A boda da precisão com a graça

 

     
     

Prefácio do livro Zôo imaginário de Sérgio de Castro Pinto

     
     

São Paulo: Escrituras, 2005

     
             
     

        Certa vez, atendendo a honroso convite feito por meu amigo José Paulo Paes, participei do júri do Prêmio Bienal Nestlé de Literatura, na seção poesia. Chegaram a minha casa tantas caixas de produtos da multinacional que minha mulher chegou a imaginar que estaríamos sendo premiados por algum motivo especial. Ou, então, eu é que estaria a ponto de abrir alguma revenda de laticínios e outros produtos comestíveis. Na verdade, as caixas continham carradas de originais de poesia para meu julgamento. Foi um trabalho insano para o qual me faltavam tempo, paciência e preparo. No entanto, terminei me saindo dele galhardamente, e por um motivo inesperado: era tão absurdamente baixo o nível médio dos concorrentes que não se fazia necessário ler mais que o primeiro poema – às vezes, apenas o verso inicial – para descobrir que não valia a pena seguir adiante. Era somente o caso de parar e devolver em caixas para a empresa fornecedora. Raros foram os que sobreviveram a esse crivo cruel.
                 O resultado é que esse contato direto com a média da produção poética nacional me levou a duas conclusões terríveis: a primeira é que se produz muito mais poesia do que se lê no Brasil. Muitas vezes, os candidatos a poeta sequer se dão ao luxo de ler as próprias porcarias, transferindo-as imediatamente ao leitor, como num gesto autocrítico de náusea. A segunda, não menos intrigante, é que a moda do estro cabralino, que tanto vigor e tanta inovação trouxe à poesia em qualquer língua da metade do século 20 em diante, produziu um efeito colateral negativo: a monocultura esterilizante da austeridade formal estática e estúpida, na qual o rigor do poeta pernambucano se torna uma rigidez estéril, insípida, incolor e, sobretudo, de uma evidente imperfeição, naquela apenas aparente caça desesperada pela perfeição.
               Não foi mesmo surpreendente? Como é que um poeta maior, original, obcecado pela exatidão e absolutamente genial no manejo da técnica poderia servir de fonte ao deserto formal sem cor nem graça em que afunda a quase totalidade da produção poética brasileira desde Pedra do sono? A resposta não é complicada, ao contrário do que possa parecer superficialmente. A mediocridade generalizada encontrou na aparente secura cabralina um porto seguro para se abrigar do sol da criação à sombra da mesmice e de um facilitário que navega entre a mera repetição e a pretensão (desprovida de qualquer senso de realismo) da orginilidade.
                À ocasião, o único remédio para o desânimo era enfrentar aquela desolação toda de um bando de eunucos da poesia, fingindo-se de garanhões, com doses homeopáticas de cabralismo de boa cepa, à altura da herança do grande mestre. E percebendo-o para além da aridez da forma na base de seu poder de síntese, no qual o sentido poético não se esteriliza, mas se reproduz. Um bom porto seguro para essa atitude é certamente a obra da “marcaria” do Grupo Sanhauá, no qual se destaca o raro não Marcos, Sérgio de Castro Pinto.
                   O poeta pessoense é o que de melhor se pode servir contra o cabralismo malsão. É epigramático, sem ser enigmático. E um artesão apurado e preciso da palavra no verso em que a imagem salta do escasso, não por falta de idéias, mas exatamente por saber contê-las sem ter de recorrer à enxúndia, recurso de parvos. Sabe-se que o mestre de Castro Pinto, o citado poeta de Recife e Sevilha, cultivou um apreço imenso pela pintura econômica de Miró e uma certa repulsa pela redundância por meio da qual a arte musical apela aos sentidos, impondo-se ao gosto do ouvinte. O desamor do poeta de Uma faca só lâmina pela redundância fez dele um preciso cinzelador das palavras, o que não o impediu de criar versos musicais – e isso está provado na célebre versão musicada de seu auto Morte e vida severina, da lavra de Chico Buarque.
