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Certa
vez, atendendo a honroso convite feito por meu amigo José Paulo
Paes, participei do júri do Prêmio Bienal Nestlé de
Literatura, na seção poesia. Chegaram a minha casa tantas
caixas de produtos da multinacional que minha mulher chegou a
imaginar que estaríamos sendo premiados por algum motivo
especial. Ou, então, eu é que estaria a ponto de abrir alguma
revenda de laticínios e outros produtos comestíveis. Na
verdade, as caixas continham carradas de originais de poesia
para meu julgamento. Foi um trabalho insano para o qual me
faltavam tempo, paciência e preparo. No entanto, terminei me
saindo dele galhardamente, e por um motivo inesperado: era tão
absurdamente baixo o nível médio dos concorrentes que não se
fazia necessário ler mais que o primeiro poema – às vezes,
apenas o verso inicial – para descobrir que não valia a pena
seguir adiante. Era somente o caso de parar e devolver em caixas
para a empresa fornecedora. Raros foram os que sobreviveram a
esse crivo cruel.
O resultado é que esse contato direto com a média da
produção poética nacional me levou a duas conclusões
terríveis: a primeira é que se produz muito mais poesia do que
se lê no Brasil. Muitas vezes, os candidatos a poeta sequer se
dão ao luxo de ler as próprias porcarias, transferindo-as
imediatamente ao leitor, como num gesto autocrítico de náusea.
A segunda, não menos intrigante, é que a moda do estro
cabralino, que tanto vigor e tanta inovação trouxe à poesia
em qualquer língua da metade do século 20 em diante, produziu
um efeito colateral negativo: a monocultura esterilizante da
austeridade formal estática e estúpida, na qual o rigor do
poeta pernambucano se torna uma rigidez estéril, insípida,
incolor e, sobretudo, de uma evidente imperfeição, naquela
apenas aparente caça desesperada pela perfeição.
Não foi mesmo surpreendente? Como é que um poeta maior,
original, obcecado pela exatidão e absolutamente genial no
manejo da técnica poderia servir de fonte ao deserto formal sem
cor nem graça em que afunda a quase totalidade da produção
poética brasileira desde Pedra do sono? A resposta não é
complicada, ao contrário do que possa parecer superficialmente.
A mediocridade generalizada encontrou na aparente secura
cabralina um porto seguro para se abrigar do sol da criação à
sombra da mesmice e de um facilitário que navega entre a mera
repetição e a pretensão (desprovida de qualquer senso de
realismo) da orginilidade.
À ocasião, o único remédio para o desânimo era enfrentar
aquela desolação toda de um bando de eunucos da poesia,
fingindo-se de garanhões, com doses homeopáticas de cabralismo
de boa cepa, à altura da herança do grande mestre. E
percebendo-o para além da aridez da forma na base de seu poder
de síntese, no qual o sentido poético não se esteriliza, mas
se reproduz. Um bom porto seguro para essa atitude é certamente
a obra da “marcaria” do Grupo Sanhauá, no qual se destaca o
raro não Marcos, Sérgio de Castro Pinto.
O poeta pessoense é o que de melhor se pode servir contra o
cabralismo malsão. É epigramático, sem ser enigmático. E um
artesão apurado e preciso da palavra no verso em que a imagem
salta do escasso, não por falta de idéias, mas exatamente por
saber contê-las sem ter de recorrer à enxúndia, recurso de
parvos. Sabe-se que o mestre de Castro Pinto, o citado poeta de
Recife e Sevilha, cultivou um apreço imenso pela pintura
econômica de Miró e uma certa repulsa pela redundância por
meio da qual a arte musical apela aos sentidos, impondo-se ao
gosto do ouvinte. O desamor do poeta de Uma faca só lâmina
pela redundância fez dele um preciso cinzelador das palavras, o
que não o impediu de criar versos musicais – e isso está
provado na célebre versão musicada de seu auto Morte e vida
severina, da lavra de Chico Buarque.
