| |
|
|
Quando
deixou o leito seco do Vaza-Barris e as agruras do Raso da
Catarina para trás, o oficial e engenheiro Euclides da Cunha
havia visto e vivido o bastante para perceber que o habitante
daqueles ermos bem que merecia ser chamado de forte. Quando se
deparou com o verdadeiro protagonista de seu texto clássico,
Os Sertões, o escritor não se deixou enganar pelo
raquitismo crônico dele, por sua tez amarelada nem por sua
humildade reforçada pela curva da espinha dorsal aproximando a
cabeça disforme do solo seco que lhe negava o pão: a servidão
à primeira vista se transfigurava em altivez à primeira
provocação. O gênio literário se evidencia nessa capacidade
de enxergar além do que a vista vê: captar a alma oculta no
gesto exposto. Além da sentença-síntese – “o sertanejo é
antes de tudo um forte” – do texto que elevou o militar e
construtor de pontes ao panteão da glória nas letras pátrias
e muito além da fama que este lhe deu, brota da paisagem bruta,
seca e cinzenta o vivente – feito cacto selvagem, com espinhos
hostis e frutos de sustança.
A
força do sertanejo é feita de suas fraquezas e, por isso, ela
é tão notável, apesar de pouco notória: nutre-se da
escassez, ou melhor, da capacidade inata que ele desenvolve, com
o lerdo passar do tempo, de sobreviver de praticamente nada.
Sobreviver, antes de mais nada e acima de tudo. É importante
ressaltar isso: há uma diferença, uma oposição até, entre
as caveiras de açúcar chupadas no Día
de Muertos no México e a cachaça ingerida nos velórios do
sertão. O sincretismo místico asteca, maia e espanhol celebra
a morte como porteira da eternidade, princípio do infinito. A
fervorosa espera sebastianista pela volta do rei morto para
“nos vingar” faz do rito da passagem definitiva nos ermos do
Nordeste uma celebração da vida: o defunto é lembrado menos
pelo que foi e mais pelo que representou na vida dos que ficaram
vivos.
Importa
mesmo é a sobrevida. O sertanejo – como assume um dos mais
ilustres da raça de tabaréus, taumaturgos, violeiros,
cangaceiros e escritores (apesar de ter vindo ao mundo num
palácio litorâneo, dito da Redenção), Ariano Suassuna, primo
de João Dantas, que matou João Pessoa, cujo nome foi dado à
cidade da Paraíba onde o dramaturgo nasceu (e assim
teimosamente ainda a chama, apesar da troca de nome) – não
planeja (nem conta com) a própria morte. “O heroísmo do
pobre”, diz ele, “é a esperteza” – a capacidade de se
safar das vicissitudes geradas no ventre da miséria. A saga do
“beradeiro” da caatinga não é a do herói que tomba, mas
do “amarelo” que escapa: Cancão de Fogo, Bocage, Pedro
Malasartes e a síntese de todos, João Grilo, protagonista do Auto da Compadecida. Lembremo-nos de que o caolho Luís de Camões,
fundador do vernáculo, também é Camonge, um quengo, o
espertalhão nos folhetos de cordel impressos nos prelos do
sertão. Não nos esqueçamos disso, pois ele ainda voltará a
este texto.
É
isso que explica a sutil diferença entre a vingança à moda
sertaneja e a vendeta na Sicília ou mesmo a complexa
codificação da lei do talião nas montanhas da Albânia,
sóbria e competentemente relatada por Ismail Kadaré
em Abril Despedaçado
, que Walter Salles transportou no cinema para o começo do
século 20 nos confins da Bahia. Ao contrário de seus pares
estrangeiros, os vingadores do sertão nordestino são
pragmáticos: por favor, não os chame de covardes! Não
protagonizam duelos, como o do OK
Corral, dos faroestes de nossa infância, mas tocaias:
escondem-se, atiram pelas costas de preferência em alvos
desarmados, o que possibilita a cômoda repetição do disparo
após um erro provável, ainda que eventual. A tocaia, como a
força, é mais um truque de longevidade dos protagonistas da
saga euclidiana.
