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Será o 3º PNDH uma
retaliação dos vencidos na guerra contra a ditadura?
A polêmica provocada pelo
decreto criador do 3º Programa Nacional dos Direitos Humanos
(PNDH) mostra que ainda não acabou a cesura que remonta às
origens do Partido dos Trabalhadores (PT) sobre a natureza
da democracia pretendida por seus militantes. Será a
clássica democracia burguesa de controles e contrapesos
exigidos pelos Pais Fundadores da Revolução Americana de
1783, com a adoção de três Poderes (Legislativo, Executivo e
Judiciário) autônomos e soberanos, fórmula do francês
Montesquieu? Ou a direta, a ser exercida por consultas
permanentes à cidadania por plebiscitos e referendos e por
conselhos compostos por delegados (neste debate se tem
lembrado que soviet significa conselho em russo)? A
diferença entre as duas é que a primeira é obviamente
imperfeita e a segunda, impossível de ser praticada, tal
como define seu significado semântico, conforme disse o
cientista político Leôncio Martins Rodrigues em entrevista a
este jornal, domingo.
A dúvida traz outra à baila: será a
eleição dos mandatários do Executivo e dos representantes do
cidadão no Legislativo o momento crucial do exercício do
poder pelo povo, como determina a Constituição (no caso do
Brasil, mais do que isso, pois nossa democracia é
exclusivamente eleitoral), ou apenas um pretexto para galgar
o poder e de lá submeter a Nação às próprias convicções? A
resposta a essa pergunta é fundamental neste momento em que
o País se prepara para viver a sexta escolha direta do chefe
do Poder Executivo desde o fim da vigência do acordo
negociado na cúpula para a extinção do regime autoritário e
sua substituição por um Estado Democrático de Direito, nos
moldes definidos na velha democracia burguesa. Luiz Inácio
Lula da Silva subiu a rampa do Palácio do Planalto
impulsionado por duas votações que manifestaram a inequívoca
vontade da maioria do eleitorado de vê-lo no poder. Seu
talento inato para se comunicar com o cidadão comum o tornou
o mais popular governante do Brasil desde Tomé de Souza e
com parcas chances de vir a ser superado nisso, a julgar
pelos quadros atuantes na política e na gestão pública.
Lula fez-se conhecer como
dirigente sindical desatrelado do peleguismo no controle da
organização dos trabalhadores pelo PTB de Getúlio Vargas e
do anarcocomunismo que dirigia o sindicalismo antes das
greves do ABC, nos anos 70. Incorporou-se à tradição
conciliadora que moldou o estilo de importantes homens
públicos brasileiros: dom Pedro II, Bernardo de Vasconcelos,
Getúlio Vargas e Tancredo Neves. A primeira conciliação,
mercê de seu talento para o ecumenismo, deu-se já na
fundação do PT. Antes, dizia-se que a esquerda brasileira só
se unia na cadeia. Sob sua égide se reuniram egressos de
grupos guerrilheiros de posições inconciliáveis com líderes
sindicais apartidários (caso dele próprio) e a esquerda
católica, dividida entre políticos “progressistas” da
democracia cristã e militantes da Teologia da Libertação, em
comunidades eclesiais de base e pastorais.
O tão decantado carisma de Lula e sua habilidade
de milagroso domador dos gatos desse incrível saco foram
insuficientes para levá-lo ao poder e à glória de agora nas
três tentativas que fez antes de chegar à Presidência – a
primeira contra Collor e outras duas contra Fernando
Henrique Cardoso. O milagre da ascensão ao topo do poder só
foi possível com a segunda conciliação, fruto de seu
oportunismo e iniciada com o abandono do programa
socialista, que unia apenas os três grupos originais do PT,
e a adoção de um discurso de austeridade fiscal e combate à
inflação da era pós-Palocci. O desgaste dos laços que atavam
o saco de gatos, amarrado pelos pretensos social-democratas
sob Fernando Henrique, permitiu a Lulinha Paz e Amor
promover a segunda e ainda mais bem-sucedida conciliação com
a escória da velha política brasileira, que os petistas de
antanho chamavam de “isso que está aí”. A reverência que o
atual presidente fez ao ex Sarney, ao evitar a degola dele
na presidência do Senado, teve natureza simbólica, pois a
certeza do clã maranhense de que o candidato tucano à
sucessão de Fernando Henrique, José Serra, tivera papel
decisivo na perseguição à herdeira do chefão, Roseana, no
episódio da descoberta de dinheiro vivo em seu comitê
eleitoral, foi determinante para a desistência da
candidatura por ela. E a senha oportuna para a velha
plutocracia mudar de palanque, como agora para beijar a mão
da guerrilheira aposentada Dilma Rousseff.
É claro que a fisiologia descarada só se
curva hoje à Utopia derrotada na guerra suja, mas vitoriosa
no confronto ideológico, seja com a direita que desabou com
a ditadura, seja com os liberais da pusilânime aliança
PSDB-DEM, porque não quer largar o osso do poder. Nisso,
aliás, imita o mais poderoso, Lula, que quer eleger a chefe
da Casa Civil na convicção (talvez ilusória) de que será
conviva de honra nos banquetes da fortuna e da glória depois
da posse de quem lhe suceder.
Há, contudo, entre o criador e a criatura mais
diferenças do que pode supor sua débil filosofia. Uma delas
é que, por menos que saiba disso, o matreiro Lula ajudou a
derrubar o autoritarismo de cima do palanque do Estádio de
Vila Euclides, em São Bernardo, tornando-se, com todas as
honras, herói desta democracia que está aí, por mais
imperfeita que ela possa ser. E a guerrilheira desalmada e
desarmada participou de um processo de enfrentamento militar
que só prolongou a longa noite dos porões. E, depois,
penetrou no centro das decisões no vácuo do chefe. Isso
induz democratas assustados a imaginar que o 3º PNDH seja um
projeto de vingança a ser realizado em seu eventual, embora
provável, futuro governo. Enquanto ela não esclarecer isso
com todas as letras, este fantasma que reabre feridas já
cicatrizadas faz tempo continuará a nos espreitar.
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