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A responsabilidade por
naufrágios como o do Comandante Sales é do proprietário, dos
tripulantes, dos passageiros e, sobretudo, de quem não fiscaliza
como deveria
É claro que a maior responsabilidade
pelos cadáveres que, uma vez mais, se empilharam no fundo do Rio
Solimões, no Amazonas, nas primeiras horas da manhã de domingo,
cabe ao proprietário do barco que afundou, o Comandante Sales,
Francisco Alves de Sales. Seu desmedido amor ao lucro fácil, a
ganância que o incapacitou a perceber a tragédia anunciada com
um barco lançado à água sem uma tripulação competente para
fazê-lo navegar e com passageiros demais, o que não o permitiram
flutuar, tudo isso é lamentável, execrável, revoltante até.
Grande parte da culpa também deve ser atribuída aos tripulantes,
incapazes de tudo, desde manobrar a embarcação até perceber o
alcance de sua irresponsabilidade em aceitar uma tarefa para a
qual não estavam habilitados. Pode-se argumentar que eram
ignorantes e, ao contrário do patrão, não tinham suficiente
noção do risco a que submetiam os passageiros, que dificilmente
teriam como escapar de um naufrágio acidental.
Mas nesta vez, como, de resto,
em praticamente todas as outras ocasiões em que esse tipo de
tragédia ocorreu nas águas caudalosas da bacia que tem o maior
volume de água fluvial do planeta, falar de acidente é se
acumpliciar com o genocídio, que vem sendo praticado
sistematicamente naquela região abandonada. Em defesa dos
tripulantes é possível dizer que afundaram junto com os
passageiros e, por isso, alguns deles também pereceram. A
justificativa é vã, assemelhada à de quem perdoasse o
voluntarismo do suicida ou a possível alienação do tolo que se
esconde atrás da própria escassez de inteligência, mas por mera
esperteza.
Culpa, embora não tão grande, também
deve ser imputada a todos quantos se aventuraram a navegar num
barco que evidentemente não tinha capacidade para transportar
tanta gente. Os idiotas da objetividade, que, com razão, Nelson
Rodrigues desprezava, dirão que é permanente a navegação de
barcos com carga acima do permitido e que na maioria das vezes
estes chegam íntegros ao porto final e com seus passageiros
ilesos. Mas as mortes nos desastres freqüentes denotam o cinismo
deste argumento.
Mais cínico ainda, meus amigos, meus
inimigos, como reza o verso de Bandeira, é vir a Capitania dos
Portos reclamar do dono da embarcação, por não ter comparecido
para regularizar a situação, como prometera. Neste crime serial,
como em outros anteriores, a autoridade responsável pela
fiscalização de tudo quanto flutua nas águas dos rios da Bacia
Amazônica é cúmplice preferencial do maior responsável. Barcos
como o Comandante Sales naufragam por causa da ganância de seus
proprietários, da irresponsabilidade de seus tripulantes, da
leviandade dos passageiros e, muito também, pela inépcia
incompetente do Estado indiferente e incapaz.

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