O
paraibano Moacir Japiassu, que não é engenheiro nem militar,
mas escriba e republicano, como o era Euclides, entendeu isso à
perfeição ao descrever neste livro o fictício planejamento da
execução à queima-roupa do presidente da Província da
Paraíba do Norte, o ilustre jurisconsulto dr. João da estirpe
Pessoa, pelo homônimo colega dr. João do clã Dantas. A cena
é exemplar: o assassino estava armado de um revólver (calibre
32) e de surpresa, tendo ainda por cúmplice o anonimato.
Impossível não identificar facilmente a vítima, político
importante, cuja efígie correra o País em campanha eleitoral
para a Vice-Presidência. Só a soberba de um poderoso como ele
explicaria o fato de nunca ter tido a curiosidade de conhecer
pessoalmente o homem espezinhado pela devassa de sua
correspondência íntima e calorosa com uma professorinha
morena, de origem humilde, belo físico e nome incomum, Anaíde
Beiriz. O impávido e imprudente orgulho do sobrinho do
ex-presidente Epitácio Pessoa, chefe inconteste do clã, lhe
custou a aproximação da mão assassina e lhe valeu os tiros
certeiros que lhe tiraram a vida. E isso lhe foi fatal, ironia
da história, como a insensata imperícia do autor de Os Sertões, que tombou, ao atentar contra a vida do exímio
atirador Dilermando de Assis, parceiro indesejável no próprio
tálamo.
Se
Euclides, o cego vingador da extinta honra conjugal, foi vítima
da precariedade da própria pontaria, João Dantas, que empunhou
o revólver assassino para lavar com o sangue do desafeto a
vergonha que o afastou do convívio dos seus iguais, enfrentou o
infortúnio causado pelo gesto definitivo com o fatalismo dos
que, bem ou mal, sabem o que fazem. Quis a deusa desvairada da
História, contudo, que a Euclides coubesse escrever a história
dos desvalidos e esquecidos com a tinta do sangue deles,
enquanto o causídico do valente clã dos grotões paraibanos
fez a roda da política girar 180 graus com o fornecimento
involuntário do combustível da mais importante guinada da
crônica republicana nacional: o sangue do inimigo, que não o
reconhecia.
Antes
que algum leitor apressado me venha acusar de estar cometendo
heresia ou sacrilégio por comparar um texto incomparável, como
o de Os Sertões, com este, vou logo lembrando que naquele o gênio de
Euclides, vítima da própria incúria de marido, resgatou uma
raça inteira do desprezo, do preconceito e do esquecimento.
Enquanto neste, o talento de Japiassu traz a lume pela narrativa
de ficção trabalhada com maestria o aparentemente
imperceptível instante mágico em que o ato individual engraxa,
involuntariamente, as engrenagens da aventura coletiva. O
assassínio de João Pessoa e a Revolução de 30, ao contrário
do sangrento episódio de Canudos, tema pouco abordado antes de Os
Sertões, já haviam sido dissecados e cantados em prosa e
verso antes deste romance (escrito num sítio em Cunha,
substantivo próprio que também é o sobrenome de Euclides),
que, entretanto, ninguém vai negar, trouxe um foco novo de luz
sobre episódios já muito abordados.
É
oportuno também esclarecer que as figuras do João algoz que
virou vítima, o Pessoa, e do João vítima que virou algoz, o
Dantas, não foram arrancadas das páginas da História e
transportadas para este entrecho. Ao contrário, assim como o
personagem do político e escritor José Américo de Almeida,
autor de A Bagaceira e
comandante da polícia na guerra movida por João Porteira (como
era João Pessoa chamado pelos inimigos) ao desafeto da princesa
Isabel, coronel Zé Pereira, essas figuras nascem é do hábil
manejo do romancista de recriar tipos já existentes. Assim como
apareceram Vital Batalha, Lenildo Tabosa e outros entes
(extintos ou viventes) no imaginário de A
Santa do Cabaré, seu livro anterior, essas personae
fazem o oposto do que proclamou Getúlio Vargas em sua
carta-testamento: saíram da História para entrar na vida, não
a vida real, mas a criada pela fantasia deste prosador de boa
prosa.
