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Minissérie
“A Casa das Sete Mulheres”, de Maria Adelaide Amaral e
Walther Negrão, na Globo, se destaca do resto da programação
da tevê por respeitar
a língua e o
telespectador, sem fazer as concessões de hábito aos baixos
instintos
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Quem vai ao acanhado teatro do Centro Cultural do Banco do Brasil verificar o que foi feito do antológico texto de Eugene O’Neill, Longa Jornada de um Dia Noite Adentro, se pode surpreender com a brilhante tradução de Bárbara Heliodora e a humildade competente do diretor e cenógrafo Naum Alves de Souza. Encantar-se-á com o elenco, mas, a não ser que seja completamente desinformado, não se espantará com a qualidade e a sensibilidade daquela obra-prima da literatura cênica, com seu magnífico fecho, o monólogo da Mary Tyrone encarnada no espetáculo por Cleyde Iáconis.
O caso da televisão, contudo, é oposto: viciado no tratamento dado ao vernáculo nas entrevistas de Adriane Galisteu ou Luciana Jimenez e desrespeitado pela exibição descarada da sordidez humana nos reality shows, o telespectador na certa se assusta ao se deparar com alguma manifestação rara de inteligência num templo devotado aos baixos instintos. No entanto, a inteligência e a sensibilidade humanas já se salvaram no veículo por obra e graça do Auto da Compadecida ou mercê do realismo poético e brutal da Cidade dos Homens. E agora, provando que nem tudo foi condenado à banalidade e à ignomínia posta à venda, a minissérie A Casa das Sete Mulheres vem provar que “a última flor do Lácio inculta e bela” de Bilac pode ser regada, e não apenas negada e maltratada sob o brilho fugaz dos holofotes da fama e do tédio.
Sim. É claro que se deve (e muito) o bom resultado final da produção à direção de Jayme Monjardim que, desde os tempos de Pantanal na extinta Rede Manchete, provou ser capaz de detectar como ninguém mais a luz e a cor da paisagem nativa. Méritos também não faltarão à descoberta de uma estrela fulgurante nos olhos claros e expressivos da narradora Camila Morgado, que com Cacilda Becker tem, no mínimo, um talento em comum: o de tornar suas personagens ainda mais belas do que elas já são usando apenas o brilho dos olhos e o tom da voz. Quem - como este escriba - não teve a honra nem o prazer de ver a Becker atuar pode agora testemunhar o milagre da produção da beleza despida de jaça nos lampejos fulgurantes do olhar da mocinha que se faz deusa quando a câmara os flagra.
Mas é preciso considerar desde logo que nada disso seria possível sem o trabalho de base dos dois escritores: Maria Adelaide Amaral, autora de teatro incorporada à televisão pelo olho clínico do pioneiro Cassiano Gabus Mendes, e Walther Negrão, veterano novelista egresso da publicidade. Os dois souberam tirar do romance de Letícia Wierchowski, que lhes caiu à mão assim que saiu, material suficiente para produzir essa obra-prima, que resgata o senso estético e respeita a inteligência do telespectador sem apelar para os costumeiros golpes abaixo da linha da cintura.
Houve quem lhes negasse conhecimentos geográfico e histórico - o que é natural neste País que, à falta de escolas à altura, exige da arte papel de supletivo escolar. Tolice! Tabajara Ruas, perito em texto e especialista no Rio Grande, advertiu com sensatez que a minissérie não trata da história, mas da mitologia dos pampas. Defesa justa e honrosa, essa do grande romancista gaúcho! Mas desnecessária de tão evidente: cobrar da obra acabada correspondência com fatos históricos é de uma caturrice que dispensa qualquer argumentação.
Manuela não saiu da estância atrás de Garibaldi, enrabichado pela catarinense Anita. Não foi a autora do romance adaptado quem inventou a caça peripatética do herói italiano pela sobrinha do chefe farroupilha Bento Gonçalves em território conflagrado. Se os autores tivessem sido fiéis ao romance original e aos compêndios escolares, não escreveriam um dos momentos que mais dignificam a pouco digna (esteticamente) história da televisão brasileira: o confronto havido no diálogo entre Manuela e Anita Garibaldi na enfermaria onde o objeto da paixão das duas, Giuseppe Garibaldi, convalescia. E a fidelidade histórica aboliria a felicidade estética de ver uma bela cena num meio em que beleza é tão rara.
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