerda armada, fazendo parte
inclusive do grupo que foi solto e banido do Brasil em troca do
embaixador americano Charles Elbrick, Flávio Tavares tinha tudo
para escrever um texto de leitura útil sobre o golpe militar e
a longa noite de trevas que produziu no Brasil. Ele, entretanto,
fez muito mais. Acrescentou à memória vivida e ao faro de repórter
uma qualidade exclusiva dos grandes escritores: conseguir, ao
mesmo tempo, expôr as vísceras e a alma (literalmente, ao
descrever a tortura de que foi vítima) e manter um ângulo de
visão distanciado e frio, embora participante, de historiador.
Por isso, Memórias do
esquecimento provoca uma leitura inesquecível a quem a
enceta. Não se pode dizer que seja agradável pelas lembranças
que desenterra e pelas revelações que faz. Mas é mais do que
útil.
No
começo, o leitor se depara com um pesadelo recorrente do Autor,
no exílio mexicano: “Meu sexo me saía do corpo, caía-me nas
mãos como um parafuso solto. E, como um parafuso de carne
vermelha, eu voltava a parafusá-lo, encaixando-o entre minhas
pernas, um palmo abaixo do umbigo, no seu lugar de sempre”. E,
antes de fechá-lo, toma conhecimento do sonho da geração de
Tavares – a fantasia que deu início a todo o pesadelo que ele
viveu, com e como tantos outros, mas, como pouquíssimos, teve
condições de narrar com talento raro: seu convívio de 11 dias
com Ernesto Che Guevara, o grande mito rebelde, em Punta del
Este, no Uruguai, em 1961. Nesse país, aliás, ele foi seqüestrado
e declara haver morrido, embora o fuzilamento de que foi alvo não
tenha passado de um embuste de seus seqüestradores.
Entre
o pesadelo no exílio e o sonho da revolução, o texto expõe,
sem dó, mas também sem falso moralismo, tudo o que havia de
nobre, podre e ridículo nos episódios que o Autor mais do que
presenciou, ouviu e viu: viveu.
Como
repórter, acompanhou o golpe militar de 1964 e não precisou
que ninguém lhe contasse a forma abjeta com que os suplentes
dos parlamentares se postavam à porta do plenário da Câmara
esperando a lista dos cassados pelo novo poder militar para
tomar assento em suas cadeiras. Quem não conhecia o episódio
– como este leitor, que lhes escreve – aprende, ao lê-lo,
que os militares brasileiros sabiam o que faziam quando, ao
contrário de seus colegas vizinhos, permitiam o funcionamento
do Legislativo. Primeiro: os políticos estavam dispostos a
fazer o jogo sujo da política em troca de cargos e reverências.
Segundo: quando tudo acabasse, como acabou, eles seguiriam
fazendo o mesmo jogo sujo em nome da democracia civil. Como
fazem.
Como
militante revolucionário, testemunhou de perto as bravatas de
seu líder máximo, Leonel Brizola. Quem vê hoje o caudilho
envelhecido, mas ainda envergando o desbotado lenço vermelho no
pescoço, pedir a renúncia do presidente, que cometeu o crime
de derrotá-lo, haverá de entender toda a trajetória de equívocos
– muitas vezes até bem intencionados, mas quase sempre
equivocados – da oposição de esquerda no Brasil.
A
cumplicidade da direita cruel e covarde, cujos líderes só
falam grosso atrás das metralhadoras e canhões dos quartéis,
salta nas páginas mais pungentes do livro – aquelas que
tratam da tortura praticada nos porões da ditadura. As cenas vão
do pungente, como aquela em que ele é obrigado a dividir uma
cela com um cadáver, ao ridículo atroz, como o capítulo
dedicado a seu interrogatório, depois da queda de um grupo de
nacionalistas ingênuos de Juiz de Fora, por obra de um delator.
Flávio
Tavares não doura pílulas nem usa o processo seletivo da memória
para se esconder de seus erros. Ele mesmo, que jogou o ingênuo
adolescente Pauleca, irmão do militante Ivan de Lemos, na
voragem da besta de forma irresponsável, narra o episódio sem
se perdoar nem se culpar, ficando claro para o leitor que muitos
iguais houve. E houve mesmo, ora!
Por
tudo isso e também por seu lirismo descarnado, mas doce,
revelando um certo jeitão de avô ríspido e lacônico,
lembrado num poema de cárcere dedicado ao filho Camilo que lhe
serve de epílogo, contando uma história para netos atentos,
seu livro ganha as dimensões de um clássico desse gênero terrível
e importante da literatura deste século agonizante – o
memorialismo de masmorra. Sem favor nenhum, ele pode ocupar a
mesma estante onde se alinham as lembranças de campos de
concentração nazista de Primo Levi ou Jorge Semprún e a denúncia
do Arquipélago Gulag, de Alexander Solkjeitsin. É o caso de
dizer que todos estão bem acompanhados.
|
|
|
|