Aqui
elas têm as mesmas dimensões emprestadas pelo autor aos
personagens completamente inventados (mas nem por isso
inverossímeis). Isaías, o protagonista (se é que se pode
falar em protagonista numa saga tão rica em personagens), é
filho de padre (de nome Sabaó, misteriosa referência
bíblica–- “Senhor Deus de Sabaó”). O romancista
mostra-se um conhecedor de usos e costumes do sertão, não
apenas por reconhecer a condição de reprodutores de fiéis nos
pregadores da fé, como também ao atribuir a condição de
guardião do saber a esta sua criatura, ao que parece a
favorita. Uma nota pessoal: o autor destas linhas apaixonou-se
pela inculta e bela flor de Bilac devassando a hagiografia das
estantes da Casa Paroquial de Jesus, Maria e José, sob a guarda
do cônego Antônio Anacleto, em Uiraúna, Paraíba, nos idos
dos 50 do século passado.
Voltemos,
contudo, a outro rato de biblioteca, o sedutor Isaías. Como
sedutores também são a indefectível dona Montinha, os
senhores-de-engenho Deba e Lola, o corrupto jornalista
Sinvaldeão, o devoto do deus pagão Onan Libânio, esboço de
retrato do dublê de romancista e político Ernâni Sátiro (de
Patos de Espinharas) quando jovem, o conde italiano que
pretendia plantar roletas no semi-árido e a cantora lírica
Carina Malfitani, de cujos favores entre lençóis e fronhas
teria gozado João Pessoa, não o mártir de 30, mas o herói de
Japiassu. Que os outros perdoem a falta de espaço,
justificativa da omissão de seus nomes neste texto.
Cabe
ainda pôr aqui uma palavra que seja sobre a forma musical,
concerto, e poética – a cadência da prosa lembra os martelos
improvisados pelos bardos dos sertões nas funções de desafio
– escolhida pelo romancista para registrar esse momento
impreciso, vago e atemporal em que a ficção cruza o Rubicão
da História e o pessoal interfere no geral. E é aqui que entra
o caolho de Goa, o quengo imprevisto. Luís de Camões, não o
venerado nas academias, não o citado nas antologias, nem mesmo
o Camonge, espertalhão dos romances de feira, mas o ritmista do
vernáculo, o cultivador de décimas e sextilhas, que Manuel
Maria Barbosa Du Bocage também venerou, atravessa a prosa de
Japiassu como uma lamparina de querosene alumia as noites
escuras das casas sem forro das fazendas de muita terra e
escassa safra onde foi criado o herói e anti-herói que
fabricou o cadáver do também mocinho e também vilão que
desencadeou a Revolução de 30.
Concerto
para paixão e desatino – que belo título para um texto
assim tão musical, não é mesmo?! – é a epopéia em prosa
do heroísmo dos que sobrevivem sem medalhas e sem vergonha das
tocaias em que garantem a vida eliminando quem a ameace. Não é
este o verdadeiro espírito da remissão sebastianista? E é
também a manifestação da permanência da língua que o caolho
fundou nos cafundós onde Judas esqueceu as botas, mas os
injuriados como João Dantas não perdem a vergonha na cara.
Nesta saga, em que a fantasia verossímil não contraria, mas
confirma, a história que ocorreu e não foi registrada –
embora se perpetue pela lembrança –, os mistérios do acaso
jamais mitigarão a força do destino, como no verso célebre de
Estêvão Mal-Armado (o francês Stéphane Mallarmé) – aquele
do lance de dados que não abolirá o acaso.
|
|
|
|