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Pior ainda que o sorriso inoportuno fotografado no anúncio
da morte de um operário negro foi a afirmação do presidente
tratando a vítima como algoz, e não o mártir da brutal
tirania do cubano
Os políticos brasileiros - não importa em que partido
militem ou militassem - não conseguem resistir ao charme dos
barbudos que desceram de Sierra Maestra e invadiram Havana
numa noite de reveillon para acabar com a corrupta,
decadente e improdutiva ditadura do cabo Batista. Jânio
Quadros criou polêmica inútil ao condecorar o comandante
Ernesto Che Guevara em 1960, quando o mundo sabia que
os bonitões que puseram fim à jogatina e à prostituição na
ilha não estavam para brincadeiras, mas se tornariam um calo
sangrento no pé do gigante ao norte do Mar do Caribe.
Fernando Henrique se derretia em delícias quando ouvia
lisonjas de Fidel Castro, mesmo quando ele não era mais o
ai-jesus da Utopia marxista, mas apenas um tirano velho e
intolerante que reprimia a oposição liberal e os
homossexuais com crueldade de matar de inveja os ditadores
militares de direita do resto do continente.
Uma coisa, porém, é preciso reconhecer. Usando seu jargão
favorito, é o caso de afirmar que “nunca na história deste
País” ninguém chegou ao extremo ao qual Lula se expôs ao ser
fotografado rindo ao lado do folgazão Fidel no flagrante
usado como ilustração da notícia da morte por greve de fome
de um dissidente. Havia uma cumplicidade tão grande no
sorriso a dois que suas feições chegaram a se assemelhar,
como se diz que ocorre com marido e mulher que convivem por
muito tempo. E o momento era impróprio: o mundo estava
indignado com o desenlace do episódio de rebeldia
protagonizado por Orlando Zapata, negro, operário e mártir.
Marco Aurélio Garcia, sempre alerta no papel de
bajulador-geral da República e dos amigos do chefe,
apressou-se a lembrar - e agora com razão - que o ex-menino
retirante de Caetés, perto de Garanhuns, e ex-líder sindical
no ABC não inovou na relação especial de Brasil com Cuba, só
rompida na ditadura militar. É verdade. Mas também é fato
que Jânio, Fernando Henrique e outros simpatizantes nunca se
deixaram apanhar naquela armadilha fotográfica que desarma
quaisquer argumentos.
Se a mãe do presidente, dona Lindu, foi mesmo a sábia versão
feminina de Confúcio do sertão que aparece no filme dos
Barreto, mico cultural do verão, ela certamente deveria
ter-lhe avisado que há momentos na vida em que não convém
rir. Diante da perda de um homem - amigo, inimigo ou
indiferente - só se espera de um ser humano digno da
definição uma reação de seriedade e compunção. E o deboche
flagrado nos rostos iguais dos velhos companheiros não
supera em cinismo a declaração de Lula de que ele sempre foi
contra a greve de fome, como se a vítima virasse algoz só
por ter enfrentado seu ídolo e guia.
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