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Na queda de braço entre os dois
Luizes, um presidente da República e o outro franciscano e bispo
da cidade ribeirinha de Barra, na Bahia, em torno das águas do
rio São Francisco, terminou prevalecendo, como sempre foi de
esperar, a força da autoridade sobre a autoridade da razão. A
segunda greve de fome de dom Luiz Cappio, interrompida pela
debilitação de seu organismo provocada pela ausência de
nutrientes, foi, desde o início o empreitada condenada ao
malogro, seja por seu aspecto quixotesco intrínseco, seja pela
insensibilidade do antagonista aos valores que ela cobrava.
Nunca houve sentido nem lógica no desafio do indivíduo ao agente
do interesse coletivo e nada mais podia fazer o Supremo Tribunal
Federal a não ser dar a César o que era de César negando ao
homem de Deus o direito de paralisar o curso de uma obra
considerada prioritária - como na Bíblia Josué parou a
trajetória do Sol. A Luiz Inácio Lula da Silva assiste a razão
do Estado: eleito pela maioria do eleitorado para comandar os
destinos da Nação, sente-se no direito quase divino de desviar a
rota das águas do Velho Chico. Juízes não a negarão e os
tratores farão cumpri-la. Para se apoderar da razão moral do
adversário, buscou apoio na hierarquia da instituição em que o
outro é barão e ele, vassalo, apelando para o princípio cristão
da inviolabilidade do dom divino da vida.
O pomo da discórdia, as
águas do rio que é dito ser da unidade nacional, poderá até
seguir para o destino manifesto de produzir várzeas em solos
estorricados pela seca. Afinal, a serena razão do prelado não
basta para deter as máquinas das empreiteiras e a gula dos
políticos por poder. O presidente e seus sequazes clamam pela
transposição em nome da sede do sertanejo. Mas as águas que
brotam na Serra da Canastra e banham Minas, Bahia, Pernambuco,
Alagoas e Sergipe alimentarão mesmo a agro-indústria, que é
benfazeja para a pauta de exportações, mas não liberta o
sertanejo do jugo dos coronéis. Para calar a voz clarividente do
sacerdote, o governante se investe ilegitimamente do papel de
profeta dos pobres e mata a sede de poder dos abonados. Instaura
ainda mais uma equação perversa na República do pretexto, ao
enriquecer a indústria da seca a pretexto de eliminar seus
efeitos. Servindo aos adesistas que o bajulam, o chefe do
governo cuspiu na mão que antes o acolhia e abençoava. Inúteis
são milagres de taumaturgos sem fé.


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