|
Enquanto Lula fotografava Fidel, o mundo discutia as
primárias nos EUA
Há quem
acredite em duendes e quem espere o desembarque de Papai Noel de
um trenó puxado por renas chaminé abaixo de casa em pleno verão
tropical. O cineasta americano Oliver Stone, o ex-presidente
argentino Néstor Kirchner e o sociólogo brasileiro Marco Aurélio
Garcia crêem no alívio que as Forças Armadas Colombianas (Farc)
trazem ao cotidiano sofrido do pobre camponês de lá. As
evidências de que as atividades políticas desses facínoras, que
tiram seu sustento da produção e comercialização da cocaína e da
manutenção em cativeiro nas piores e mais desumanas condições
das pessoas que seqüestram, são similares às de seu parceiro
brasileiro Fernandinho Beira-Mar não os demovem de sua
fé. Aos 40 anos da morte de Che Guevara e do início das
atividades guerrilheiras das Farc, resta-lhes pouco a crer.
O chefe do professor
Garcia, Luiz Inácio Lula da Silva, presidente de nossa
República, aqui, deu mais uma demonstração pública de sua
pragmática sensatez ao negar, em Havana, qualquer justificativa
de natureza política à evidente violação de direitos humanos
pelas hordas do Tirofijo. Palmas para ele! Mas não consta
que sua frase exemplar tenha inspirado uma posição mais clara do
governo que chefia a respeito da ação criminosa dos traficantes
de cocaína aos quais o vizinho presidente da Venezuela, Hugo
Chávez, pretende dar status de “beligerantes” em nome de seus
bons serviços prestados à revolução bolivariana. Refugiado na
definição das Nações Unidas que atribui a categoria de
“terroristas” apenas aos fundamentalistas islâmicos suicidas da
Al-Qaeda, Sua Excelência mantém o maior país da América Latina
num constrangimento de matar qualquer adversário tucano de
inveja: fica em cima do muro neste assunto, de enorme relevância
para o subcontinente.
Confundindo e misturando suas
simpatias pessoais com os valores da democracia que foi eleito
para dirigir por soberana e maciça maioria popular, o presidente
dedica ao sofrimento dos seqüestrados dos sequazes de Manuel
Marulanda insensível silêncio, similar ao dedicado às vítimas da
tirania de seu amigo Fidel Castro em Cuba. Ao visitar o cubano
em casa, Lula perdeu uma boa oportunidade de testemunhar a farsa
eleitoral realizada domingo passado para compor o Parlamento que
amanhã “decidirá” o destino do anfitrião. Este, mesmo
impossibilitado de fazer suas longas arengas em público, foi
feito deputado por Santiago de Cuba, cidade tida como berço de
sua revolução. E teve a própria higidez atestada pelo hóspede
ilustre, não se sabe se por dotes desconhecidos de clínico ou de
legista.
Se tivesse ficado no
Caribe para testemunhar a “eleição” - ato de vontade que implica
escolher, e não obedecer -, a devoção que tem pelo decano dos
tiranos mundiais talvez não bastasse para impedi-lo de perceber
o ridículo de uma disputa de 614 cargos por... 614 candidatos. E
quem sabe não passassem despercebidas a seu senso de ridículo a
expectativa em torno da “escolha” para a “definição” da sucessão
do ditador e a comemoração pela ministra da Justiça, Maria
Esther Reus, do elevado comparecimento às urnas: 95%.
Esta seria uma excelente
oportunidade para o presidente aprender que os plebiscitos e
referendos capitaneados pelo mais poderoso castrista fora de
Cuba, o venezuelano Hugo Chávez, não asseguram o teor
democrático do poder que ele exerce. Não há democracia sem
eleições, mas a História relata muitas eleições que resultaram
em tiranias que estrangularam a vontade popular, às vezes por
vontade manifesta do próprio povo: são clássicos os casos de
Hitler, na Alemanha, e Mussolini, na Itália. E de farsas
eleitorais realizadas para mascarar ditaduras abjetas. O autor
destas linhas acompanhou, pessoalmente, comícios do paraguaio
Alfredo Stroessner, que sempre “disputou” seu poder em seguidas
campanhas eleitorais das quais não admitia sair vitorioso com
menos de 96% dos sufrágios.
Após verificar ser impossível
falar em eleição (aliás, escolha) num regime de partido único e
de candidato único para cada vaga, cuja grande disputa é pela
votação única (ou seja, que o eleitor não vote apenas em seu
representante, mas nos 614, avalizando a farsa), Lula poderia
cruzar os poucos quilômetros de mar até os Estados Unidos. E
ali, no império execrado por Fidel e Chávez, testemunhar como se
faz uma eleição de verdade para escolher o presidente
constitucional de um país governado pela cidadania há mais de
200 anos. Enquanto os 614 candidatos de Fidel, ele entre todos,
roem as unhas para saber se os 8,1 milhões de cubanos que foram
às urnas domingo referendaram sua condição de membros da
Assembléia Nacional, os dois maiores partidos americanos
promovem suas eleições primárias para escolher os candidatos ao
mais importante posto político da Terra.
Quem não está habituado ao sistema de
escolha do chefe do Poder Executivo na maior democracia do
planeta pode até reclamar do método complicado para eleger os
candidatos e, depois, o presidente. O sistema não é perfeito,
pois a perfeição não está ao alcance do gênero humano. Mas em
sua imperfeição é o que há de mais viável para fazer prevalecer
a vontade do homem comum no comando da mais rica e poderosa
máquina pública de hoje.
Às vésperas de Fidel completar meio
século no poder absoluto, se as limitações biológicas não o
impedirem, Lula teria feito melhor se, em vez de somente
visitá-lo manifestasse o que o resto do mundo tem feito nesta
quadra: alguma curiosidade sobre a escolha do futuro presidente
da maior potência planetária. Pois não é toda hora que se pode
assistir a uma disputa tão parelha nos dois partidos, num raro
pleito de que não participam um presidente ou um vice, como é o
caso deste. Para ele e para nós, seria mais útil que fotografar
um amigo moribundo.


|