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Na enxurrada de mensagens que entupiram os computadores depois da celeuma causada pelo depoimento de Regina Duarte na campanha de José Serra e do patrulhamento ideológico contra a atriz, merece destaque a da lavra do compositor e romancista Z. Rodrix: “Numa ditadura deve-se temer mais o inspetor de quarteirão do que propriamente o ditador.” De fato, além de corromper absolutamente, quando é absoluto, e de ser afrodisíaco, como costumava se gabar o Dr. Ulysses Guimarães, o poder deforma os caracteres de seus detentores e, seja em que nível for, os escraviza a seus caprichos.
Poucas vezes essa verdade elementar, na política como no cotidiano, foi narrada de forma tão forte e tão clara quanto no episódio O Cunhado do Cara, o segundo dos quatro da minissérie Cidade dos Homens, exibida da terça 15 à sexta 18 de outubro na Rede Globo, às 23 horas. Esse episódio específico relatou a curta passagem do protagonista Acerola (interpretado por Douglas Silva, um Grande Otelo em formação) pelo poder na favela retratada na minissérie. No período em que sua irmã namorou o chefão do tráfico da “comunidade”, a pequena e frágil vítima preferencial de um grupo violento de maiores, os “babões”, fez destes literalmente gato e sapato. Mas não ficou nisso: incluiu nas sessões de humilhação seu maior amigo, o outro protagonista, Laranjinha (encarnado por Darlan Cunha).
Poder deformante – Seja no curto reinado do pequeno Acerola, seja nas retaliações de que foi alvo após o fim do namoro da irmã com o traficante, a narrativa mostrou de forma clara (não seria o caso de se dizer didática, porque tudo indica que não houve intenção educativa no episódio nem na minissérie) o processo de deformação psicológica a que o poder submete qualquer ser humano em quaisquer condição social, idade ou grau de escolaridade.
Felizmente, O Cunhado do Cara é um entre quatro bons exemplos de como Cidade dos Homens, ao contrário do que ocorre nas telenovelas, nos humorísticos e mesmo no telejornalismo da programação de rotina da televisão, abordou a realidade social brasileira sem pieguice, exploração comercial ou demagogia. É o caso de dizer, sem medo de errar, que o conjunto da obra – escrita e dirigida por Cesar Charlone, Fernando Meirelles, Guel Arraes, Jorge Furtado, Katia Lund, Paulo Lins e Regina Casé – representou o ápice da produção ficcional na televisão brasileira em seu meio século de existência.
Já a relação dos responsáveis pela criação do programa denota o amadurecimento da produção específica de televisão (representada na equipe por Guel Arraes) e também a extraordinária contribuição de teatro, literatura e cinema para seu êxito artístico. Fernando Meirelles e Katia Lund são diretor e co-diretora de Cidade de Deus, a primeira boa fita de guerra produzida no Brasil e que, aliás, inspirou a minissérie. Jorge Furtado é roteirista e diretor de Houve Uma Vez Dois Verões, comédia que inaugurou o capítulo juvenil na cinematografia nacional (e de forma muito competente, diga-se). E Paulo Lins é o autor do romance de que foi adaptado o filme Cidade de Deus.
Infanto-juvenil diferente – A atriz Regina Casé, revelada pelo grupo d<CW10>e teatro Asdrúbal Trouxe o Trombone e popularizada nas telenovelas, é um capítulo à parte nessa história. Sua filha Benedita leu o premiadíssimo livro Uólace e João Victor, de Rosa Amanda Strausz (Salamandra, 72 págs.), e o recomendou à mãe. Esta se integrou à equipe de adaptadores, ao lado de Fernando Meirelles, Guel Arraes e Jorge Furtado e também o co-dirigiu com Meirelles. O episódio, último da série, pode ser visto como um exemplo bem-sucedido de casamento de bom cinema com o melhor da literatura gerando um produto fora-de-série da televisão.
Uólace e João Victor é um texto magnífico e merece todos os prêmios outorgados à autora, Rosa Amanda Strausz, militante da literatura infanto-juvenil e editora do site Doce de Letra, também dedicado ao tema. Ao relatar o cotidiano de dois pré-adolescentes, o menino de rua Uólace e o de classe média baixa João Victor, o texto introduz na literatura infanto-juvenil brasileira o cotidiano de violência e desesperança e os sonhos e ambições de uma juventude marcada pelo medo do Inferno que o outro representa e pelas aspirações a um falso Paraíso oferecido nos intervalos comerciais da programação de tevê.
Lobato de hoje – Sem apelar para a demagogia nem para a pieguice, Strausz representa no Brasil urbano e violento de hoje papel idêntico ao desempenhado por Monteiro Lobato no País rural e sossegado da primeira metade do século 20. Emília, Dona Benta, Pedrinho, o Visconde de Sabugosa e outros personagens do universo lobatiano introduziram na literatura infanto-juvenil brasileira a paisagem geográfica e humana de um povo mestiço plantando e colhendo nestes tristes trópicos americanos – uma realidade que nada tem que ver com a neve e as fadas e duendes dos contos de Grimm e de Andersen. A qualidade do estilo do moço de Taubaté ainda mantém sua literatura viva e pulsante nas mentes e nos corações dos brasileiros de todas as idades, que se divertiram e se comoveram com as histórias do Sítio do Picapau Amarelo, que proporcionaram, aliás, um dos mais criativos e educativos programas para crianças de nossa televisão.
Mas como no Brasil de hoje não há mais lugar para Rabicós, o texto de Strausz incorpora a nossa anódina e autista literatura infanto-juvenil o som furioso, o cheiro nauseabundo e a agitação feérica de uma sociedade de consumo de massas comprimida numa civilização urbana e cruel. Os encontros e desencontros de Uólace, Cachorrão Duplex e Catuaba, de um lado (o da calçada ou, melhor dito, da sarjeta), com a turma da escola de João Victor, Zé Luiz e Lucas, de outro, são representativos da perplexidade e do pânico, da ternura e do ódio que comandam as relações humanas em todas as faixas etárias em nossas metrópoles, máquinas de moer corações e mentes.
Telinha sanguessuga – Na adaptação, Uólace foi encaixado na pele de um favelado (passou a ser o nome do Laranjinha). Essa ascensão social pode ter reduzido o impacto da presença de um sem-teto num conto infanto-juvenil, pois, morando num barraco de favela, o Uólace da tevê foi promovido em relação ao personagem do livro. Mas isso é compensado pela intrusão da realidade crua das favelas no mundo predominantemente blasé da televisão.
A Globo, como se sabe, é uma vampira (não é à toa que o tema faz sucesso na novela das 7) e se nutre do tutano do sucesso alheio. Até aí morreu Neves (que não foi executado por Beira-Mar nem por Elias Maluco). Se esse sangue a alimenta e revigora, como é o caso do que corre nas veias do livro de Paulo Lins e do filme de Fernando Meirelles, tanto melhor para os criadores, que mostraram sua arte; a própria televisão; e, sobretudo, a platéia grata pelo respeito à sua inteligência, coisa rara na programação do dia-a-dia.
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