A poesia de Maria Carpi arrebata lá do alto

 

     
     

 

     
     


© O Estado de São Paulo, domingo, 15 de maio de 2005.

     
             
     

    O amor é um mistério. Não há filósofo, antropólogo ou psiquiatra capaz de justificar por que uma pessoa elege outra para conviver com ela o resto de seus dias (mesmo que nem sempre o consiga) e com esta compartilhar o prazer inteiro e toda a dor, além da excitação e do tédio. A poesia também é misteriosa. O mais culto, o mais sensível, o mais sábio dos críticos literários não é tampouco capaz de elaborar uma receita segura para definir o que é ou não é boa poesia. Um dos poetas e críticos mais equipados para tanto, o extinto José Paulo Paes, se aproximou desse ideal impossível ao encontrar, não uma receita, mas pelo menos uma sugestão para separar o joio da má poesia do trigo da boa. Bom poema - dizia ele - é aquele em que o autor relata uma emoção e consegue despertar no leitor uma sensação similar de alegria, saudade ou até melancolia. Como o amor desperta freqüentemente emoções do gênero, é natural que seja tema poético, tanto na melhor manifestação formal como na forma de detrito literário. Se muitos são os candidatos a poetas e raríssimos os escolhidos, os que escrevem sobre essa sensação maravilhosa e misteriosa correm mais que seus colegas os riscos de tal empreitada.
            A gaúcha Maria Carpi tem enfrentado esse desafio com arrojo e brilho incomuns. Seus livros são normalmente coletâneas de poemas sobre temas específicos, o que torna sua tarefa mais complexa e, portanto, mais fascinante. Quando tratou da fome, por exemplo, ela o fez com uma delicadeza que não a desviou da natural revolta que a permanência desse flagelo desperta em qualquer pessoa minimamente sensível nesta era da alta tecnologia, mas sem concessões ao discurso dogmático das soluções políticas e ideológicas para o drama humano. Da mesma forma, ela resolveu enfrentar os mistérios (gozosos e dolorosos) do amor da forma misteriosa como só a arte de Safo, Gabriela Mistral e Cecília Meireles (uso aqui três sinônimos de alta qualidade na produção poética feminina em várias épocas e várias línguas) pode fazê-lo. O amor, em seu novo livro, As sombras da vinha, não lhe serve de pretexto para vomitar sobre o leitor seu próprio cabedal de angústias e prazeres, que não dizem respeito ao outro. Mas, sim, um tema rico que desperta no outro lado da linha, o olho do consumidor, uma rara sensação de arrebatamento. É isso mesmo: sólida, criativa, impressionante, a arte de Maria Carpi é arrebatadora e permite a este resenhista o luxo de acrescentar mais um lugar-comum aos tantos que pululam por aí na crítica aparentemente fácil do mais complexo dos objetos selvagens da escrita: o bom poema é aquele que arrebata. Difícil encontrar algo mais próximo e mais definitivo para relatar os efeitos da leitura dessa autora, cujos méritos ainda não foram devidamente reconhecidos nos suplementos literários da imprensa nem pela academia.
              Abordagem sedutora -Nem essa omissão absurda escapou ao registro do olho atento e arguto dela. “Ninguém percebe os parreirais / pingando entre as safras dos frutos / e a imensidão, entre as safras / da luz e a escuridão”. Perceba aqui, caro leitor, a chave do êxito de Maria Carpi em seu ofício poético: à consciência aguda do engano ela acrescenta imagens exatas e um uso, ao mesmo tempo íntimo e respeitoso, do idioma materno: o melhor vernáculo a serviço de uma sucessão de metáforas perfeitas. Tudo isso é feito no ritmo adequado (assemelhado ao pulsar do coração, tido como músculo propulsor do amor) e num conluio sedutor com o qual a autora transfere a própria sedução, essencial na abordagem amorosa, do leitor incauto.
               Na poesia de Maria Carpi não há sobras nem aparas. A autora leva a sério a definição que dá no 30º poema da série (que o autor da orelha da obra, Thiago de Mello, na verdade, classifica como um longo e único poema), a da poesia como uma varanda sonora, nunca premonitória: “Os degraus para chegar / à alta copa suspensa pelos ventos.” Tem êxito sua encantadora e encantada aposta em que “a poesia não é o dia seguinte. Mas o sem-fim”. Com seu instrumental nu e simples (a caneta lhe servindo de enxada), esta criadora singular garante seu lugar de destaque nos cumes de uma arte rara, embora não receba o mérito que deveria ter. Na certa, esse reconhecimento não escasseia pela incapacidade de sua obra atingir o lugar alto a que se propõe chegar, mas, sim, pela falta de fôlego de uma crítica incapaz de seguir sua trilha até o topo aonde ela vai.

     
      As sombras da vinha, de Maria Carpi, Bertrand Brasil, 2005, 224 p.      
     

     
     

     
     

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