Ponte entre sensatez e encantamento

 

     
             
     

    

     
             
     

          Contigo emergem a lucidez e o alumbramento. Este é um verso de Neide Archanjo e, entretanto, aí vai ele, assim mesmo sem aspas, abrindo um texto cuja pretensão, talvez excessiva, talvez escassa, é abrir um livro na qual está reunida toda a obra inédita e pregressa, nesta ordem, pois é do inédito para o primevo que este livro se desdobrará aos olhos do leitor, de um fazer poético de 40 anos. Não de um fazer poético qualquer, mas do artesanato paciente e lúdico, profundo e cristalino de alguém que não escolheu o ofício, mas por ele foi escolhido. 

         A falta de aspas denota, em primeiro lugar, a inveja. O autor destas linhas daria um dedo, ou quem sabe um braço inteiro, pelo orgulho de havê-lo escrito. Pois esta pequena jóia literária resume em começo, meio e fim não apenas a trajetória de Sor Juana Inês de la Cruz (e se Octavio Paz, que escreveu sobre essa mestra da poesia em castelhano uma obra vasta e completa vivo fora, me apoiaria), mas também a da própria autora. E não faltará o que me apóie ao longo da leitura deste livro que parecerá volumoso ao leitor, mas jamais pesado, pois ele flutua em marinhas, evolui no ar com epifanias e será, apesar de todas as suas quase 600 páginas, um mínimo e indelével oratório de um poeta maior para um anjo. Sendo Neide arcanjo, ela comunga com Sor Juana o mistério gozoso da poesia que aos homens – nem sequer a São João da Cruz – não foi dado revelar: o de que esta arte da síntese suprema, esta linguagem falada apenas pela alma sem auxílio de língua, tímpano ou íris, é o pacto supremo do criador com o Criador. 

       Não importa aqui e agora se Neide, mesmo sendo arcanjo, tenha ou não fé nos anjos que invoca, como tem, por exemplo, sua colega Adélia Prado. Mas, como esta, ela sabe muito bem que sua arte de si só tem a letra, ela só pode lhe ter sido soprada por uma força superior, um espírito celeste capaz de torná-la uma sacerdotisa profana de um futuro que ainda não foi construído e uma profeta imperfeita de um código imemorial, intemporal e ecumênico que atravessa os limites do profano e do sacro com a mesma desenvoltura com que fala a incréus, gentios, pagãos e devotos de mares muitas vezes singrados e pontes de suspiros, dor e gozo. 

        Em 40 anos de prática, a poesia de Neide é épica em seu lirismo e lírica na epopéia de si mesma. Sensata e encantada, ela aparece sob a forma do canto das sereias que tentavam desviar Ulisses de seu caminho de volta ao regaço de Penélope e da cera com que o herói tapou os ouvidos para evitar escutá-lo. Ao debulhar palavras e estrelas, ao prantear o toureiro abatido às cinco em ponto da tarde pelas aspas do touro condenado à morte, ao perder um outro olhar no alçapão do espelho, ao vagar entre girassóis e sombras, esta senhora poeta fala de amor, ainda que a solidão o mine como mágoa e ele venha a se extinguir como fogo fátuo entre as pequenas delícias esquecidas que produz. Esta é uma poeta, ainda que pareça advogada e psicóloga e ainda que pareça paulista, é apenas e tão somente uma poeta com sua capacidade inescapável de nos tornar lúcidos pelo alumbramento e de nos encantar, irremediavelmente, com a magia improvável da sensatez. Este Todas as horas e antes é, desde sempre, a ponte de chumbo sobre o pélago do mistério tornando as margens da ação e do sonho um só continente. É voar e largar, leitor atento!

     
           
     

     
     

     
     

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