O presidente morto e o poeta quengo

 

     
     

José Nêumanne Pinto *

     
     

 

[Posfácio do livro Concerto para paixão e desatino, de Moacir Japiassu]

     
     


             

Quando deixou o leito seco do Vaza-Barris e as agruras do Raso da Catarina para trás, o oficial e engenheiro Euclides da Cunha havia visto e vivido o bastante para perceber que o habitante daqueles ermos bem que merecia ser chamado de forte. Quando se deparou com o verdadeiro protagonista de seu texto clássico, Os Sertões, o escritor não se deixou enganar pelo raquitismo crônico dele, por sua tez amarelada nem por sua humildade reforçada pela curva da espinha dorsal aproximando a cabeça disforme do solo seco que lhe negava o pão: a servidão à primeira vista se transfigurava em altivez à primeira provocação. O gênio literário se evidencia nessa capacidade de enxergar além do que a vista vê: captar a alma oculta no gesto exposto. Além da sentença-síntese – “o sertanejo é antes de tudo um forte” – do texto que elevou o militar e construtor de pontes ao panteão da glória nas letras pátrias e muito além da fama que este lhe deu, brota da paisagem bruta, seca e cinzenta o vivente – feito cacto selvagem, com espinhos hostis e frutos de sustança.

A força do sertanejo é feita de suas fraquezas e, por isso, ela é tão notável, apesar de pouco notória: nutre-se da escassez, ou melhor, da capacidade inata que ele desenvolve, com o lerdo passar do tempo, de sobreviver de praticamente nada. Sobreviver, antes de mais nada e acima de tudo. É importante ressaltar isso: há uma diferença, uma oposição até, entre as caveiras de açúcar chupadas no Día de Muertos no México e a cachaça ingerida nos velórios do sertão. O sincretismo místico asteca, maia e espanhol celebra a morte como porteira da eternidade, princípio do infinito. A fervorosa espera sebastianista pela volta do rei morto para “nos vingar” faz do rito da passagem definitiva nos ermos do Nordeste uma celebração da vida: o defunto é lembrado menos pelo que foi e mais pelo que representou na vida dos que ficaram vivos.

Importa mesmo é a sobrevida. O sertanejo – como assume um dos mais ilustres da raça de tabaréus, taumaturgos, violeiros, cangaceiros e escritores (apesar de ter vindo ao mundo num palácio litorâneo, dito da Redenção), Ariano Suassuna, primo de João Dantas, que matou João Pessoa, cujo nome foi dado à cidade da Paraíba onde o dramaturgo nasceu (e assim teimosamente ainda a chama, apesar da troca de nome) – não planeja (nem conta com) a própria morte. “O heroísmo do pobre”, diz ele, “é a esperteza” – a capacidade de se safar das vicissitudes geradas no ventre da miséria. A saga do “beradeiro” da caatinga não é a do herói que tomba, mas do “amarelo” que escapa: Cancão de Fogo, Bocage, Pedro Malasartes e a síntese de todos, João Grilo, protagonista do Auto da Compadecida. Lembremo-nos de que o caolho Luís de Camões, fundador do vernáculo, também é Camonge, um quengo, o espertalhão nos folhetos de cordel impressos nos prelos do sertão. Não nos esqueçamos disso, pois ele ainda voltará a este texto.

É isso que explica a sutil diferença entre a vingança à moda sertaneja e a vendeta na Sicília ou mesmo a complexa codificação da lei do talião nas montanhas da Albânia, sóbria e competentemente relatada por Ismail Kadaré em Abril Despedaçado , que Walter Salles transportou no cinema para o começo do século 20 nos confins da Bahia. Ao contrário de seus pares estrangeiros, os vingadores do sertão nordestino são pragmáticos: por favor, não os chame de covardes! Não protagonizam duelos, como o do OK Corral, dos faroestes de nossa infância, mas tocaias: escondem-se, atiram pelas costas de preferência em alvos desarmados, o que possibilita a cômoda repetição do disparo após um erro provável, ainda que eventual. A tocaia, como a força, é mais um truque de longevidade dos protagonistas da saga euclidiana.