                       Fosse seu discípulo Castro Pinto pintor, sua obra certamente se identificaria com a de Mondrian. Nesta sua mais recente coletânea, Minha fala dos bichos, ocorre-me chamar a atenção para o apelo monocromático, mas no qual a cor única consegue conter todas as outras, nunca desprezadas, no poema do leão, a juba. Para melhor esclarecer, permita-me o leitor o luxo de citá-lo: “sol de pêlos / ao redor / da cabeça, // a fulva juba flameja: // estrela / de primeiríssima / grandeza!” Aqui chama-me atenção o uso do superlativo como elemento surpresa. A João Cabral, o mestre que celebrou Ademir da Guia em célebre momento poético, talvez ocorresse o chute forte de fora da área de um volante inesperado. Aqui, a ênfase nega a concisão, mas, ao mesmo tempo, a exibe.
                  Ao contrário do mestre, que nega a música, embora a construa, Castro Pinto vai direto ao ouvido do leitor, assumindo-a na linguagem e na metalinguagem. Quando estiver a ler e reler, devagar, como convém, este volume, detenha-se, caro leitor, no primoroso as cigarras. E perceba a sutileza como o poeta é musical e musicólogo ao mesmo tempo, contudo sem ceder às reverberações do tentador ritmo das palavras. É o caso de adiantar-lhe a leitura recomendada aqui e agora: “são guitarras trágicas. // plugam-se/se/se/se / nas árvores / em dós sustenidos. // kipling recitam a plenos pulmões. // gargarejam / vidros / moídos. // o cristal dos verões.” Nesse poema – em que, curiosamente, a monotonia do canto dos insetos, alcançada pela repetição do pronome oblíquo no primeiro verso da segunda estrofe, remete, de alguma forma ao refrão de Volver a los 17, cantada por Mercedes Sosa - aprecio as quebras rítimicas dos versos que emolduram, únicos, as estrofes centrais, cumprindo no caso o papel da redundância rítmica insistente do Bolero, de Ravel. Voltando à metáfora do parágrafo anterior, dir-se-ia que cumprem o papel daqueles craques lentos apenas na aparência, pois se movem em campo com lerdeza, mas fazem a bola girar com rapidez – caso do citado Ademir da Guia e também de outro, mais recente, o dr. Sócrates Brasileiro.
                  Sendo a girafa um bicho que nos conecta o poeta, meu ídolo há muito tempo, e eu mesmo, pois ambos temos netos chamados Pedro e estamos, no momento em que ele publica seu livro e eu escrevo este texto, em pleno solstício da avolescência, peço vênia para destacar a série que trata do bicho (agora substituído por um sapo também estilizado) que embalava o repouso de meu pequenino (o adjetivo lembra a propósito sua ascendência lusitana) e amado descendente. Além do motivo sentimental, tenho também um de natureza temática, com o qual concordará o autor, pois, não fosse a girafa um bicho poético por definição (que o diga Murilo Mendes), não lhe teria ele dedicado nada menos que meia dúzias de homenagens nesta parca coletânea.
                 Permito-me selecionar duas para voltar ao tema original deste texto e mostrar como a frondosa árvore poética nascida da semente cabralina pode dar flores e frutos a quem saiba plantá-la no lugar certo, sem descuidar de regá-la bem. No poema a girafa (II), Castro Pinto esgrima o epigrama com ironia, sarcasmo e uma meiga memória afetiva, que transporta o leitor aos recantos mais úmidos e agradáveis de sua vida pregressa. Irreverente, sem perder a ternura, e conciso, sem perder a graça, o poema, uma vez mais, falará melhor das próprias qualidades, ao ser exibido diretamente a seus olhos neste espaço introdutório. Então, vamos lá: “a girafa é girassol, / a girafa é de lua, / não gira bem. // é top model, / é