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Recuo no caso da iraniana é bem-vindo, mas
não salva política externa do governo Lula
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seus lugar-tenentes
– o ministro oficial Celso Amorim e o chanceler oficioso
Marco Aurélio Garcia – têm surpreendido o mundo com um tipo
de política externa pouco respeitado, pelo menos entre
Estados democráticos de Direito no Ocidente: a diplomacia da
conveniência. Trata-se de uma leitura heterodoxa da ética da
conveniência de Max Weber. E esse aparente pragmatismo a
toda custa se traduz no slogan que o ministro de Relações
Exteriores brasileiro cunhou para explicar a súbita adesão
do chefe de governo brasileiro ao pleito de Teodoro Obiang
Nguema Mbasogo, tirano da Guiné Equatorial, país de
colonização espanhola e francesa, de entrar na comunidade
lusófona: “Negócio é negócio.”
Essa retórica de fazer corar o mais pétreo dos especuladores
do mercado de capitais passou por cima de graves acusações
de violação de direitos humanos. E, pior ainda, do fato de o
ditador ter sido considerado o oitavo governante mais rico
do planeta pela revista Forbes, apesar de (ou seria
et pour cause?) o país por ele governado ser um dos
mais pobres do paupérrimo continente africano. Mas esta não
foi a primeira nem a única vez que Sua Excelência, do alto
de sua respeitável biografia de herói da democracia
construída sobre os escombros do regime autoritário
tecnocrático-militar no Brasil, fez pouco-caso da vida
humana em benefício das próprias conveniências, que ele e
seus áulicos confundem com as da Pátria. Mais chocante que o
relógio de ouro e diamantes exibido pelo mandachuva há 31
anos em seu país, o mais antigo presidente da África
inteira, foi a gargalhada flagrada pelos fotógrafos quando
Lula conversava com Raúl Castro, o irmão mais novo de Fidel,
no instante em que o cubano era informado da morte do
prisioneiro dissidente em greve de fome Orlando Zapata. O
escárnio do líder de um partido que se diz de trabalhadores
pobres, ao manifestar tal descaso pelo sacrifício do preso
negro, pedreiro e mártir de uma ditadura ainda mais longeva
que a de Nguema, assustou, mais do que surpreendeu, as boas
almas do mundo que devotam genuína admiração ao self made
man que ascendeu da mais baixa à mais alta escala
social, tornando-se o mais poderoso e popular governante do
Brasil desde o desembarque do português Tomé de Souza em
praias da Bahia. E o susto foi tão legítimo como a
admiração.
Engana-se, contudo, redondamente quem imaginar que essa
gargalhada tenha sido o ápice das desastradas intervenções
brasileiras no episódio dos dissidentes cubanos. Lula
comparou-os com bandidos comuns em prisões brasileiras. E
Marco Aurélio Garcia tentou ficar com o crédito pela
libertação esporádica de um grupo deles, dizendo que os
espanhóis, que participaram efetivamente do acordo que os
soltou, só fizeram o gol numa jogada armada pelo Itamaraty.
A diplomacia lulista não precisou sair do Caribe para armar
mais uma confusão causada por essa mistura de arrogância e
ignorância que o professor Roberto Campos chamava de “arrognância”.
Num lance de grosseria explícita, Sua Excelência resolveu
ignorar a presença de Álvaro Uribe na presidência da
Colômbia, menosprezando a soberania do vizinho amigo e
democrático para beneficiar o compadre venezuelano Hugo
Chávez. O desrespeito se assemelha a negar pedido de
extradição do criminoso Cesare Battisti pela Itália,
soberana e democrática, que lhe teria negado pleno direito
de defesa.
A presidência da Colômbia, entre um vizinho arruaceiro e
outro grosseiro, emitiu nota oficial na qual resumiu em
poucas linhas a mentalidade que comanda a política externa
brasileira nos últimos sete anos e sete meses: Lula tem
dificuldade de distinguir o pessoal do institucional. Hábil
negociador sindical, confunde a negociação em fóruns
internacionais com as noitadas no bar de Tia Rosa, em São
Bernardo, onde decidia os passos dos metalúrgicos nas greves
no fim dos anos 1970. Para retaliar Uribe ele se dirigiu
diretamente a Juan Manuel Santos, o eleito que tomará posse
na presidência colombiana sábado, adotando atitude idêntica
à assumida no mesmo dia pelas Farc.
Há uma semana, o jeito peculiar do lulismo de tratar da
soberania dos povos produziu outra pérola da insensibilidade
diplomática, quando o presidente brasileiro se recusou
publicamente, como havia feito com os dissidentes cubanos, a
pedir a comutação da pena de apedrejamento de uma mulher
iraniana a seu “amigo” Mahmoud Ahmadinejad. “As pessoas têm
leis. Se começarem a desobedecer às leis deles para atender
ao pedido de presidentes, daqui a pouco vira uma
avacalhação”, justificou seu desinteresse pela vida de
Sakineh Mohammadi Ashtiani, viúva acusada de adultério.
Mas Lula, o insensível, virou Lula, o magnânimo, em seu
palco preferido, o palanque de sua candidata à própria
sucessão, Dilma Rousseff, em Curitiba, sábado passado. Ali,
na certa convencido de que lhes seria mais conveniente
apelar pela vítima do que apoiar o carrasco, candidatou-se,
com uma frase infeliz, a herói mundial pela comutação da
pena capital da mãe de dois filhos condenada por adultério,
que, em países democráticos, caso do Brasil, nem é mais
passível de pena como crime ou sequer contravenção. “Se vale
minha amizade e o carinho que tenho pelo presidente do Irã e
pelo povo iraniano, se esta mulher está causando incômodo,
nós a recebemos no Brasil”, disse ele.
O recuo de Lula, mesmo não sendo atendido pelo destinatário,
deve ser relevado em nome da boa causa. Elogiável será o
efeito da metamorfose ambulante do presidente brasileiro
pelo resultado que pode produzir. Mas não é exagerado
lembrar que vidas humanas estão acima de interesses
negociais e que a amizade pessoal nunca deve prevalecer
sobre a liberdade individual. É bom que a diplomacia de
conveniência do governo lulista tenha abraçado uma causa
justa, mas tal mudança só produzirá efeitos positivos se
vier com a consciência de que em diplomacia a conveniência
não pode abrir mão do respeito.
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