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A troca da CPMF
pelo IOF é um atentado contra o Estado de Direito
O Partido dos
Trabalhadores (PT) é um aplicado discípulo dos coronéis da
Guarda Nacional de antanho. Sua Bolsa-Família, por exemplo, é
uma versão contemporânea do ancestral método de dar o peixe, em
vez de ensinar o pobre a pescar, que os chefes políticos
regionais da República Velha usavam. Não apenas para assegurar
os préstimos do agraciado em troca de um punhado de farinha, mas
também para mantê-lo sob jugo permanente: o homem capaz de
produzir o próprio alimento pode conquistar a autonomia e,
depois, negar-se a servir ao barão. Mas na adaptação do
feudalismo coronelista ao figurino socialista, que os petistas
dizem vestir, há também o abandono de velhas práticas que
garantiam a solidez das relações entre manda-chuvas e súditos.
Uma é a do fio de bigode: entre coronéis o empenho da honra
valia mais que documento. No neocoronelismo petista a palavra é
vaga e a promessa, vã: obtida a regalia, não se cumpre a
contrapartida ofertada.
Não se trata de
algo novo, posterior à ascensão do grupo ao poder, mas de uma
práxis adotada desde a pré-história petista na era heróica do
sindicalismo autêntico. O problema é que, ao usar na gestão
pública essa tática de se comprometer e voltar atrás para tirar
vantagem nas negociações para aumentar salário, melhorar as
condições da categoria ou parar greves, o grupo que está no
poder federal não leva em conta o fato de que aqui vige uma
democracia. E na democracia moderna, apoiada em instituições
impessoais, e não no carisma dos líderes, o compromisso não se
limita ao fato de a palavra real ser irreversível (afinal,
“palavra de rei não volta atrás”). Mas vai além disso: é a
garantia de confiabilidade, sem a qual a negociação política
perde o valor. Talvez o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nem
precisasse assegurar que não criaria novo imposto nem elevaria a
alíquota de algum já existente para obter o que precisava
naquele momento – a renovação da Desvinculação das Receitas da
União (DRU). A oposição se tinha concentrado na luta contra a
prorrogação da Contribuição Provisória sobre a Movimentação
Financeira (CPMF) e deu a impressão na votação seguinte de que
nem sabia direito como votar. O discurso monolítico da rejeição
ao imposto do cheque diluiu-se num arrazoado confuso na votação
posterior. Mas o fato é que, precisando ou não, o presidente
prometeu o que não faria para conseguir o que pretendia.
Ao baixar um pacote no primeiro
dia sem o jorro da fonte da CPMF nos jardins do erário, o
presidente fez muito mais que faltar à palavra dada e quebrar a
promessa: ele cuspiu nas instituições e jogou areia nas
engrenagens da máquina que faz a democracia funcionar. Não foi a
oposição que lhe negou os três quintos dos votos do plenário
para prorrogar até 2011 a arrecadação garantida de R$ 40 bilhões
por ano: foi o Senado. Ou seja, o Poder Legislativo. Aliás, o
Poder republicano por meio do qual o povo é diretamente
representado. Mais que voltar atrás na palavra de rei, ele
desrespeitou uma decisão da sociedade, representada pelos
senadores. Os milhões de votos que teve da mesma sociedade não
lhe podem servir de pretexto para tanto, pois a regra do jogo
que ele aceitou jogar quando jurou respeitar a Constituição
prevê a autonomia e a soberania dos Poderes. Da mesma forma que
congressistas e juízes não estão autorizados a interferir em
atos do Executivo, não é lícito que o chefe deste Poder ignore
decisões dos parlamentares só porque estas o desfavorecem.
Por mais que
solapem o crédito ou usurpem do cidadão os escassos ganhos que
havia reconquistado com a decisão de não prorrogar a CPMF, as
medidas anunciadas na virada do ano merecem repulsa e revolta
muito mais pelo atentado que cometem contra o Estado de Direito.
Sempre fiel a seu estilo, o funcionário encarregado de
divulgá-las, Guido Mantega, ministro da Fazenda, disse que o
aumento do IOF no lugar da prorrogação da CPMF era a troca de
“seis por meia dúzia”. A frase reduz ao rés-do-chão a
brutalidade da intervenção autoritária do governo a que ele
pertence, mas não era necessária para que se tivesse noção do
atentado cometido contra as instituições democráticas por um
grupo que, no poder, confunde popularidade com legitimidade e
prestígio com licença para exercer o arbítrio.
O índice de aprovação de Lula,
que chegou a 65% na última medição, não deveria autorizar
pequenas malandragens do gênero, mas fortalecer ainda mais o
senso de responsabilidade que um estadista precisa ter numa
situação dessas. Mas, se a esperteza dele é lamentável, mais
execrável ainda é a incompreensão de setores do Legislativo,
que, em vez de reagirem à altura à afronta, oferecem o flanco
para que o chefe do Executivo o chute de novo. Foi preciso que,
uma vez mais, uma voz autorizada do Supremo Tribunal Federal
(STF) repusesse as coisas em seus devidos lugares para que um
partido da oposição – o DEM – pelo menos franqueasse ao
Judiciário a oportunidade de restaurar os direitos mínimos da
cidadania, esbulhados e achincalhados pelo Estado estróina.
Longe vão os tempos em que parlamentares alinhados politicamente
com o regime militar reagiam de maneira altiva às investidas
autoritárias dos hierarcas do Planalto. Viciado em dizer amém
aos poderosos que têm a chave do cofre da Nação, o Parlamento
ainda não se ergueu para se impor, mas se mantém de cócoras para
continuar devorando as migalhas do banquete em que os donos do
poder republicano se refestelam. A ação direta de
inconstitucionalidade do DEM e o decreto de Álvaro Dias
(PSDB-PR) tornando as medidas sem efeito são indícios de que há,
pelo menos na oposição, sinais de vergonha na cara no Congresso
e o cidadão não está de todo indefeso. Se o ministro Marco
Aurélio Mello estiver certo, o STF a ajudará a acender uma vela
na treva.


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