audrey hepburn, / olhem o pescoço / que a girafa tem!” Ocorre-me escrever amém, uma palavra a mais num conjunto preciso, exato e claro, no qual se ressalta, cristalino, o humor infantil. Desde que o li pela primeira vez, ocorre-me um causo de excepcionais graça e leveza, protagonizada pela estrela de Hollywood nele citada. Consta que, concluído o filme Breakfast at Tiffany’s/Bonequinha de luxo, a montagem final resultara mais longa do que pretendiam os produtores e um destes resolvera cortar uma seqüência, por inútil – justamente aquela em que a Hepburn cantava, com sua voz pequena de suavíssimo timbre, o tema da fita, Moon river, de Henry Mancini. Do fundo da sala, ouvira-se, então, a voz firme e serena da estrela: Only over my dead body – “só sobre meu cadáver”. Mais que pelo porte longo e esguio, a atriz que virou símbolo de elegância lembra a girafa descrita pelo poeta mercê da improvável firmeza em que consegue se manter no solo, apesar de tão longilínea. Lembre-se o paciente leitor, a quem estou privando o prazer de ler a poesia de Castro Pinto para se perder nestas divagações, que a canção se tornou clássica e o filme encantador por várias seqüências, mas principalmente por esta, que a sensibilidade e coragem da protagonista salvou da tesoura do produtor avaro.
                Outro poema, a ser destacado da série de seis sobre a girafa, é o terceiro. Minha escolha recaiu sobre este porque, de certa forma, ele se propõe exatamente ao oposto do que o segundo sintetiza para o leitor. Se o reproduzido no parágrafo anterior é uma piada (e uma piada interessante, o que contradiz a tradição das tentativas poéticas do gênero, cujo único valor estético é o de serem breves), o próximo a ser citado dispõe de uma nudez descritiva quase canônica. Nele respira o fundamental conceito cabralino, segundo o qual a palavra não tem valor em si, precisando sempre do sentido por ela atribuído a um dado concreto da realidade, só então se tornando instrumento de emoção e comunicação do autor com seu leitorado. É assim a girafa (III): “entre nefelibata / e autista // - com o pescoço / a se perder / de vista /, // vive nas nuvens e rumina a brisa.”
                 Talvez não seja de todo pretensioso (embora sempre o seja um pouco) lembrar ao prezado leitor que a esqualidez da descrição do animal reforça sua concreção e, mais além, lhe incorpora uma série de indícios que estão no fundo invisível da cena descrita. Pode o observador perder de vista a extremidade superior do pescoço do animal retratado no poema, mas ele não deixará escapar a sua acuidade o impulso crítico que produziu a primeira pincelada verbal. A girafa é, sim, “nefelibata”, vive de ar nas nuvens, mas nunca o poeta que a retrata pode sê-lo: este tem de descer da torre de marfim e da masmorra da contemplação narcísica do próprio umbigo para prescrutar o céu que emoldura o pescoço do bicho, composto do ar que o nutre.
                     Aqui, preparo-me para encerrar esta apresentação, que terminou contradizendo o esilo do apresentado, por ser ela enxundiosa e sem graça. E o faço antes de ser interrompido, como o fui certa feita numa livraria de João Pessoa, ao lançar meu próprio livro de poemas, Barcelona, Borborema. Como havia prometido a Mané Caixa d´Água lhe passar a palavra após meu discurso, quando parei para respirar, ouvi sua voz firme brotando da platéia muda: “E concluindo...”
                     Concluindo, pois, eu lhe diria que a impressão que a leitura deste livro me causou foi a de estar numa festa, uma boda, o “casamento da raposa com o rouxinol!” Núpcias da sagacidade com a sensibilidade, da precisão com a graça. E, afinal, ufa como diria nosso querido Caixa, tenho dito!


     
           
     

     
     

     
     

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