|
A oposição sem assunto deixa terceiro mandato à mercê só de
Lula
A viagem a Haia, sede da Justiça
internacional, fez bem a nosso presidente e, por extensão,
poderá trazer bons fluidos para o país que governa. Da Holanda o
baiano Rui Barbosa voltou consagrado como a “Águia de Haia”. Na
mesma cidade o paraibano Epitácio Pessoa desembarcou como
jurista e foi escolhido para presidir a República aqui, em crise
com a morte do presidente eleito Rodrigues Alves, paulista, de
gripe espanhola, e a evidente degeneração mental do vice
mineiro, Delfim Moreira. A Nação brasileira espera que o
pernambucano Luiz Inácio Lula da Silva reafirme sua convicção
expressa em palavras que, se não bastam para torná-lo estadista,
pelo menos reafirmam seu compromisso com a democracia. O
presidente acertou na mosca quando disse: “Qualquer pessoa que
se ache imprescindível começa a colocar em risco a democracia.
Pobre do governante que acha que é insubstituível ou
imprescindível. Neste caso está nascendo dentro dele uma pequena
porção de autoritarismo ou prepotência, e isso eu não carrego na
minha bagagem política.”
Nordestina como Rui, Epitácio e Lula, minha avó
Nanita costumava dizer que os cemitérios estão cheios de
insubstituíveis. E também que “quem fala muito dá bom dia a
cavalo”. E, como se sabe, Sua Excelência não leva em muita conta
a coerência, deixando perceber muitas vezes que concorda com a
máxima atribuída ao paraibano Assis Chateaubriand segundo a qual
“a coerência é a virtude dos imbecis”. Além disso, as juras de
amor às instituições pelo chefe de governo não têm sido
acompanhadas de suas reprovações a iniciativas e pronunciamentos
de pessoas próximas a ele. Devanir Ribeiro, seu companheiro de
diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo e ainda
hoje em seu grupo mais íntimo de amigos, continua empinando o
papagaio da segunda reeleição em forma de emenda constitucional.
E o vice José Alencar apelou para o truísmo segundo o qual o
povo deseja que o presidente continue no cargo.
Além disso, o acerto do diagnóstico
não foi produzido a partir de uma exegese coerente. O presidente
trata os adversários do terceiro mandato, com os quais ele diz
concordar, não como “do bem”, mas inimigos, não só dele, mas
mais do povo, que o prestigia nas enquetes de opinião. Estes
teriam apoiado a reeleição de Fernando Henrique (como se ele
mesmo também não se tivesse beneficiado do instituto) e “não
acharam ruim quando os militares ficaram 23 anos no poder ou
aprovaram a reeleição (sic)”. Ao atribuir apenas a quem não o
quer mais no poder a oposição à mudança constitucional que lhe
permitiria disputar novamente o cargo para o qual já foi
reeleito, ele se afasta da sentença sensata de Haia. E se
aproxima de aliados como os prefeitos do PT reunidos em Brasília
e Lawrence Pih, presidente do Grupo Moinho Pacífico, que
confunde deliberadamente popularidade com elegibilidade.
Na verdade, se não é a “Águia de Haia”
como Rui, tampouco Lula seria a única “andorinha de Haia” que
gostaria de manter o permanente verão do continuísmo para a
felicidade geral da parcela da burguesia que nada de braçadas em
sua gestão e do povão empenhado em manter a esmola estatal da
Bolsa-Família. O PT não tem um candidato para derrotar o tucano
José Serra e pretende continuar no poder com Lula, ainda que
seja necessário apelar para a reforma constitucional. Os aliados
de ocasião tudo farão para deixar a coisa como está, pois,
usando uma metáfora futebolística, do gosto do chefe, “em time
que está ganhando não se mexe”. E há ainda a oposição, que, como
disse muito bem o principal interessado, não tem outro assunto.
Aí é que está o busílis do terceiro
mandato. Carecem os sinceros democratas, que apostam nas
instituições e não nos salvadores da Pátria, de uma oposição
política que defenda um projeto partidário coerente e
alternativo ao que levou o ex-dirigente sindical duas vezes ao
posto máximo na República. No PSDB e no DEM, que se dizem de
oposição só por terem saído do governo, sobram projetos
pessoais, mas falta até mesmo um espírito grupal que, pelo
menos, os congregue na caça a um objetivo só. Tudo o que a
oposição conseguiu em cinco anos e quatro meses de governos Lula
até agora foi impedir a prorrogação da CPMF, o que não serviu
nem para fazer justiça aos contribuintes, pois os cofres da
viúva continuam abarrotados com os recordes da arrecadação dos
muitos outros impostos.
O que o antilulismo tem a
apresentar ao eleitorado, agora e em 2010, são os planos
pessoais de seus pretendentes. José Serra só chegou ao governo
do maior Estado da Federação porque foi forçado a ceder a
Geraldo Alckmin a honra de perder a eleição presidencial, e está
no cargo construindo a escada que poderá levá-lo ao topo com que
sonhou em 2006. A impaciência deste seu antecessor no cargo para
estar num posto de destaque o leva a se precipitar numa disputa
eleitoral para a Prefeitura de São Paulo, dificultando a vida do
prefeito aliado e asfaltando a estrada da volta para a ex Marta
Suplicy, do PT. E o principal obstáculo de Serra na corrida
presidencial, o governador de Minas, Aécio Neves, não esconde a
ambição de chegar lá, mesmo que tenha de vender a alma ao diabo
barbudo.
Assim, os órfãos da democracia
real, que acreditam no rodízio do poder e concordam com o
presidente que a ambição continuísta é autoritária pela própria
natureza, vêem-se forçados a se agarrar à tábua de salvação de
uma convicção do chefe do governo, a de que a sensatez manda
desconfiar, como alternativa ao naufrágio. É que Lula tem razão
ao dizer que falta assunto à oposição. Além de espírito cívico,
linha política e desprendimento pessoal. Mas ele também deixa,
de forma oportunista, de revelar que sobram aos interessados em
sua permanência empenho e apoio popular para o golpe fatal dos
interesses de grupo contra as instituições. 

|