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E o presidente pôs fim à exumação da guerra suja usando uma
falácia
O presidente da República pode não
ser um homem letrado nem ilustrado, mas até seus adversários
mais ferrenhos, que não toleram a hipótese do terceiro mandato
nem em pesadelo, devem concordar que ele tem um bom senso
invejável, além de um enorme talento para driblar obstáculos.
Foi o que ele fez, aparentemente de maneira brilhante, na semana
passada, ao encontrar uma solução salomônica para a proposta
inoportuna e insensata feita por seu ministro da Justiça, Tarso
Genro, e seu secretário de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, de
reabrir unilateralmente a Lei da Anistia para punir apenas os
torturadores.
Se cedesse à pressão dos comandantes militares e
desautorizasse os dois auxiliares na cerimônia de apresentação
dos novos oficiais-generais, terça-feira 12, no Palácio do
Planalto, poderia passar a impressão de que carece de apoio da
caserna para permanecer no legítimo posto em que está por
decisão majoritária e soberana do povo brasileiro. Se, ao
contrário, nada falasse, autorizaria uma insensata exumação de
esqueletos da guerra suja, que não se sabe a quem poderia
interessar, mas com certeza não interessa à sociedade nacional
nem, por extensão, à paz em seu governo. O presidente calou na
reunião com os oficiais, mas falou mais tarde em cerimônia no
quartel-general de um dos maiores inimigos dos militares
descontentes com a proposta de Paulo e Tarso: a União Nacional
dos Estudantes (UNE). A escolha do lugar exalta os méritos do
estrategista. A frase cunhada para encerrar o assunto comprova
seu talento inato e invulgar de lidar com as palavras, ainda que
muitas vezes atropele a gramática. Num arroubo digno de fazê-lo
figurar entre os governantes que se celebrizaram pelo estilo
conciliador quando detinham o bastão de mando, de dom Pedro II a
Getúlio Vargas, de Bernardo Pereira de Vasconcelos a Tancredo
Neves, Lula jogou o tema para escanteio num carrinho retórico,
sem machucar ninguém: ele afirmou que era preciso “transformar
os mortos em heróis, e não em vítimas”.
A sentença funcionou como um calmante para os
quartéis inquietos com a reabertura da discussão imprópria. Os
comandantes e seu chefe, o ministro da Defesa, Nelson Jobim,
saíram comemorando o encerramento da discussão e a dupla Paulo e
Tarso não se sentiu desautorizada nem repreendida. Mas a
reencarnação do justiceiro rei hebreu Salomão no ex-dirigente
sindical metalúrgico não passa de um truque impreciso do ponto
de vista semântico, de lógica canhestra e falacioso no ângulo
histórico, embora muito sagaz politicamente. Não há, ao
contrário do que a sentença insinua, oposição entre a condição
de vítima e o heroísmo. Há até muitas vezes uma relação
estreita, embora não obrigatória: nem toda vítima é herói, mas
muitas vezes o herói tem de ser vitimado antes, assim como o é o
mártir.
No caso que serviu de tema à fala
presidencial, quem foi torturado na ditadura militar exige
tratamento de herói da democracia, embora não o tenha sido.
Salvo raras exceções que confirmam a regra, os inimigos da
ditadura militar de direita não lutavam pelo Estado Democrático
de Direito, mas por outra ditadura, de sinal oposto, cujos
exemplos – a Rússia de Lenin e Stalin, a China de Mao, a Cuba de
Fidel Castro ou o Camboja de Pol Pot – são tão próximos de uma
democracia quanto as tiranias de Nero, Calígula, Gengis Kahn,
Hitler, Franco e Mussolini. Houve, sim, heróis da democracia na
resistência civil contra os militares no Brasil – e Lula está
entre eles, pois ajudou a desmoralizar a legislação autoritária
com as greves que liderou, à custa de prisão e pena. Mas nenhum
deles pegou em armas para enfrentar a ditadura.
Ao contrário do que imaginam os ingênuos
que crêem nas versões falaciosas politicamente corretas de que
havia nas ruas das metrópoles e nos sertões do Araguaia mais uma
versão do conflito entre o Bem e o Mal, a idéia de derrubar o
regime autoritário pelas armas não contribuiu para sabotá-lo.
Mas
colaborou para torná-lo mais cruel e talvez mais longevo. A
ditadura durou mais do que era previsto que durasse pelos
oficiais que interromperam o mandato de João Goulart, em 1964,
porque teve a própria fúria contra as instituições nutrida pela
aventura insensata dos que tentaram implantar no Brasil as
idéias insanas do foquismo cubano dos barbudos de Sierra Maestra.
E terminou ruindo sobre os próprios pés de barro, com a ajuda de
democratas de verdade que participaram da difícil reconstrução
das instituições enquanto muitos aventureiros da guerra suja
ainda sonhavam com o sangrento assalto ao poder.
A dupla Paulo e Tarso não está sozinha na leitura
distorcida destes eventos históricos. As comissões de burocratas
que distribuem generosamente dinheiro público à guisa de
remunerar os serviços prestados à luta contra a ditadura prestam
idêntico desserviço à Nação. Não tem sentido subtrair dinheiro
que deveria servir para resgatar a tal da dívida social, à qual
Lula vive se referindo, para pagar indenizações milionárias a
ex-combatentes que optaram pela luta e agora tratam essa opção
imatura, mas consciente, como um investimento, conforme apontou
com lucidez Millôr Fernandes. A notícia da entrada de 175
ex-militares, que logo serão seguidos por mais 425, na Justiça
contra a União para pedir indenização por terem combatido no
Araguaia parece absurda apenas por causa da conclusão equivocada
de que havia algozes, num lado, e vítimas, no outro.
Essa conclusão ganhou foros de verdade
absoluta, sem fundamento histórico algum, pelo uso competente e
cínico da lição dada pelo mago da propaganda nazista, Joseph
Goebbels, segundo quem uma mentira se torna verdadeira se
incessantemente repetida.
Vítima então e herói sobrevivente da luta dos
democratas contra a ditadura, Lula recorreu à falácia para
ganhar apoio e votos. Seria tão bom se deles fizesse melhor
uso!.
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