| |
|
|
O
amor é um mistério. Não há filósofo, antropólogo ou
psiquiatra capaz de justificar por que uma pessoa elege outra
para conviver com ela o resto de seus dias (mesmo que nem sempre
o consiga) e com esta compartilhar o prazer inteiro e toda a
dor, além da excitação e do tédio. A poesia também é
misteriosa. O mais culto, o mais sensível, o mais sábio dos críticos
literários não é tampouco capaz de elaborar uma receita
segura para definir o que é ou não é boa poesia. Um dos
poetas e críticos mais equipados para tanto, o extinto José
Paulo Paes, se aproximou desse ideal impossível ao encontrar, não
uma receita, mas pelo menos uma sugestão para separar o joio da
má poesia do trigo da boa. Bom poema - dizia ele - é aquele em
que o autor relata uma emoção e consegue despertar no leitor
uma sensação similar de alegria, saudade ou até melancolia.
Como o amor desperta freqüentemente emoções do gênero, é
natural que seja tema poético, tanto na melhor manifestação
formal como na forma de detrito literário. Se muitos são os
candidatos a poetas e raríssimos os escolhidos, os que escrevem
sobre essa sensação maravilhosa e misteriosa correm mais que
seus colegas os riscos de tal empreitada.
A gaúcha Maria Carpi tem enfrentado esse desafio com arrojo e
brilho incomuns. Seus livros são normalmente coletâneas de
poemas sobre temas específicos, o que torna sua tarefa mais
complexa e, portanto, mais fascinante. Quando tratou da fome,
por exemplo, ela o fez com uma delicadeza que não a desviou da
natural revolta que a permanência desse flagelo desperta em
qualquer pessoa minimamente sensível nesta era da alta
tecnologia, mas sem concessões ao discurso dogmático das soluções
políticas e ideológicas para o drama humano. Da mesma forma,
ela resolveu enfrentar os mistérios (gozosos e dolorosos) do
amor da forma misteriosa como só a arte de Safo, Gabriela
Mistral e Cecília Meireles (uso aqui três sinônimos de alta
qualidade na produção poética feminina em várias épocas e várias
línguas) pode fazê-lo. O amor, em seu novo livro, As sombras
da vinha, não lhe serve de pretexto para vomitar sobre o leitor
seu próprio cabedal de angústias e prazeres, que não dizem
respeito ao outro. Mas, sim, um tema rico que desperta no outro
lado da linha, o olho do consumidor, uma rara sensação de
arrebatamento. É isso mesmo: sólida, criativa, impressionante,
a arte de Maria Carpi é arrebatadora e permite a este
resenhista o luxo de acrescentar mais um lugar-comum aos tantos
que pululam por aí na crítica aparentemente fácil do mais
complexo dos objetos selvagens da escrita: o bom poema é aquele
que arrebata. Difícil encontrar algo mais próximo e mais
definitivo para relatar os efeitos da leitura dessa autora,
cujos méritos ainda não foram devidamente reconhecidos nos
suplementos literários da imprensa nem pela academia.
Abordagem sedutora -Nem essa omissão absurda escapou ao
registro do olho atento e arguto dela. “Ninguém percebe os
parreirais / pingando entre as safras dos frutos / e a imensidão,
entre as safras / da luz e a escuridão”. Perceba aqui, caro
leitor, a chave do êxito de Maria Carpi em seu ofício poético:
à consciência aguda do engano ela acrescenta imagens exatas e
um uso, ao mesmo tempo íntimo e respeitoso, do idioma materno:
o melhor vernáculo a serviço de uma sucessão de metáforas
perfeitas. Tudo isso é feito no ritmo adequado (assemelhado ao
pulsar do coração, tido como músculo propulsor do amor) e num
conluio sedutor com o qual a autora transfere a própria sedução,
essencial na abordagem amorosa, do leitor incauto.
Na poesia de Maria Carpi não há sobras nem aparas. A autora
leva a sério a definição que dá no 30º poema da série (que
o autor da orelha da obra, Thiago de Mello, na verdade,
classifica como um longo e único poema), a da poesia como uma
varanda sonora, nunca premonitória: “Os degraus para chegar /
à alta copa suspensa pelos ventos.” Tem êxito sua
encantadora e encantada aposta em que “a poesia não é o dia
seguinte. Mas o sem-fim”. Com seu instrumental nu e simples (a
caneta lhe servindo de enxada), esta criadora singular garante
seu lugar de destaque nos cumes de uma arte rara, embora não
receba o mérito que deveria ter. Na certa, esse reconhecimento
não escasseia pela incapacidade de sua obra atingir o lugar
alto a que se propõe chegar, mas, sim, pela falta de fôlego de
uma crítica incapaz de seguir sua trilha até o topo aonde ela
vai.
|
|
|
|