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Fernando
Henrique Cardoso era um militante celebrado e respeitado
cientista social quando entrou na vida pública como
assessor direto do representante máximo da resistência
civil à ditadura militar, Ulysses Guimarães, presidente
nacional do MDB e, depois, do PMDB. Candidatou-se ao
Senado por uma sublegenda, apoiado pelos metalúrgicos de
São Bernardo do Campo, liderados por Luiz Inácio da
Silva, o Lula. Aproveitou-se da renúncia de Franco
Montoro, eleito governador de São Paulo, para ocupar a
vaga deste no Senado. Consta que só não foi ministro de
Fernando Collor de Mello porque o ranzinza Mário Covas,
líder da dissidência que se tornou PSDB, não o permitiu.
Um observador realista duvidaria de sua eleição até para
a Câmara dos Deputados quando Collor caiu. Mas, tendo
sido o principal artífice da tentativa de impedimento
que deu em renúncia, e passado pela Chancelaria e pelo
Ministério da Fazenda no mandato-tampão de Itamar
Franco, do qual foi um dos articuladores mais notórios e
importantes, venceu a eleição presidencial.
A alavanca de
Arquimedes que o levou de uma cadeira incerta no
Congresso ao principal gabinete do Palácio do Planalto
foi o Plano Real. Na chefia de Pedro Malan, Pérsio
Arida, Edmar Bacha e Gustavo Franco, ele desistiu de pôr
o ovo de Colombo de pé e, em vez disso, fritou uma
suculenta omelete. Hoje tudo isso parece óbvio. Mas, à
época, não o era. O confronto entre desenvolvimentistas
e heterodoxos (mais tarde satanizados como
“neoliberais”) atiçava o fogo que tecia a cortina de
fumaça que impedia a visão do óbvio: a redenção do
assalariado passava forçosamente pelo fim da febre
inflacionária, causa da doença econômica que enriquecia
os ricos e empobrecia os pobres com a perda do valor de
compra da moeda. A familiaridade do professor Aloizio
Mercadante Oliva com a teoria econômica não evitou que
ele cometesse uma das mais célebres batatadas da
política econômica no Brasil: garantiu a seu líder e
candidato à Presidência Luiz Inácio Lula da Silva que a
moeda forte era um estelionato eleitoral. E, no
Ministério da Fazenda de Itamar, seu colega professor
promoveu a maior revolução social da História do Brasil.
Com isso, tornou-se o caso raro de sociólogo que virou
tese e político que saiu do zero para o infinito num
átimo.
Da mesma
forma, contudo, que disparou do anonimato para a glória,
mergulhou no ostracismo em idêntica velocidade com que
escalou até o topo. Patrono da reeleição, instituto
incomum e renegado na política brasileira, aposentou-se
como o alvo preferencial dos adversários e a companhia
mais indesejável dos companheiros de jornada. De posse
do sucesso da estabilidade monetária, que antes
rejeitavam, os petistas apedrejaram sua herança, dada
como maldita, e com esse refrão Luiz Inácio Lula da
Silva se elegeu duas vezes consecutivas e fez sucessora
uma candidata improvável, tirada da cartola de mágico,
Dilma Rousseff, provando, na prática, que na política,
ao contrário do que reza o bom senso comum, nem sempre
fatos se impõem a argumentos enganosos.
Se os fados
são caprichosos com qualquer um, mostraram sê-lo mais no
que se refere ao filho de general que se tornou figadal
inimigo do regime militar e ao mero assessor que chegou
ao posto que caciques como Ulysses Guimarães, Miguel
Arraes e Leonel Brizola almejaram, mas nunca alcançaram.
Agora, ao atingir, serelepe, o oitavo decênio de
existência, viu-se subitamente reconhecido pela
adversária da qual menos podia esperar um gesto
amistoso. E esse inesperado reconhecimento foi lavrado
em documento em papel timbrado da Presidência na
elogiosa carta que Dilma Rousseff lhe enviou
cumprimentando-o pela efeméride. No texto, reproduzido
no site do ex-presidente e nos jornais, Dilma elogiou o
“acadêmico inovador”, “político habilidoso” e
“presidente que contribuiu decisivamente para a
consolidação da estabilidade econômica”, jogando no lixo
o discurso da “herança maldita”, repetido ad nauseam nos
próprios palanques.
Dilma
constatou que o antecessor apostou no “diálogo como
força motriz da política” e “foi essencial para a
consolidação da democracia brasileira”. E acrescentou:
“Não escondo que nos últimos anos tivemos e mantemos
opiniões diferentes, mas justamente por isso maior é a
minha admiração por sua abertura ao confronto franco e
respeitoso de ideias”. Os correligionários do elogiado
comemoraram o fato como se fosse um triunfo eleitoral,
esquecendo-se de que nunca nenhum deles teve humildade e
tirocínio para reconhecer os feitos de Fernando Henrique
como a adversária o fez.
O oportuno
reconhecimento, antecipando o registro histórico
desapaixonado que resgatará o papel do acadêmico no
exercício da Presidência, está obviamente acima das
querelas do cotidiano do poder e da política. Embora
tenha sido divulgado dias depois da ida de Lula a
Brasília, onde ele foi buscar lã e saiu tosquiado no
episódio que terminou com a defenestração de dois
protegidos do ex-presidente, Antônio Palocci e Luiz
Sérgio, o documento não deve ser reduzido a um movimento
do minueto da relação entre padrinho e afilhada.
Demonstrando que até pode ter perdido o pelo, mas nunca
a manha, o lobo de Garanhuns arreganhou os dentes,
exigindo da companheirada fidelidade à sucessora que
elegeu, dando a entender que não saiu da sintonia da
presidente.
De qualquer
maneira, Dilma saiu bem na foto ao perceber que o poder,
mesmo quando conquistado com as notórias falsificações
do marketing político, permite a quem o conquista
tornar-se maior ao reconhecer o mérito alheio. Com isso,
mesmo que essa não tenha sido sua intenção, ministrou
uma lição a seu professor, que perdeu uma oportunidade
de se mostrar à altura da veneração popular que
conquistou, e a seus opositores, incapazes de perceber o
óbvio até quando este vem se manifestar ao alcance do
nariz. |