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O cinismo
está em alta na República. A organização não
governamental (ONG) Contas Abertas fez uma descoberta
estarrecedora: o ministro da Integração Nacional,
Fernando Bezerra Coelho, encaminhou para seu Estado de
origem, Pernambuco, 90% das verbas disponíveis no
orçamento para prevenir e socorrer catástrofes naturais.
Com destaque para Petrolina, seu curral eleitoral.
Diante da estupefação natural de qualquer brasileiro com
massa encefálica disponível para uso no cérebro, o
governador do Estado aquinhoado, Eduardo Campos, chefão
nacional do Partido Socialista Brasileiro (PSB) por
herança do avô, Miguel Arraes de Alencar, atribuiu o
abuso a absurdo maior: as verbas federais caíram no seu
colo porque os técnicos pernambucanos tiveram
competência para produzir projetos que justificaram o
dispêndio. Se assim fosse, 90% da competência técnica da
administração pública brasileira atuaria sob suas
ordens. Não é uma gracinha? Ei, não me refiro a Sua
Excelência, apelidado de Dudu Beleza, mas a sua
conclusão estapafúrdia.
A bazófia foi
repetida por personalidades ilustres: o presidente
nacional do PT, Rui Falcão, e o líder no Senado,
Humberto Costa, também pernambucano, entre outros,
chamaram a atenção para o fato de não pesar contra
Coelho nenhuma acusação de malversação de recursos
públicos. Faltou-lhes o mínimo de intimidade com o
vernáculo, pois, na verdade, diariamente os meios de
comunicação noticiam evidências de “má administração” e
“má gerência” do erário praticadas pelo comparsa
defendido. E esta é a primeira definição para
malversação, dada pelo linguista Antonio Houaiss no
dicionário que anda fazendo falta na mesa dos maiorais
deste País. A segunda definição, aí, sim, refere-se à
“apropriação indébita de fundos”, a velha e malfadada
corrupção. Então, pernambucanos amigos, na flor do Lácio
cultivada pelo caolho Luís de Camões, má gestão e
corrupção habitam o mesmo verbete nos melhores
dicionários.
O senador
petista foi além ao acusar a denúncia de
discriminatória. Seu Estado não estaria sendo criticado
por ter ficado com quase toda a verba do ministério do
bom filho que ama tanto seu torrão, mas por ficar no
Nordeste. Nordestinos ao desabrigo de mamatas e mutretas
foram usados para justificá-las.
Tão absurdo
quanto um Estado entre 27 abocanhar quase toda a verba
destinada a prevenir ou reparar desastres causados por
intempéries naturais foi constatar que a Nação tomou
conhecimento do despautério pelo trabalho independente
de uma ONG do bem – enfim, uma ONG do bem no noticiário.
Mas, meu Deus, que presidente da República é a sra.
Dilma Rousseff se não dispõe de instrumentos de
informação capazes de dar-lhe conta em tempo real de
como um ministro que nomeou para cuidar de integrar a
Nação entrega quase toda a verba disponível para acudir
a famílias que tiveram todo o seu patrimônio carregado
pelas enxurradas de verão para cevar a própria capitania
partidária, na perfeita definição do deputado Miro
Teixeira (PDT-RJ), parentes e afins.
A desfaçatez
da justificativa técnica para o privilégio e a desculpa
sórdida da discriminação regional, acompanhada de
comentários estúpidos do gênero “ninguém amaldiçoou um
Estado do Sudeste por isso”, como se já tivesse sido
registrado “antes na História deste país” (como diria o
chefão de todos, Lula) algo sequer similar a tais
despropósitos, manifestam um velho vezo de arrogância.
Essa arrogância tem origem na mentalidade oligárquica
que prevalece na condução política brasileira desde que
ela começou a existir.
A Coroa
portuguesa inventou as capitanias hereditárias e,
depois, apelou à força da imposição da língua da
metrópole pelo marquês de Pombal para garantir seu
domínio sobre rincões distantes de um território imenso
e hostil. Também para conservar a integridade
territorial, incomum no subcontinente sul-americano, o
Império distribuiu patentes de coronel da Guarda
Nacional a latifundiários do interior. Os militares que
erigiram a República remexendo no lixo de destroços de
nosso trono nativo absorveram o sistema de domínio
recorrendo ao semifeudalismo que deu certo e entregando
baraço e cutelo nos ermos da Pátria a oligarquias
locais. O mando dos Coelhos em Petrolina, depois
estendido a Pernambuco inteiro, data da Primeira
República, assentada nas bases do pacto do café com
leite, que instituiu o rodízio de presidentes paulistas
e mineiros até a Revolução de 1930, deflagrada para pôr
fim ao poder oligárquico. Só que, ao bel-prazer do
caudilho Getúlio Vargas, esta fortaleceu as oligarquias
substituindo os oligarcas.
A
historiadora americana Linda Lewin constatou num estudo
a sobrevivência oligárquica no Brasil ao ilustrar na
saga da família Pessoa, de Umbuzeiro, na Paraíba, a
sobrevivência às mudanças de regimes na sucessão dos
governadores daquele Estado: até publicá-lo, em 1975,
todos os governadores paraibanos vinham de famílias com
membros na primeira Constituinte do Brasil independente.
Os Pessoas, protagonistas da Revolução de 1930 e de
Politics and Parentela in Paraíba, de Lewin, não
mandam mais no País nem no Estado como no tempo de
Epitácio e João. Mas os Coelhos confirmam que a força
oligárquica descrita pela professora de Berkeley
continua. O clã sobreviveu ao destronamento das
oligarquias pela Revolução de 1964 e ao projeto
socialista do Partido dos Trabalhadores (PT) hoje.
E os Coelhos
não estão sós: o chefão socialista Eduardo Campos
descende da família Alencar, de José, não o vice de
Lula, mas o romancista de Iracema. O que Dilma
Rousseff tem com isso? Afinal, ela pegou em armas para
pôr fim aos velhos vícios patrimonialistas que
sequestram o Estado brasileiro desde sempre. E entrou no
PT para “acabar com tudo o que está aí”. Mas serve aos
oligarcas de antanho a pretexto de empregá-los em seu
projeto de poder. A luta acabou, mas a oligarquia detém
a força. |