A santa rameira e o castigo dos mouros

 

     
     

José Nêumanne Pinto *

     
     


             

Quem foi que disse que, para ser boa, a literatura tem de ser séria? Nonada. Literatura das boas tem de ter é amor, é claro, mas também humor – e só uma silabinha de nada separa essas duas palavras. Os gregos antigos já dominavam os mistérios da comédia e na linha de Rabelais ou de Bocage, de Gregório de Mattos ou de Juó Bananere, o sarcasmo, a ironia, o escrache e o deboche fizeram muito cristão ou ateu rir a bandeiras despregadas... ou à sorrelfa. Um pândego assim anda a fazer falta na sisuda literatura nacional contemporânea. Andava. O considerado indivíduo Moacir Japiassu, paraibano de nascença, mineiro de passagem, paulistano de adoção, se homiziou nos sovacos da Mantiqueira, num sítio paradisíaco em Cunha, abandonando as práticas do jornalismo profissional para escarafunchar as reentrâncias da sem-vergonhice e da risadagem explícita, escrevinhando um romance, A Santa do Cabaré, em que a graça vem das raízes esticadas da literatura do cordel, passando pela militância de escriba em jornais, revistas e emissoras de TV da vida.

Esse moço Japiassu é mesmo um palhaço de marca maior. Escriba de muitos instrumentos e notório talento, dedicou-se a revelar a saga de um tal Ladislau, fotógrafo profissional que virou cangaceiro amador e amante diletante, que teve o topete de surrupiar a bela Vanda, teúda e manteúda da maior autoridade das redondezas da caatinga onde vivia, o prefeito de Belo Jardim, Sizenando Coelho. Com começo, meio e fim, contrariando os cânones da vanguarda, mas confirmando os critérios narrativos dos folhetos de feira livre, o texto apresenta ao leitor as peripécias da perseguição movida ao meliante pela autoridade traída com toques de humor negro e de roman-à-clef. O Autor procura divertir o leitor, mas também se reserva o direito à diversão própria: transformou o católico conservador e anticomunista ferrenho Lenildo Tabosa Pessoa, seu companheiro de redação no Jornal da Tarde, num personagem comunista, tido como Anticristo pelo padre Everardo Trigueiro, o pároco de Belo Jardim, cenário da comédia desaforada. Outro antigo companheiro de redação, Vital Battaglia, foi travestido de cangaceiro feroz e malsucedido, simplificado o sobrenome para o mais verossímil Batalha. Só faltava aparecer um carcamano entre os cabras de Lampião, ora pois! E o temível tribuno udenista Carlos Frederico Werneck de Lacerda, acrescentado de um Meira, ficou sendo o engenheiro ferroviária com eiras e beiras, além de pai da filha perdida que virou prostituta e terminou canonizada por obra e graça do povaréu.

Vascaíno não propriamente roxo, mas com certeza bastante sangüíneo, o autor das bem traçadas linhas, espalhou pelo texto referências jocosas à atividade extra-conjugal da consorte de um farmacêutico torcedor do rival “rubro-negro e preto” (como gosta de definir um engraxate da rua Domingos Ferreira, em Copacabana), o Flamengo. Conhecedor do folclore da pistolagem no cenário de seu romance, o interior nordestino, ele batizou o pistoleiro, transformado em professor de pontaria do rapazola encarregado de matar o temível cangaceiro, de Luquinha de Moxotó, em homenagem ao profissional da morte mais temido e mitificado do sertão e à região decantada em xotes e baiões de Luiz Gonzaga.

Quem teve a pachorra de ler esta resenha até aqui pode ter sido levado a crer que só vai achar graça no romance de Japiassu o leitor que seja capaz de decifrar essas piadas que ele salpica no meio de frases muito bem enredadas. Se assim pensou, foi por defeito do resenhador, jamais do resenhado. Na verdade, muitas também devem ser as referências que não foram reconhecidas por este comentarista, mas nem por isso a leitura perde algo em sabor e brilho. Mesmo cabreiro, o romancista é jeitoso e ninguém precisa fazer esforço muito grande para espairecer, passando os olhos nas palavras que ele juntou e nas frases que ele compôs. Quem quiser pode apenas rir com o que ler e assim encontrará no texto motivo para ver que os romanos (lá vêm eles de novo, para tornar esta resenha mais erudita) tinham razão quando diziam que “ridendo castigat mores” (é rindo que se castigam os costumes, e não os mouros, como gosta de gozar outro ilustre antecessor do paraibano-mineiro-paulistano-vascaíno Moacir Japiassu, o carioca do Méier Millôr Fernandes). Se a vida é breve e os costumes estão relaxados, vamos rir e castigá-los, pois não?

A Santa do Cabaré, de Moacir Japiassu, Editora Globo, 2002, 252 p.

     
             
     

     
     

     
     

José Nêumanne, jornalista e escritor, é editorialista do Jornal da Tarde, comentarista da Rádio Jovem Pan e autor de O silêncio do delator, romance ganhador do Prêmio Senador José Ermírio de Morais, da Academia Brasileira de Letras,como melhor livro de 2004.

     
     

     
             
           
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