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O inferno não são os outros, mas o nosso fascínio pelo
reflexo no espelho
A
morte do escritor americano J. D. Salinger, na semana
passada, remete-nos a uma evidência que passou despercebida
no último meio século: a era da rebeldia começou de fato na
época de ouro, ou seja, contrariando a cronologia, os anos
60 tiveram início em 1951, ainda no comecinho do decênio
anterior, o dos 50. Naquele ano foi lançado o romance O
Apanhador no Campo de Centeio, um dos maiores êxitos de
crítica e de vendas do mercado editorial mundial e, sem
dúvida, uma obra de importância capital no cenário
conturbado do século 20, que começou com uma carnificina nas
trincheiras da Europa e terminou com a nova ordem mundial
configurada na Guerra nas Estrelas. Além de ter vendido mais
de 60 milhões de exemplares no planeta, ela exerceu em seus
leitores influência comparável à de outros clássicos
recentes, como O Estrangeiro, do franco-argelino
Albert Camus, e Eichmann em Jerusalém – Relato sobre a
Banalidade do Mal, da judia alemã Hannah Arendt.
A obra-prima de Camus, principal razão para que o autor se
tornasse, aos 44 anos de idade, o mais jovem escritor a
receber o Prêmio Nobel de Literatura, em 1957, foi editada
em Paris nove anos antes da de Salinger. Graças a esse texto
de qualidade incomparável, o filho de colonos brancos
franceses (pés-pretos) na Argélia, de população de
maioria árabe, foi recebido em Paris como um igual pelos
filósofos existencialistas, que conquistariam mentes e
corações no pós-guerra. A saga do protagonista, Meursault,
entre o dia em que a mãe morreu e a data de sua execução por
haver matado um árabe na praia, encantou o cosmopolita
Jean-Paul Sartre, de quem Camus se tornaria amigo fraterno
e, depois, desafeto figadal. Tuberculoso, este morreria aos
47 anos num acidente de automóvel, deixando a impressão de
que sobreviveria como genial escritor, mas não como o
pensador contestado por Sartre, que terminou trocando seu
pensamento original pelo radicalismo do marxismo chinês de
Mao Tsé-tung. Passados 50 anos da morte de Camus e 30 do
concorrido enterro de Sartre, sobrevive a ética camusiana,
que rompeu com o comunismo e execrou o terrorismo como uma
forma de barbárie, meio século antes da derrubada das Torres
Gêmeas pela Al-Qaeda de Bin Laden.
O Estrangeiro
antecedeu na ficção a condenação de Camus, em artigos de sua
autoria e editoriais que escreveu para o jornal da
resistência à ocupação da França pelos nazistas, o Combat,
ao sacrifício de vidas inocentes a pretexto de vingança
política. O homicídio gratuito (atribuído ao sol inclemente
na praia onde se deu o crime), principal evento da novela, é
profético quanto aos atentados a bomba usados como
represália ao colonialismo francês na libertação da Argélia
e ao terrorismo suicida cometido pelos fundamentalistas
muçulmanos no Oriente Médio e pelo resto do mundo afora. A
equivocada adesão de Sartre à utopia sangrenta de Stalin,
Mao, Fidel e Pol Pot em nada desvaloriza a importância de
sua obra filosófica e muito menos a qualidade literária rara
de um texto primoroso como As Palavras. Mas dos
confrontos entre os ex-amigos ficou patente a razão
profética do proletário pé-preto sobre o engano do
nobre mestre-escola.
A amarga constatação do absurdo da condição humana,
registrada na obra-prima de Camus, repetiu-se no texto
seminal de Salinger, com uma diferença. Meursault era um
cínico. E o niilismo de Holden Caulfield, o protagonista de
16 anos de idade de O Apanhador no Campo de Centeio,
propagou a ilusão de que a juventude seria atributo
suficiente para aprimorar o mundo e a humanidade. A
capacidade do romancista americano de reproduzir, por
escrito, a angústia dos adolescentes de seu tempo num
dialeto de tribos até hoje reproduzido em praticamente todas
as línguas faladas na Terra fascinou leitores e produziu
prosélitos dessa crença no poder reformador da puberdade. O
isolamento radical que o romancista se impôs por mais da
metade de sua vida talvez possa ser o sinal do próprio
inconformismo com os resultados funestos da semeadura de
Caulfield. Ou não. Mas o fato é que Salinger não pode ser
inculpado pelas consequências dela.

A saga política dos estudantes enfurecidos de Paris em 1968
não resultou no aprimoramento dos mecanismos do velho Estado
Democrático de Direito das Revoluções Gloriosa e Americana,
mais de dois séculos antes, mas em brutais tiranias de
direita e esquerda. Símbolos cruentos da transformação do
sonho em pesadelo foram o Khmer Vermelho, na Ásia, e a
guerra suja da esquerda armada contra as ditaduras militares
na América Latina.
A decantada revolução dos costumes lançada pelos requebros
de Elvis Presley na América e pela eletrificação dos
instrumentos dos Beatles e dos Rolling Stones na Velha
Albion foi outro fiasco de Caulfield, simbolizado no
assassínio do beatle John Lennon, na frente do prédio
onde morava, em Nova York. O autor do lema que sintetizou o
dilema – “o sonho acabou” – foi baleado por um fã que se
disse inspirado no adolescente inconformado que Salinger
inventara 29 anos antes. Ainda vale, pois, a lição de Nelson
Rodrigues aos jovens: “Envelheçam, meus filhos!”
Nos anos 60, Hannah Arendt cobriu para a revista The New
Yorker o julgamento do carrasco nazista Adolf Eichmann,
capturado pelo serviço secreto israelense na Argentina. O
livro resultante da cobertura, Eichmann em Jerusalém –
Relato sobre a Banalidade do Mal, pode ter a resposta
para as questões que atormentaram Camus e Salinger sobre o
absurdo da condição humana e a dificuldade para superá-la. O
mal não resulta da exceção monstruosa, mas é banal. Ao
contrário do que escreveu Sartre, o inferno não são os
outros, mas o fascínio doentio e irresistível que o próprio
reflexo no espelho exerce sobre cada um de nós. A redenção
passa pela dúvida desarmada, não pela fé cega, faca amolada.
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