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Punição dos fora da lei principia em investigação bem feita
e imparcial
Antes de sair do Ministério da Justiça, o petista Tarso
Genro fez uma autocrítica involuntária e comemorou um feito
irrelevante. Ao reconhecer que a impunidade ainda campeia no
Brasil e não é um privilégio de classe social, fez uma
confissão de erro, culpa e fiasco. Pois no Estado
Democrático de Direito, ao qual ele serviu no primeiro
escalão do governo de seu correligionário Luiz Inácio Lula
da Silva, o prelúdio da punição terá de ser uma investigação
policial bem feita e imparcial. Festejou também a ação
positiva de ter posto fim a certa vocação para o espetáculo
de seus ex-subordinados no Departamento de Polícia Federal.
Os fatos que confirmam sua confissão, contudo, conspiram
contra a comemoração: o eufórico exibicionismo midiático dos
agentes federais nunca foi recomendável, mas não está entre
os defeitos fundamentais da corporação. O pior de todos
estes é a politização.
E só para o dr. Genro ficar sabendo, antes de mergulhar na
disputa pelo voto dos gaúchos, é bom alertar que uma coisa
tem tudo a ver com a outra. Não que seja dele o pecado
original – convém reconhecer desde já. Na verdade, a
politização – como sua vertente mais nociva, a
partidarização – é um mal que assola a Polícia Federal (PF)
desde antes da ascensão dos petistas ao poder. Quando Lula
tomou posse na Presidência, a instituição já se dividia em
pelo menos três grupos: um ligado ao delegado e hoje senador
Romeu Tuma (PTB-SP), que a dirigiu, outro de militantes
petistas e uma minoria com conexões com o tucanato
emplumado. A gestão de Márcio Thomaz Bastos no Ministério da
Justiça ampliou a divisão. Tarso Genro pode até se jactar de
não ter criado mais uma dissidência dos petistas na PF, mas
também não se pode dizer que ele tenha feito algo de notável
para acabar com a divisão e unificar seu comando. Genro
celebra corretamente a maior discrição das operações, como
ficou claro na prisão do governador do Distrito Federal,
José Roberto Arruda, na semana passada. Mas não evitou que a
falta de comando levasse a episódios absurdos como o uso de
arapongas da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) pelo
delegado Protógenes Queiroz.
Fato é que a politização do aparelho policial não é a única
evidência dessa doença infantil de nossa democracia, o
“Estado policial”, ao qual se referiu o presidente do
Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, em
pronunciamento feito à mesma época da despedida do
ex-ministro da Justiça. O Ministério Público (MP), que
praticamente emergiu como um Poder na Constituição de 1988,
funcionou ao longo dos dois governos de Fernando Henrique
como uma garra avançada do Partido dos Trabalhadores (PT) no
sistema judicial brasileiro. Os procuradores federais
Guilherme Schelb e, principalmente, Luiz Francisco de Souza,
com toda a justiça cognominado Torquemada, o terrível
inquisidor espanhol, agiram de forma tão parcial e
partidária no exercício de suas funções que foram punidos
pelo Conselho Nacional do Ministério Público, a pedido de
Eduardo Jorge Caldas, ex-secretário de FHC. O ostracismo
desses procuradores no governo petista é a evidência mais
óbvia de que não estavam a serviço do público, mas de seu
partido, o PT.
O triângulo se fecha com hipotenusa do uso da sentença como
arma ideológica por alguns juízes, não um ou outro
destacados no noticiário, mas espalhados pelo Brasil
inteiro, como era a praga da saúva do tempo do Jeca Tatu.
Esta terceira ponta é a mais perniciosa de todas para o
funcionamento integral da democracia no Brasil. A prova mais
cabal de que estamos submetidos ao risco de um “Estado
policial” não é o emprego ideologicamente seletivo das
algemas nos pulsos de banqueiros, empreiteiros e outros
membros da elite brasileira. Algemar presos é da rotina
policial. Foi, sim, a autorização absurdamente descontrolada
e leviana por juízes de primeira instância da quebra de
sigilo telefônico de quaisquer cidadãos arrolados como
suspeitos em operações policiais. A interrupção da violação
sistemática e indiscriminada de um dos atos mais íntimos do
cidadão, o telefonema, e a intervenção de Mendes para pôr
fim à farra das “prisões temporárias”, que na prática
permitem prender para investigar, devem ser as mais
brilhantes atividades a constar da biografia dele.
Será ainda justo atribuir-lhe outra garantia de que nossa
incipiente democracia não será trocada de súbito pelo
“Estado policial”: a interrupção do ciclo estabelecido na
Operação Satiagraha por delegado, juiz e promotor para
submeter a Justiça aos ditames do preceito ideológico. Ao
incorporar, em sua despedida do Ministério, aos feitos de
sua gestão a caça aos afortunados, como se ela significasse
a redenção (pela inversão) da Justiça, acusada secularmente
de só perseguir pretos, pobres e prostitutas, o ex-ministro
fez o elogio do vezo político, que não deveria contaminar as
decisões judiciais: ninguém deve ser condenado pelo “crime”
de possuir, da mesma forma que ninguém pode ser prejudicado
pela desvantagem de nada ter. A parcialidade da
partidarização da polícia, do MP e da Justiça não favorece o
desvalido, mas o apaniguado. E a PF do dr. Genro passará à
História por ter sido implacável com os abonados, mas
complacente com os companheiros.
Exemplos descarados desta afirmação são dados pelo gozo de
plena liberdade de Waldomiro Diniz, réu confesso impune, e
pela Operação Caixa Preta, que acusou de superfaturamento de
obras em aeroportos um executivo da gestão Lula, Carlos
Wilson, nove meses após sua morte. E o fez num relatório
final de investigação em que o vernáculo foi atropelado pela
deselegância do estilo e, o que é pior, pelo excesso de
indícios e suposições sem provas. É por isso que a confissão
do dr. Genro desautoriza sua celebração: o arbítrio
restritivo balança o berço da impunidade irrestrita.
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