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Governo dá pão a pobres e dinheiro a ricos e a classe média é
que banca
Nos últimos dias,
nós, os 160 milhões de brasileiros, temos recebido a graça de
ser informados de umas tantas e quantas notícias – umas
estranhas, outras animadoras, várias delas surpreendentes –
dadas pela elite que nos dirige lá do distante e inacessível
Planalto Central do País.
Informou-nos o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva que o Criador, em sua
suprema magnanimidade, o dotou de duas orelhas, por uma das
quais escuta as vaias e por outra os aplausos de seus súditos. É
preciso ter cuidado com as orelhas, como alertou o colega
jornalista e escritor de talento Renato Pompeu, pois elas
costumam ter ouvidos e nem todas são tão seletivas quanto Sua
Excelência diz serem as dele. O certo é que, entre os aplausos
dos correligionários encantados com seu desempenho e os apupos
de seus detratores, não teve o chefe do governo republicano
disponibilidade para escutar o clamor rouco das ruas quanto ao
Caos Aéreo Nacional, sobre o qual ele próprio já havia escrito e
publicado. O Boeing da Gol desabou sobre a Amazônia desmatada e
ele não ouviu o estrondo. Os passageiros, em franca
desobediência civil aos conselhos de sua ministra sexóloga, não
relaxaram nem gozaram na longa espera dos vôos que não partiram.
Aí o Airbus da TAM explodiu no prédio da companhia e, depois de
uma semana de silêncio, o ruído da explosão ultrapassou as
vidraças e os tapetes do poder e chegaram a seus ouvidos, pelo
visto apenas uma semana após o fato, pois foi este o prazo para
que ele, enfim, falasse sobre o que ouvira.
A reação presidencial às vaias
do público do Maracanã na abertura do Pan foi mais rápida, mas
não menas alienada. Entrou para a História como o primeiro
presidente anfitrião daquela competição a não saudar os atletas
visitantes e deixou de ser vaiado pessoalmente (ele o foi, in
absentia, de qualquer forma) para ouvir o descontentamento de um
público normalmente menos hostil, em Natal. Em seu estilo
desabusado de sempre, o máximo prócer atribuiu o protesto à
ingratidão dos ricos, cujos bolsos seu governo nunca se cansou
de encher, conforme cândida confissão que ele próprio fez em
mais uma escala da única aeronave que permite a seu usuário não
tomar conhecimento dos maus bofes dos controladores de vôo nem
dos jogos de mercado das companhias aéreas. Nunca antes na
História um presidente foi tão sincero e tão preciso. De fato,
as estatísticas confirmam sua afirmação: os podres de ricos o
estão sendo cada vez mais graças à generosidade de uma política
econômica que os favorece com toda a franqueza.
Lula erra, contudo,
quando trata seus primeiros beneficiários como ingratos. É pouco
provável que houvesse um único representante da fina flor da
burguesia nacional nas arquibancadas do “maior do mundo” naquela
noite em que se cunhou a maldosa sentença segundo a qual “quem
tem boca vaia Lula”. Rico não vaia. Primeiro, porque de fato não
pode ter queixas da generosidade federal. Depois, porque tem à
mão meios melhores para conseguir o que almeja. Com a facilidade
com que se corrompe e a dificuldade com que se pune um corrupto
no Brasil contemporâneo, seria estúpido quem preferisse defender
os próprios interesses no desconforto das arquibancadas de um
estádio. Quem vaiou o presidente foi a classe média e teve os
melhores motivos para isso. Afinal, a fórmula genial encontrada
pelo chefe da Nação – dinheiro nos bolsos dos ricos e comida nos
pratos dos miseráveis – tem um lado negativo, como tudo na vida:
o sacrifício da classe média, convocada para pagar a conta.
Empobrecida, submetida à violência das ruas e obrigada a pagar
pelos serviços que o Estado não presta, esta se fez ouvir do
jeito que pôde. E conseguiu o que queria. O presidente que não
tomou conhecimento do mensalão, do falso dossiê dos “aloprados”,
da longa espera dos passageiros de avião e da dolorosa tragédia
dos parentes das vítimas do desastre da TAM, ao ouvir a vaia,
foi, enfim, informado, pelo menos, de sua existência. No último
fim de semana, este jornal registrou o reconhecimento por uma
das poucas bocas que têm acesso aos ouvidos do chefe, a de Luiz
Dulci, hierarca da elite petista reinante, de que a classe média
está insatisfeita com os rumos do País. Pode a oposição, débil e
desnorteada como sempre, imaginar que se trata de um truísmo
vulgar. Não é. É um fato da maior relevância o PT no pudê
reconhecer que a classe média existe e está longe, muito longe,
do Paraíso.
Não que isso resulte em
alguma coisa. Pois este governo, se sabe, é bom de falar, mas
péssimo de ouvir e, mais ainda, de fazer. Se o tal do PAC até
agora não acelerou coisa nenhuma, imagine o leitor amigo se
algum programa que beneficie a classe média poderá um dia vir a
ser implementado neste país do “nunca antes” e do “não é bem
assim”. Basta ler as pesquisas de opinião que garantem que o
prestígio presidencial não caiu um milímetro depois da
transubstanciação do Caos Aéreo Nacional em tragédia coletiva
para concluir que a classe média indignada é incapaz de romper
os acolchoados de algodão que impedem as duas orelhas dadas pelo
Criador ao presidente de ouvir sua ira exposta em apupos.
Os beneficiários do atual
sistema usam aviões próprios – sejam eles banqueiros ou a zelite
dirigente republicana – ou simplesmente nunca entraram num
aeroporto nem para fazer um lanche, porque a Bolsa-Família não
chega para tais luxos. Os passageiros de avião de carreira não
têm número suficiente para se fazerem ouvir por Lula, nem se
Deus lhe tivesse dado quatro – e não dois – ouvidos encapsulados
em orelhas à prova de queixas, muxoxos e recriminações e sempre
disponíveis para a lisonja e a aprovação. No aulicismo reinante,
mais vale uma nota fria que um boi pastando e o chefe se protege
do amuo dos infelizes fazendo a felicidade dos bajuladores ao
lado.


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