O paraibano Moacir Japiassu, que não é engenheiro nem militar, mas escriba e republicano, como o era Euclides, entendeu isso à perfeição ao descrever neste livro o fictício planejamento da execução à queima-roupa do presidente da Província da Paraíba do Norte, o ilustre jurisconsulto dr. João da estirpe Pessoa, pelo homônimo colega dr. João do clã Dantas. A cena é exemplar: o assassino estava armado de um revólver (calibre 32) e de surpresa, tendo ainda por cúmplice o anonimato. Impossível não identificar facilmente a vítima, político importante, cuja efígie correra o País em campanha eleitoral para a Vice-Presidência. Só a soberba de um poderoso como ele explicaria o fato de nunca ter tido a curiosidade de conhecer pessoalmente o homem espezinhado pela devassa de sua correspondência íntima e calorosa com uma professorinha morena, de origem humilde, belo físico e nome incomum, Anaíde Beiriz. O impávido e imprudente orgulho do sobrinho do ex-presidente Epitácio Pessoa, chefe inconteste do clã, lhe custou a aproximação da mão assassina e lhe valeu os tiros certeiros que lhe tiraram a vida. E isso lhe foi fatal, ironia da história, como a insensata imperícia do autor de Os Sertões, que tombou, ao atentar contra a vida do exímio atirador Dilermando de Assis, parceiro indesejável no próprio tálamo.

Se Euclides, o cego vingador da extinta honra conjugal, foi vítima da precariedade da própria pontaria, João Dantas, que empunhou o revólver assassino para lavar com o sangue do desafeto a vergonha que o afastou do convívio dos seus iguais, enfrentou o infortúnio causado pelo gesto definitivo com o fatalismo dos que, bem ou mal, sabem o que fazem. Quis a deusa desvairada da História, contudo, que a Euclides coubesse escrever a história dos desvalidos e esquecidos com a tinta do sangue deles, enquanto o causídico do valente clã dos grotões paraibanos fez a roda da política girar 180 graus com o fornecimento involuntário do combustível da mais importante guinada da crônica republicana nacional: o sangue do inimigo, que não o reconhecia.

Antes que algum leitor apressado me venha acusar de estar cometendo heresia ou sacrilégio por comparar um texto incomparável, como o de Os Sertões, com este, vou logo lembrando que naquele o gênio de Euclides, vítima da própria incúria de marido, resgatou uma raça inteira do desprezo, do preconceito e do esquecimento. Enquanto neste, o talento de Japiassu traz a lume pela narrativa de ficção trabalhada com maestria o aparentemente imperceptível instante mágico em que o ato individual engraxa, involuntariamente, as engrenagens da aventura coletiva. O assassínio de João Pessoa e a Revolução de 30, ao contrário do sangrento episódio de Canudos, tema pouco abordado antes de Os Sertões, já haviam sido dissecados e cantados em prosa e verso antes deste romance (escrito num sítio em Cunha, substantivo próprio que também é o sobrenome de Euclides), que, entretanto, ninguém vai negar, trouxe um foco novo de luz sobre episódios já muito abordados.

É oportuno também esclarecer que as figuras do João algoz que virou vítima, o Pessoa, e do João vítima que virou algoz, o Dantas, não foram arrancadas das páginas da História e transportadas para este entrecho. Ao contrário, assim como o personagem do político e escritor José Américo de Almeida, autor de A Bagaceira e comandante da polícia na guerra movida por João Porteira (como era João Pessoa chamado pelos inimigos) ao desafeto da princesa Isabel, coronel Zé Pereira, essas figuras nascem é do hábil manejo do romancista de recriar tipos já existentes. Assim como apareceram Vital Batalha, Lenildo Tabosa e outros entes (extintos ou viventes) no imaginário de A Santa do Cabaré, seu livro anterior, essas personae fazem o oposto do que proclamou Getúlio Vargas em sua carta-testamento: saíram da História para entrar na vida, não a vida real, mas a criada pela fantasia deste prosador de boa prosa.

