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Quem
foi que disse que, para ser boa, a literatura tem de ser séria?
Nonada. Literatura das boas tem de ter é amor, é claro, mas
também humor – e só uma silabinha de nada separa essas duas
palavras. Os gregos antigos já dominavam os mistérios da comédia
e na linha de Rabelais ou de Bocage, de Gregório de Mattos ou
de Juó Bananere, o sarcasmo, a ironia, o escrache e o deboche
fizeram muito cristão ou ateu rir a bandeiras despregadas... ou
à sorrelfa. Um pândego assim anda a fazer falta na sisuda
literatura nacional contemporânea. Andava. O considerado indivíduo
Moacir Japiassu, paraibano de nascença, mineiro de passagem,
paulistano de adoção, se homiziou nos sovacos da Mantiqueira,
num sítio paradisíaco em Cunha, abandonando as práticas do
jornalismo profissional para escarafunchar as reentrâncias da
sem-vergonhice e da risadagem explícita, escrevinhando um
romance, A Santa do Cabaré, em que a graça vem das raízes
esticadas da literatura do cordel, passando pela militância de
escriba em jornais, revistas e emissoras de TV da vida.
Esse
moço Japiassu é mesmo um palhaço de marca maior. Escriba de
muitos instrumentos e notório talento, dedicou-se a revelar a
saga de um tal Ladislau, fotógrafo profissional que virou
cangaceiro amador e amante diletante, que teve o topete de
surrupiar a bela Vanda, teúda e manteúda da maior autoridade
das redondezas da caatinga onde vivia, o prefeito de Belo
Jardim, Sizenando Coelho. Com começo, meio e fim, contrariando
os cânones da vanguarda, mas confirmando os critérios
narrativos dos folhetos de feira livre, o texto apresenta ao
leitor as peripécias da perseguição movida ao meliante pela
autoridade traída com toques de humor negro e de roman-à-clef.
O Autor procura divertir o leitor, mas também se reserva o
direito à diversão própria: transformou o católico
conservador e anticomunista ferrenho Lenildo Tabosa Pessoa, seu
companheiro de redação no Jornal da Tarde, num personagem
comunista, tido como Anticristo pelo padre Everardo Trigueiro, o
pároco de Belo Jardim, cenário da comédia desaforada. Outro
antigo companheiro de redação, Vital Battaglia, foi travestido
de cangaceiro feroz e malsucedido, simplificado o sobrenome para
o mais verossímil Batalha. Só faltava aparecer um carcamano
entre os cabras de Lampião, ora pois! E o temível tribuno
udenista Carlos Frederico Werneck de Lacerda, acrescentado de um
Meira, ficou sendo o engenheiro ferroviária com eiras e beiras,
além de pai da filha perdida que virou prostituta e terminou
canonizada por obra e graça do povaréu.
Vascaíno
não propriamente roxo, mas com certeza bastante sangüíneo, o
autor das bem traçadas linhas, espalhou pelo texto referências
jocosas à atividade extra-conjugal da consorte de um farmacêutico
torcedor do rival “rubro-negro e preto” (como gosta de
definir um engraxate da rua Domingos Ferreira, em Copacabana), o
Flamengo. Conhecedor do folclore da pistolagem no cenário de
seu romance, o interior nordestino, ele batizou o pistoleiro,
transformado em professor de pontaria do rapazola encarregado de
matar o temível cangaceiro, de Luquinha de Moxotó, em
homenagem ao profissional da morte mais temido e mitificado do
sertão e à região decantada em xotes e baiões de Luiz
Gonzaga.
Quem
teve a pachorra de ler esta resenha até aqui pode ter sido
levado a crer que só vai achar graça no romance de Japiassu o
leitor que seja capaz de decifrar essas piadas que ele salpica
no meio de frases muito bem enredadas. Se assim pensou, foi por
defeito do resenhador, jamais do resenhado. Na verdade, muitas
também devem ser as referências que não foram reconhecidas
por este comentarista, mas nem por isso a leitura perde algo em
sabor e brilho. Mesmo cabreiro, o romancista é jeitoso e ninguém
precisa fazer esforço muito grande para espairecer, passando os
olhos nas palavras que ele juntou e nas frases que ele compôs.
Quem quiser pode apenas rir com o que ler e assim encontrará no
texto motivo para ver que os romanos (lá vêm eles de novo,
para tornar esta resenha mais erudita) tinham razão quando
diziam que “ridendo castigat mores” (é rindo que se
castigam os costumes, e não os mouros, como gosta de gozar
outro ilustre antecessor do paraibano-mineiro-paulistano-vascaíno
Moacir Japiassu, o carioca do Méier Millôr Fernandes). Se a
vida é breve e os costumes estão relaxados, vamos rir e castigá-los,
pois não?
A
Santa do Cabaré, de Moacir Japiassu, Editora Globo, 2002, 252 p.
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