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Um de olho só no outro, Kassab e Alckmin não vêem Marta e o
eleitor
Aparentemente, mas só mesmo na
aparência, o apoio do ex-governador e dono do PMDB paulista
Orestes Quércia ao prefeito Gilberto Kassab altera o quadro
eleitoral paulistano decisivamente em favor do pretendente do
DEM à própria sucessão. Mas, se pode ter sido um golpe de
mestre, como muitos acreditam, também deverá trazer prejuízos
inesperados, ao revelar a mentalidade oportunista, amoral,
mesquinha e inescrupulosa que preside as decisões políticas,
principalmente em períodos eleitorais, atualmente vigente no
País todo. E, mesmo que tenha êxito nas urnas, não deve deixar
de ser execrado, por contrariar a esperança geral de que a
coerência não seja totalmente abandonada na política e na
administração pública brasileiras. Na verdade, o lance em
questão não pode sequer ser definido como pragmático, pois a
experiência histórica mostra que nem sempre esse tipo de jogada
leva à vitória final no jogo e, menos ainda, no campeonato das
urnas.
Os inimigos jurados
do PT em São Paulo comemoram a adesão de Quércia a Kassab porque
seu principal trunfo – quatro minutos e meio diários no horário
gratuito da campanha política no rádio e na televisão – se
incorporará ao cacife do prefeito do DEM, e não, como se poderia
esperar, ao da ex-prefeita petista Marta Suplicy. De fato,
trata-se de uma vantagem considerável, até porque não é de todo
errado contar esse tempo em dobro, pois o aliado vai tê-lo e a
oponente o terá perdido. Nesta era do marketing político
eleitoral tempo vale mais que ouro e uma aquisição dessas pode
superar em impacto a de Eduardo Ramos para tirar o Corinthians
do presidente do atoleiro neste ano em que o Palmeiras de seu
principal adversário, o governador paulista José Serra, tem tudo
para ser campeão hoje à noite, no Palestra Itália. A
disponibilidade de tantos minutos pelo PMDB, além de ser uma
prova do equívoco da regra de distribuição do tempo, pois ela
não equivale à preferência do eleitorado por um partido que não
passa hoje de apoio parlamentar preferencial dos grupos que de
fato lutam pelo poder, também representa um risco. Afinal,
dependendo do que o candidato tem a dizer ao eleitor e do que
este gostaria de ouvir dele, excesso de discurso pode até ser
arriscado.
Na disputa pela
prefeitura do maior município do País, contudo, há outro
elemento que concorre mais para a euforia do DEM paulistano e da
parcela do PSDB sob o comando de Serra, que o apóia, que os
áureos minutos nos meios eletrônicos de comunicação: o
isolamento do ex-governador Geraldo Alckmin. Diz-se, com razão,
que Alckmin foi emparedado pelo lance de enxadrista de Kassab. A
questão é: e daí? De que adianta emparedar o ex-governador, se
este já se mostrou obstinado, teimoso e incapaz de aprender com
a própria experiência de dois anos atrás? Em 2006, Serra e
Alckmin subiram ao ringue convencidos de que o presidente
petista já estava na lona e quem ganhasse aquele assalto levaria
o troféu da Presidência. Sabendo-se boxeadores dotados de
chances equivalentes, ficaram de olho um no outro e se
esqueceram de dar uma olhadela na platéia que os julgava. Finda
a luta, o derrotado levou o troféu menor, mas bastante
apreciável, do governo de São Paulo. E ao vencedor coube a
duvidosa batatada de ser derrotado no segundo turno, quando
poderia tê-lo sido logo no primeiro – e só não o foi por culpa
da lambança de rivais aloprados. Que Hilary Clinton e Barak
Obama repitam agora nos Estados Unidos o erro dos tucanos em
2006, tudo bem! Afinal, eles não têm obrigação de saber o que se
passa aqui, nestes trópicos. O fato é que os dois começaram a
disputar a Presidência da República e, envolvidos numa disputa
fratricida das eleições primárias de seu Partido Democrata,
agora correm o risco de esperar o prêmio de consolação do
convite da posse do republicano John Mc Cain.
Mais difícil é entender como Alckmin
continua teimoso a ponto de não entender que sua obsessão só
favorece a adversária petista e que a exumação política de Mário
Covas lhe será agora tão inútil como há dois anos. E Kassab não
percebeu que, se Quércia, que não tinha força política na
capital nem quando governava o Estado, pudesse eleger alguém,
ele mesmo ou outrem de sua trupe disputaria o primeiro turno e,
depois, apoiaria no segundo quem lhe conviesse. Desde que, como
ele próprio disse, levou o Banco do Estado à falência para
eleger seu pesado secretário de Segurança, o dono do PMDB não
conseguiu assumir o comando inquestionável nem de Campinas, de
cuja prefeitura saiu para o estrelato político nacional, do qual
está exilado há muito tempo. E, se é improvável que o apoio de
Quércia leve seu candidato à vitória, é bem mais possível que
sua rejeição faça razoável estrago no cacife eleitoral deste.
Neste embate entre Quércia,
morto político, e Covas, vivo na lembrança de poucos fiéis, pode
ser que o cadáver deste seja inócuo. E a aparição do primeiro
pode terminar funcionando como a evidência que faltava (se é que
faltava!) de que todos os políticos brasileiros perderam, de
vez, quaisquer escrúpulos, como o senador criado por Juca de
Oliveira no teatro, com enorme sucesso. Ao que tudo indica,
Marta, que se condenou ao ostracismo mercê do próprio cinismo do
“relaxa e goza”, pode ressuscitar com a ajuda que lhe dão
Alckmin, incapaz de raciocinar além da própria teimosia, e
Kassab, impaciente por ainda não ter recebido uma senha para
dançar no baile da posse de um dos que estão no topo das
pesquisas
Certo mesmo é que, além de Guilherme
Afif Domingos, que teria alguma chance de levar o DEM paulista
ao Senado em 2010, há outro perdedor prévio no pleito paulistano
e, de resto, no ambiente político nacional: a boa e velha
compostura, que tinham alguns republicanos antes de serem
desmoralizados pelos mensaleiros dos dois lados. 

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