Fosse seu discípulo Castro Pinto pintor, sua obra certamente se
identificaria com a de Mondrian. Nesta sua mais recente
coletânea, Minha fala dos bichos, ocorre-me chamar a atenção
para o apelo monocromático, mas no qual a cor única consegue
conter todas as outras, nunca desprezadas, no poema do leão, a
juba. Para melhor esclarecer, permita-me o leitor o luxo de
citá-lo: “sol de pêlos / ao redor / da cabeça, // a fulva
juba flameja: // estrela / de primeiríssima / grandeza!” Aqui
chama-me atenção o uso do superlativo como elemento surpresa.
A João Cabral, o mestre que celebrou Ademir da Guia em célebre
momento poético, talvez ocorresse o chute forte de fora da
área de um volante inesperado. Aqui, a ênfase nega a
concisão, mas, ao mesmo tempo, a exibe.
Ao contrário do mestre, que nega a música, embora a construa,
Castro Pinto vai direto ao ouvido do leitor, assumindo-a na
linguagem e na metalinguagem. Quando estiver a ler e reler,
devagar, como convém, este volume, detenha-se, caro leitor, no
primoroso as cigarras. E perceba a sutileza como o poeta é
musical e musicólogo ao mesmo tempo, contudo sem ceder às
reverberações do tentador ritmo das palavras. É o caso de
adiantar-lhe a leitura recomendada aqui e agora: “são
guitarras trágicas. // plugam-se/se/se/se / nas árvores / em
dós sustenidos. // kipling recitam a plenos pulmões. //
gargarejam / vidros / moídos. // o cristal dos verões.”
Nesse poema – em que, curiosamente, a monotonia do canto dos
insetos, alcançada pela repetição do pronome oblíquo no
primeiro verso da segunda estrofe, remete, de alguma forma ao
refrão de Volver a los 17, cantada por Mercedes Sosa - aprecio
as quebras rítimicas dos versos que emolduram, únicos, as
estrofes centrais, cumprindo no caso o papel da redundância
rítmica insistente do Bolero, de Ravel. Voltando à metáfora
do parágrafo anterior, dir-se-ia que cumprem o papel daqueles
craques lentos apenas na aparência, pois se movem em campo com
lerdeza, mas fazem a bola girar com rapidez – caso do citado
Ademir da Guia e também de outro, mais recente, o dr. Sócrates
Brasileiro.
Sendo a girafa um bicho que nos conecta o poeta, meu ídolo há
muito tempo, e eu mesmo, pois ambos temos netos chamados Pedro e
estamos, no momento em que ele publica seu livro e eu escrevo
este texto, em pleno solstício da avolescência, peço vênia
para destacar a série que trata do bicho (agora substituído
por um sapo também estilizado) que embalava o repouso de meu
pequenino (o adjetivo lembra a propósito sua ascendência
lusitana) e amado descendente. Além do motivo sentimental,
tenho também um de natureza temática, com o qual concordará o
autor, pois, não fosse a girafa um bicho poético por
definição (que o diga Murilo Mendes), não lhe teria ele
dedicado nada menos que meia dúzias de homenagens nesta parca
coletânea.
Permito-me selecionar duas para voltar ao tema original deste
texto e mostrar como a frondosa árvore poética nascida da
semente cabralina pode dar flores e frutos a quem saiba
plantá-la no lugar certo, sem descuidar de regá-la bem. No
poema a girafa (II), Castro Pinto esgrima o epigrama com ironia,
sarcasmo e uma meiga memória afetiva, que transporta o leitor
aos recantos mais úmidos e agradáveis de sua vida pregressa.
Irreverente, sem perder a ternura, e conciso, sem perder a
graça, o poema, uma vez mais, falará melhor das próprias
qualidades, ao ser exibido diretamente a seus olhos neste
espaço introdutório. Então, vamos lá: “a girafa é
girassol, / a girafa é de lua, / não gira bem. // é top model,
/ é audrey hepburn, / olhem o pescoço / que a girafa tem!”
