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Sentenças na Justiça não protegem segredos contábeis de
tucano da curiosidade de petistas
Nem a chuva nem o fenômeno do encolhimento da multidão (o PT
esperava 100 mil, mas só mil pessoas foram a seu comício no
Rio, sexta-feira) arrefeceram a disposição do presidente
Luiz Inácio Lula da Silva de desrespeitar o “império da
lei”, definição de qualquer democracia que se preze. Diante
dos mil gatos molhados pelos pingos da chuva que o
aplaudiram, mas ignoraram a presença de sua candidata à
sucessão, Dilma Rousseff (PT), Sua Excelência vociferou
contra “uma procuradora qualquer aí” que, segundo ele, tenta
inibir sua presença na campanha.
Só que essa violação do juramento que ele fez em 1.º de
janeiro de 2003 e repetiu quatro anos depois – o de obedecer
e fazer cumprir o sistema legal sob a égide da Constituição
da República – não se manifesta apenas nas palavras do chefe
supremo do petismo no poder, mas mais ainda nas ações de
seus correligionários. Para ficarem no poder eles têm feito
tudo e mais um pouco. E não serão o pudor nem as normas
legais que os inibirão. Comprova-o o caso Eduardo Jorge
Caldas Pereira. Esse cidadão era secretário-geral da
Presidência nas gestões de Fernando Henrique Cardoso e hoje
é vice-presidente do PSDB, legenda pela qual o ex-governador
de São Paulo José Serra disputa a chefia do governo que Lula
ocupa e quer, de qualquer maneira, entregar à sua
ex-ministra Dilma.
Em 2001, na vigilante e competente oposição que fazia, e que
o PSDB e o DEM não sabem repetir depois que Lula assumiu o
governo, o PT escolheu esse tucano de pouco poder e menos
visibilidade como alvo de investigações a respeito de
malversação do dinheiro público. Os petistas acusavam-no de
chefiar uma rede de influências para beneficiar empresas. A
denúncia foi encampada pelos procuradores da República Luiz
Francisco de Souza, que passou a ser chamado de Torquemada,
sobrenome do frade dominicano, caçador de bruxas,
perseguidor de judeus, inquisidor-geral nos reinos de
Castela e Aragão e confessor da rainha católica Isabel, e
Guilherme Schelb – ambos muito conhecidos à época pela
pertinácia com que perseguiam “malfeitores” na gestão
pública. As denúncias foram publicadas pela Folha de
S.Paulo, processada pelo acusado. Em 2006, o jornal foi
condenado pelo juiz Fabrício Fontoura Bezerra a pagar-lhe R$
200 mil, porque ele nunca sequer chegou a ser acionado na
Justiça por tais acusações. Ao longo de cinco anos, segundo
relatou o juiz na sentença, as investigações abertas contra
ele pelo Ministério Público Federal, pela Receita Federal,
pelo Banco Central do Brasil, pela Comissão de Fiscalização
e Controle do Senado Federal e pela Corregedoria-Geral da
União nunca encontraram algum crime que pudesse haver
cometido.
Eduardo Jorge representou ao Conselho Nacional do Ministério
Público (CNMP) contra os procuradores cujas suspeitas se
tornaram matéria-prima das publicações que o juiz considerou
caluniosas. Em 2007, esse conselho os suspendeu por 45 dias
e, dois anos depois, a pedido do persistente Eduardo Jorge,
reconheceu ter sido este vítima de perseguição pessoal por
ambos. Desde então, ninguém mais ouviu denúncias de nenhum
deles.
E não têm faltado, em sete anos e sete meses de República
petista, assuntos que eles pudessem investigar, se seu
objetivo fosse de fato o interesse público. Souza e Schelb,
por exemplo, nunca se propuseram a apurar se é verdadeira a
delação do presidente nacional do PTB, Roberto Jefferson
(RJ), de compra de apoio parlamentar pelo governo no
episódio – sub judice no Supremo Tribunal Federal
(STF) – conhecido como “mensalão”. Da mesma forma, a isenção
missionária de ambos não os levou a denunciar os
responsáveis pela quebra do sigilo bancário do caseiro
Francenildo Pereira, cujo único delito conhecido é o de ter
testemunhado que vira o então ministro da Fazenda Antônio
Palocci, do PT, frequentar assiduamente uma mansão suspeita
em Brasília.
O doce ostracismo em que vive hoje essa dupla que já foi
malvada só perde para a completa impunidade gozada por
Waldomiro Diniz, cujo crime confesso de tentar achacar um
empresário da jogatina nunca foi investigado pela solerte
Polícia Federal (PF) nem pelo ex-implacável MP do Distrito
Federal. Mas isso não quer dizer que as sentenças favoráveis
ao vice-presidente nacional do PSDB tenham arrefecido o
ânimo dos contumazes quebradores do sigilo de adversários
dos arapongas militantes a serviço do PT no poder. Desta
vez, cópias das declarações do Imposto de Renda (IR) de 2005
a 2009 de Eduardo Jorge integravam um dos quatro dossiês
preparados pelo “grupo de inteligência” da campanha de Dilma.
O secretário da Receita, Otacílio Cartaxo, foi convocado a
depor na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado
Federal, à qual disse que já foram identificados os
servidores responsáveis pelos “cinco ou seis” vazamentos
ocorridos. A imprecisão dessa “informação” já denota por si
só o pouco-caso com que ele lidou com as explicações que
tinha de dar aos senadores. E também se negou a dar seus
nomes antes do fim das investigações, prometido para 120
dias. Ou seja, para depois do segundo turno da eleição
presidencial, disputada por um candidato do partido do qual
a vítima da quebra de sigilo é dirigente e pela candidata
para quem trabalhavam os suspeitos de terem violado esse
direito pétreo do cidadão. Neste ínterim, o corregedor-geral
da Receita, Antônio Carlos Costa d’Ávila Carvalho, reduziu
pela metade (e, mais relevante, para antes do pleito de
outubro e novembro) o prazo dado pelo secretário: 60 dias.
Até o terrível comissário Laurenti Beria, que a serviço de
Stalin se comprazia em atirar na nuca de “inimigos do povo”,
morreria de inveja dos colegas petistas que violam o sigilo
alheio em terminais de computadores e usufruem o inviolável
direito de serem mantidos em segredo pelo espírito de corpo
do chefe direto e pelo desprezo a tudo o que não lhe convier
do chefão geral.
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