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Lula fala demais e maltrata o freguês, mas não perde apoio do
eleitorado
O carisma do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva – ou seu teflon, ou sua
blindagem, seja lá o que for – desafia até o senso comum e a
sabedoria dos mais velhos. Minha avó paterna, Nanita Germano,
dizia duas coisas que a experiência de sua longevidade
confirmara e reconfirmara, mas o presidente tem desmentido
nestes cinco anos de gestão. A velha sertaneja jurava que “em
boca fechada não entra mosquito” e também que “quem fala muito
dá bom dia a cavalo”. Um contemporâneo e como ela natural da
aprazível cidade serrana de Luís Gomes, na serra do mesmo nome,
no Rio Grande do Norte, o comerciante Gaudêncio Torquato, pai do
colega homônimo desta página, ensinava a quem se dispusesse a
ouvir a ancestral filosofia dos mascates: “Quem quer vender ouve
o freguês e diz amém.”
Egresso de outra região serrana
de clima frio no meio do sertão, a de Garanhuns, em Pernambuco,
Sua Excelência, contudo, pisoteia essas tiradas de lucidez e
sabedoria popular com a mesma freqüência com que despreza os
cânones gramaticais. Na semana anterior à folga nacional
generalizada decretada por Momo, o chefe do governo driblou a
coerência (a “virtude dos imbecis”, segundo Chatô, outro “rei do
Brasil”), jogou a lógica aristotélica para escanteio e mandou às
favas o óbvio ululante, sem, contudo, pôr em risco o apoio da
galera nas arquibancadas fiéis.
Lula passou cinco anos
comemorando as constatações periódicas feitas pelo Instituto
Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) de que a devastação da
Amazônia estava sendo detida. Tratava-se de um sofisma
simplório: clareiras abertas na floresta para pastagens ou por
motosserras continuavam devorando a mata virgem, mas a um ritmo
mais lento, como “nunca antes na história deste país”. Com o
mesmo ímpeto com que soltava fogos de artifício às boas
notícias, contudo, ele vituperou contra a fonte delas quando
esta constatou o oposto. Fiel à máxima pragmática que derrubou o
sério diplomata Rubens Ricupero do Ministério da Fazenda do
governo-tampão de Itamar Franco, de que governos alardeiam boas
notícias e tentam esconder as ruins, o presidente cantou sobre o
ovo que parecia bom, mas tratou de esconder no borralho o que
gorou.
No caminho, passou por cima dos
fatos, sem constrangimentos. Diante da constatação do Inpe de
que foram desmatados 3.235 quilômetros quadrados entre agosto e
dezembro do ano passado, o que fez a ministra do Meio Ambiente,
Marina Silva, acionar o alarme, seu instinto de político o fez
convocar imediatamente uma reunião com seis ministros para
tratar do problema. Depois, seguindo sua estratégia de agir sem
pensar muito para não deixar os outros pensarem antes, suspendeu
o crédito concedido a agricultores e pecuaristas dos municípios
onde mais se desmatou. Da noite para o dia, aos pecuaristas e
latifundiários de hábito se juntaram novos vilões: os pequenos
agricultores beneficiados pelo Programa Nacional de
Fortalecimento da Agricultura Familiar. E
resolveu adotar de novo a solução malograda do recadastramento
de 80 mil propriedades, com 100 milhões de hectares. Nada disso,
é claro, vai deter a velocidade da devastação da floresta
tropical, mas também nada disso reverterá sua estratégia do
ziguezague na gestão e, sobretudo, no discurso sobre ela.
Com um estoque inesgotável de metáforas e
um fôlego que deixa a oposição zonza, ele não avançou um
milímetro no rumo do que fazer com uma tragédia que assusta o
mundo (daí os simpáticos ingleses do Guardian terem perdido a
paciência com ele) e fez baixar uma cortina de fumaça sobre o
assunto. Mas não conseguiu ocultar a contradição entre seus
ufanistas programas que dependem da expansão da área agrícola
(dos quais a estrela é o do biocombustível) e a preservação da
mata. Nem esconder a evidência de que o governo federal é, de
longe, o maior latifundiário da região, com 76% das terras da
Amazônia Legal, e não tem idéia de como cuidar delas, como
denunciou, em nota, a Confederação da Agricultura e Pecuária do
Brasil (CNA).
Desconhece sua vocação panglossiana,
contudo, quem imaginou que isso pudesse abatê-lo. Pois, com a
mesma veemência com que açoitou os vendilhões do santuário
ecológico devastado, passou a chicotear os alarmistas que se
assustaram com o aviso do Inpe. Sem se incomodar com a
possibilidade de engolir algum mosquito, quem sabe um
transmissor da febre amarela silvestre, comparou: “Você vai ao
médico detectar que está com um tumorzinho e, em vez de fazer
biópsia e saber como tratar, já sai dizendo que está com
câncer.”
Como se ele não tivesse passado um mandato
inteiro e o primeiro ano do segundo a dar às conclusões do Inpe,
até prova em contrário uma instituição científica de sólida
reputação, foros de ressonância magnética. E prosseguiu: “É como
se você tivesse uma coceira e achasse que é uma doença mais
grave.” Ao abandonar o gramado das metáforas futebolísticas e
fazer diagnósticos médicos, terá ele confundido prurido com
metástase?
Como os ingleses do Guardian não lhe tiram
votos nem os pecuaristas da Irlanda alteram seu prestígio nas
pesquisas eleitorais, no dia seguinte Lula resolveu atacar os
europeus que deixaram de comprar carne brasileira alegando
problemas sanitários que qualquer patrício está cansado de saber
que existem mesmo em nosso rebanho. E, como a autoridade federal
é cúmplice na farta produção de pretextos clínicos para o
protecionismo da clientela externa, o presidente resolveu bater
abaixo da linha da cintura de quem fica do outro lado do balcão,
enxotando as boas maneiras e adotando uma atitude temerária para
qualquer bom negociante, como sabia Gaudêncio Torquato, o pai:
“Eles têm a ‘vaca louca’ e ficam dando palpite aqui.”
Dificilmente perderá um voto com isso, mas, ainda assim, terá
perdido, além da razão, uma boa ocasião de ficar calado.


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