Ocorre-me escrever amém, uma palavra a mais num conjunto
preciso, exato e claro, no qual se ressalta, cristalino, o humor
infantil. Desde que o li pela primeira vez, ocorre-me um causo
de excepcionais graça e leveza, protagonizada pela estrela de
Hollywood nele citada. Consta que, concluído o filme Breakfast
at Tiffany’s/Bonequinha de luxo, a montagem final resultara
mais longa do que pretendiam os produtores e um destes resolvera
cortar uma seqüência, por inútil – justamente aquela em que
a Hepburn cantava, com sua voz pequena de suavíssimo timbre, o
tema da fita, Moon river, de Henry Mancini. Do fundo da sala,
ouvira-se, então, a voz firme e serena da estrela: Only over my
dead body – “só sobre meu cadáver”. Mais que pelo porte
longo e esguio, a atriz que virou símbolo de elegância lembra
a girafa descrita pelo poeta mercê da improvável firmeza em
que consegue se manter no solo, apesar de tão longilínea.
Lembre-se o paciente leitor, a quem estou privando o prazer de
ler a poesia de Castro Pinto para se perder nestas divagações,
que a canção se tornou clássica e o filme encantador por
várias seqüências, mas principalmente por esta, que a
sensibilidade e coragem da protagonista salvou da tesoura do
produtor avaro.
Outro poema, a ser destacado da série de seis sobre a girafa,
é o terceiro. Minha escolha recaiu sobre este porque, de certa
forma, ele se propõe exatamente ao oposto do que o segundo
sintetiza para o leitor. Se o reproduzido no parágrafo anterior
é uma piada (e uma piada interessante, o que contradiz a
tradição das tentativas poéticas do gênero, cujo único
valor estético é o de serem breves), o próximo a ser citado
dispõe de uma nudez descritiva quase canônica. Nele respira o
fundamental conceito cabralino, segundo o qual a palavra não
tem valor em si, precisando sempre do sentido por ela atribuído
a um dado concreto da realidade, só então se tornando
instrumento de emoção e comunicação do autor com seu
leitorado. É assim a girafa (III): “entre nefelibata / e
autista // - com o pescoço / a se perder / de vista /, // vive
nas nuvens e rumina a brisa.”
Talvez não seja de todo pretensioso (embora sempre o seja um
pouco) lembrar ao prezado leitor que a esqualidez da descrição
do animal reforça sua concreção e, mais além, lhe incorpora
uma série de indícios que estão no fundo invisível da cena
descrita. Pode o observador perder de vista a extremidade
superior do pescoço do animal retratado no poema, mas ele não
deixará escapar a sua acuidade o impulso crítico que produziu
a primeira pincelada verbal. A girafa é, sim, “nefelibata”,
vive de ar nas nuvens, mas nunca o poeta que a retrata pode
sê-lo: este tem de descer da torre de marfim e da masmorra da
contemplação narcísica do próprio umbigo para prescrutar o
céu que emoldura o pescoço do bicho, composto do ar que o
nutre.
Aqui, preparo-me para encerrar esta apresentação, que terminou
contradizendo o esilo do apresentado, por ser ela enxundiosa e
sem graça. E o faço antes de ser interrompido, como o fui
certa feita numa livraria de João Pessoa, ao lançar meu
próprio livro de poemas, Barcelona, Borborema. Como havia
prometido a Mané Caixa d´Água lhe passar a palavra após meu
discurso, quando parei para respirar, ouvi sua voz firme
brotando da platéia muda: “E concluindo...”
Concluindo, pois, eu lhe diria que a impressão que a leitura
deste livro me causou foi a de estar numa festa, uma boda, o
“casamento da raposa com o rouxinol!” Núpcias da sagacidade
com a sensibilidade, da precisão com a graça. E, afinal, ufa
como diria nosso querido Caixa, tenho dito!
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