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Ao
contrário da prosa, cuja qualidade depende muito da maturidade
de quem a pratica, a poesia é um gênero literário que
dispensa a vivência como fonte de aprimoramento. Para os
prosadores, como comprova o maior dos praticantes desta arte
nascidos no Brasil em todos os tempos, o mulato Machado de
Assis, valerá sempre aquele famoso conselho de Nélson
Rodrigues a uma platéia de estudantes: “Envelheçam, meus
filhos, envelheçam!” Para os poetas, não necessariamente.
Semente de talento bruto que germina graças ao viço, a poesia
pode até ser prejudicada pelo passar dos anos, se deixando
contaminar pela esclerose, pelo reumatismo, pela vista cansada e
outros achaques da idade avançada. Vai ver foi por isso que
Arthur Rimbaud, após produzir uma obra-prima, Le bateau ivre,
aos 16 anos e mais um punhado de poemas que o colocaram no pódio
do gênero, embarcou para a África, onde passou a idade adulta
contrabandeando armas. Correndo o risco da generalização,
dir-se-ia que o prosador, como o vinho, melhora com a velhice,
enquanto o poeta, qual suco cítrico, corre o risco de perder
seu valor protéico e vitamínico com o passar do tempo, depois
de espremida a fruta. O poeta alagoano Lêdo Ivo é uma exceção
a essa regra, comprovando em seu último livro, Plenilúnio, que
o exercício rotineiro da escritura só lhe tem aprimorado o
verso e a verve.
Ele
já abre o volume apresentando armas. O primeiro poema, que dá
título à coletânea, chega a dar inveja pelo primor de
ourivesaria e pela variedade das técnicas usadas, sem que,
contudo, sua invejável artesania supere a singeleza com que se
apresenta ao leitor. Nele, o poeta rima e metrifica, lidando com
as formas fixas com familiaridade idêntica à com que passeia
pelo verso branco. É incrível a habilidade com que ele funde a
balada ibérica com o cante a palo seco de seu colega João
Cabral, sem perder a unidade que percorre o volume do primeiro
ao último verso.
Repare,
amigo leitor, o exemplo destes versos: “Casta lua esdrúxula,
/ teu raio ilumina / o sonho das bruxas / e estelionatários”.
Veja como o uso da vogal u seguida da consoante xis nas palavras
que encerram o primeiro e o terceiro constroem uma interessante
rima virtual, que, na verdade, deveria ser definida como
interessantíssima, até para que o proparoxítono atraia sua
atenção para a conexão feita entre a última palavra do
primeiro verso e sua correspondente no quarto. Essa flutuação
entre a rima e o verso branco e a métrica e a ausência de
ritmo caracteriza a maestria com que o autor resolve, de forma a
não deixar dúvidas, a velha questão entre o que é poesia e o
que é apenas prosa quebrada (gênero cujo mais ilustre
praticante no Brasil é o matogrossense Manoel de Barros),
encerrando também a antiga querela sobre a natureza bastarda da
poesia modernista pela negação programática dos cânones da
metrificação e da rima. Peço vênia para prosseguir citando
os três versos seguintes, pois no terceiro, como se verá, será
encontrada uma rima para o quarto anteriormente citado: “Lua
enfeitiçada / pousada no olhar / dos visionários”. E mais
adiante é perceptível a extensão do efeito rítmico obtido
pela insistência nos proparoxítonos: “Lua espermática / que
clareia a insônia / das virgens cloróticas”. Este termo de
extração eruditíssima se reporta ao sinônimo que ele usa
para fechar o segundo verso do poema: “Uma lua enorme / paira
no céu pálido / de minha cidade”.
“Plenilúnio”,
o poema, mereceria ocupar todo o espaço desta resenha, mas é
impossível calar sobre Plenilúnio, o livro. Pois se faz necessário
chamar a atenção para a abordagem inovadora de dois temas clássicos
do fazer poético: a concretude e a morte. Alexei Bueno, autor
do texto da orelha do livro, destaca com propriedade o fato de o
autor remar contra a tendência pós-cabralina e concretista,
sobretudo, de tomar por real apenas “o mais grosseiramente
concreto”. Contra essa “coisificação” da poesia, ele vem
com a manifestação, esta sim, fiel à verdade da palavra, já
no terceto de abertura do poema “A realidade”: “Um
fantasma é tão real / como a fachada gótica / de uma
catedral”. E não é?
Com
graça (“Minha vida eterna / é problema meu. / Que ninguém
se meta / Onde não é chamado”), simplicidade (“Assim é a
morte. / água fria apaga /o fogo que ardia”) e exatidão
(“O que nasce morre. / O que vive passa. / Toda eternidade /
termina em fumaça”), Lêdo Ivo submete a morte, como a coisa
e a Lua, à poesia: de forma corriqueira, mas profunda, gaiata e
melancólica, tratada com temor e irreverência.
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