Aqui elas têm as mesmas dimensões emprestadas pelo autor aos personagens completamente inventados (mas nem por isso inverossímeis). Isaías, o protagonista (se é que se pode falar em protagonista numa saga tão rica em personagens), é filho de padre (de nome Sabaó, misteriosa referência bíblica–- “Senhor Deus de Sabaó”). O romancista mostra-se um conhecedor de usos e costumes do sertão, não apenas por reconhecer a condição de reprodutores de fiéis nos pregadores da fé, como também ao atribuir a condição de guardião do saber a esta sua criatura, ao que parece a favorita. Uma nota pessoal: o autor destas linhas apaixonou-se pela inculta e bela flor de Bilac devassando a hagiografia das estantes da Casa Paroquial de Jesus, Maria e José, sob a guarda do cônego Antônio Anacleto, em Uiraúna, Paraíba, nos idos dos 50 do século passado.

Voltemos, contudo, a outro rato de biblioteca, o sedutor Isaías. Como sedutores também são a indefectível dona Montinha, os senhores-de-engenho Deba e Lola, o corrupto jornalista Sinvaldeão, o devoto do deus pagão Onan Libânio, esboço de retrato do dublê de romancista e político Ernâni Sátiro (de Patos de Espinharas) quando jovem, o conde italiano que pretendia plantar roletas no semi-árido e a cantora lírica Carina Malfitani, de cujos favores entre lençóis e fronhas teria gozado João Pessoa, não o mártir de 30, mas o herói de Japiassu. Que os outros perdoem a falta de espaço, justificativa da omissão de seus nomes neste texto.

Cabe ainda pôr aqui uma palavra que seja sobre a forma musical, concerto, e poética – a cadência da prosa lembra os martelos improvisados pelos bardos dos sertões nas funções de desafio – escolhida pelo romancista para registrar esse momento impreciso, vago e atemporal em que a ficção cruza o Rubicão da História e o pessoal interfere no geral. E é aqui que entra o caolho de Goa, o quengo imprevisto. Luís de Camões, não o venerado nas academias, não o citado nas antologias, nem mesmo o Camonge, espertalhão dos romances de feira, mas o ritmista do vernáculo, o cultivador de décimas e sextilhas, que Manuel Maria Barbosa Du Bocage também venerou, atravessa a prosa de Japiassu como uma lamparina de querosene alumia as noites escuras das casas sem forro das fazendas de muita terra e escassa safra onde foi criado o herói e anti-herói que fabricou o cadáver do também mocinho e também vilão que desencadeou a Revolução de 30.

Concerto para paixão e desatino – que belo título para um texto assim tão musical, não é mesmo?! – é a epopéia em prosa do heroísmo dos que sobrevivem sem medalhas e sem vergonha das tocaias em que garantem a vida eliminando quem a ameace. Não é este o verdadeiro espírito da remissão sebastianista? E é também a manifestação da permanência da língua que o caolho fundou nos cafundós onde Judas esqueceu as botas, mas os injuriados como João Dantas não perdem a vergonha na cara. Nesta saga, em que a fantasia verossímil não contraria, mas confirma, a história que ocorreu e não foi registrada – embora se perpetue pela lembrança –, os mistérios do acaso jamais mitigarão a força do destino, como no verso célebre de Estêvão Mal-Armado (o francês Stéphane Mallarmé) – aquele do lance de dados que não abolirá o acaso.

     
             
     

     
     

     
     

José Nêumanne, jornalista e escritor, é editorialista do Jornal da Tarde, comentarista da Rádio Jovem Pan e autor de O silêncio do delator, romance ganhador do Prêmio Senador José Ermírio de Morais, da Academia Brasileira de Letras,como melhor livro de 2004.

     
     

     
             
           
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