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Disputa de Kassab
com Alckmin torna viável a volta de Marta à Prefeitura
Na última campanha eleitoral pela
Presidência da República, o PSDB tinha tanta certeza de que o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, seria derrotado
pelo escândalo do “mensalão” que o então prefeito da capital,
José Serra, e o ex-governador do Estado de São Paulo Geraldo
Alckmin se engalfinharam numa guerra autofágica pela subida
honra de vencê-lo. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso
chegou a cunhar uma frase aparentemente acaciana, mas que não
resistia, como não resistiu, aos fatos. Em entrevista à revista
Playboy, garantiu que Alckmin era melhor candidato, mas Serra
seria melhor presidente. Ainda não dá para saber se Serra seria
um bom presidente, pois na única vez que disputou perdeu para
Lula. Mas o atual governador paulista já se tinha provado
excepcional candidato ao derrotar a prefeita Marta Suplicy, do
PT, com ela no cargo e tendo sua gestão aprovada no dia da
eleição pela maioria do eleitorado paulistano. A forma
desastrada como Alckmin conduziu a candidatura presidencial no
segundo turno, que caíra do céu por conta da lambança dos
chamados “aloprados”, que produziram um falso dossiê para tentar
derrotar Serra para o governo estadual e favorecer o senador
petista Aloizio Mercadante, deixou claro que melhor candidato
que Serra ele não é.
Em benefício do ex-governador é possível
dizer que, graças à sua pertinácia, ao afastar o oponente da
liça, como fez, ele terminou por prestar um grande serviço ao
próprio partido, uma vez que, não se candidatando à Presidência,
Serra pôde disputar e ganhar – no primeiro turno – o governo do
maior Estado do País. Nunca se saberá se Serra ganharia de Lula,
mas qualquer observador isento verificou que a aposta feita
pelos tucanos na denúncia de corrupção não passou de sonho de
uma noite de verão. E o mais provável é que Lula derrotasse
qualquer um deles, uma vez que o PSDB perdera completamente a
autoridade de empunhar a bandeira da moralidade depois de salvar
a pele de seu ex-presidente nacional Eduardo Azeredo, acusado de
ter fundado o esquema que mais tarde seria usado no âmbito
federal e já tendo como operador o publicitário mineiro Marcos
Valério.
Isso permitiu a Lula e ao PT
darem um banho de estratégia política nos adversários,
facilitado pelo erro tático de Alckmin, que, em vez de defender
a privatização empreendida por seu correligionário Fernando
Henrique, perdeu a oportunidade de ganhar o inesperado segundo
turno ao ficar numa defensiva tíbia e pouco inteligente. Numa
demonstração de clarividência extraordinária, o presidente
isolou os tucanos em São Paulo (já que não havia mais o que
fazer), derrotando-os em 2006 e preparando o terreno para 2010,
numa tentativa de minar o favoritismo dado pelas pesquisas a
Serra.
O que talvez nem os mais otimistas
estrategistas petistas imaginavam é que tucanos e dêmicos fossem
de um egocentrismo tal que terminariam por pôr em risco até esse
bastião em que se instalaram nas últimas eleições, desde que
desalojaram o PT da Prefeitura da capital em 2004. Os antigos
romanos diziam que “errare humanum est, sed in errore
perseverare diabolicus est” (“errar é humano, mas perseverar no
erro é diabólico”). Se na Roma dos Césares houvesse um PSDB ou
um DEM, é provável que eles substituíssem o diabólico por tucano
ou dêmico. Pois a dura batalha entre o ex-governador Geraldo
Alckmin, do PSDB, e o prefeito Gilberto Kassab, do DEM, para
disputar com o PT é a estulta preservação do erro da última
campanha presidencial: um fogo amigo que só poderá levar às
cinzas da derrota.
Quando essa luta começou,
Marta Suplicy nem ousava se candidatar, principalmente depois de
ter presenteado o dístico “relaxa e goza” a qualquer adversário
que concorra com ela por votos. Mas agora a ministra do Turismo
é candidata e as pesquisas, apesar de anunciarem sua derrota no
segundo turno para qualquer um de seus adversários, já
reconhecem claramente suas chances.
Assim como na última campanha presidencial Alckmin inovou ao
usar como puxador de votos seu falecido antecessor, Mário Covas,
desta vez contribuirá para o folclore político ao criar o
“continuísmo sem continuação”. Como PSDB e DEM têm um consórcio
que funcionou em São Paulo muito bem até agora, ele não se
poderá opor à gestão de Kassab, pois, afinal, esta é a
continuidade da de Serra, como dele fora a do citado Covas. Mas,
de igual maneira, não lhe será fácil convencer o eleitorado de
que ele continuará a gestão de Kassab, sendo o próprio prefeito
seu adversário no primeiro turno. É legítimo que o prefeito
queira disputar a reeleição, instituto acrescentado à ordem
constitucional brasileira por um correligionário do
ex-governador, o ex-presidente Fernando Henrique. Alckmin também
se julga no direito de disputar a Prefeitura com as pesquisas o
apontando como pleno favorito. Caberá ao eleitor decidir entre
os dois quem enfrentará a adversária petista no segundo turno e
isso é democrático.
O fato, contudo, é que a
disputa entre Alckmin e Kassab tem produzido tantas arestas nos
dois partidos que lhes dão sustentação e são tradicionalmente
aliados que dificilmente aquele dentre os dois que for derrotado
no primeiro turno arregaçará as mangas pelo vencedor no segundo
para evitar que a Prefeitura caia de volta nas mãos do PT. Desde
Cristiano Machado, o candidato do PSD que foi traído pelas bases
que votaram em Getúlio Vargas, do PTB, em 1950, a chamada
“cristianização” tem feito vítimas muito ilustres na política
brasileira. Caso do dr. Ulysses Guimarães na eleição vencida por
Fernando Collor, por exemplo. Com o apoio de Lula e seus
aliados, Marta Suplicy pode repetir os feitos do presidente e do
governador de São Paulo, passando os favoritos para trás. E, se
conseguir, ainda poderá ajudar Lula a fazer o sucessor em 2010.

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