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Lula se beneficia da adesão habitual e da incapacidade dos
adversários
Diz o presidente nacional do PSDB,
senador Sérgio Guerra (PE), que “a oposição foi revogada, saiu
da moda”. O reconhecimento prévio do malogro neste ano eleitoral
reproduz, com exatidão e sinceridade, a situação política
esdrúxula que o País vive. E também ajuda a explicar tal fiasco,
pois a autocondenação à morte mostra que o prócer, a exemplo dos
colegas de bancada, sabe que o galo cantou, mas não tem idéia de
onde fica o poleiro do qual todo dia este saúda o Sol. O
desabafo de Guerra traduz desalento e é também uma confissão de
impotência, que resulta da própria incompetência, não apenas
para combater o fenômeno que a tirou de moda, mas também para
compreender a cena política, condição básica para que a partir
de tal compreensão se esbocem as linhas-mestras para enfrentar e
resolver o problema. A maior tragédia da oposição brasileira
hoje não é a eficiência do governo, mas a própria ineficiência
para perceber e atuar.
O patamar a que galgou o presidente Luiz
Inácio Lula da Silva – de 64% de popularidade, segundo a última
pesquisa Datafolha – não pode ser produto apenas de sua inegável
sorte: resulta também de sua capacidade rara de se comunicar com
os segmentos mais pobres e numerosos da população. Para isso usa
a própria vivência e, da mesma forma, recorre a uma intuição
admirável. Além da fortuna, a virtude de saber conciliar o levou
ao governo depois de três derrotas seguidas em duas disputas
contra o tucano Fernando Henrique e outra com o alagoano
Fernando Collor. Isso não é inusitado na história política do
Brasil independente. À capacidade de dom Pedro II de atender a
liberais e conservadores – facilitada pelo fato de que, segundo
glosava uma quadrinha popular no século 19, nada mais igual a um
saquarema que um luzia no poder, apelidos jocosos dados pelo
povo aos grupos que se revezavam no poder no Segundo Império –
deveu-se a longevidade de seu reinado. Do talento do gaúcho
Getúlio Vargas para reunir grupos na aparência antagônicos sob
seu tacão - os latifundiários do PSD com os proletários do PTB -
dependeu outra bem-sucedida aliança, tal como a primeira fundida
no chumbo em que se imprimia o Diário Oficial: a conciliação
pela via da nomeação.
A diferença entre nosso atual caudilho e os
modelos históricos aqui lembrados é que ele realizou a primeira
conciliação antes de alcançar o poder, ao submeter à disciplina
partidária e a seu comando carismático grupos antes
irreconciliáveis da esquerda armada, ao lado de lideranças
sindicais e líderes da esquerda eclesiástica. Sob o estandarte
socialista da mudança de “tudo o que está aí”, mas com um
discurso conservador na economia, para não afugentar o voto da
classe média e da classe operária especializada, ele subiu a
rampa do Palácio do Planalto. No poder, mesmo não sendo um
profundo conhecedor da história política nacional, aproveitou-se
magistralmente das lições dos grandes conciliadores,
radicalizando experiências de união nacional que já tinham sido
ensaiadas, mas nunca levadas a cabo até o ponto em que ele as
praticou. Foi além de Eurico Dutra e do próprio Getúlio, que
montaram Gabinetes de união nacional. E conseguiu de antigos
adversários políticos aparentemente inconciliáveis – de egressos
da ditadura, como Paulo Maluf, José Sarney e Delfim Netto, a
fisiológicos notórios, como Severino Cavalcanti, Jader Barbalho
e Renan Calheiros – o que negara a Itamar Franco no grande
acordo feito na pós-queda da República de Alagoas. De fato, essa
mentalidade de mosqueteiros de fancaria (“todos por cada um e
ninguém pelo povo”) se repete monotonamente nos palácios
brasileiros desde a Independência. Mas Lula lhe deu consistência
e vigor: Fernando Henrique, seu antecessor também nisso (os
quadros de seus dois governos repetem-se no atual numa monotonia
enervante), jamais teria estômago para fazer a defesa vigorosa
que o presidente faz de políticos e práticas inconfessáveis: de
Severino Cavalcanti aos “mensaleiros”.
Lula ganhou a
primeira eleição prometendo ser diferente dos adversários e a
segunda, garantindo que estes eram farinha do mesmo saco onde
escondeu seus companheiros apanhados em flagrante em delitos
catalogados ao longo de todo o Código Penal. Para isso contou
com a ajuda dos opositores, que lhe entregaram as batatas da
vitória no instante em que se negaram a sacrificar a cabeça do
então presidente nacional do PSDB, Eduardo Azeredo (MG),
flagrado em crime idêntico aos de que foram acusados
“companheiros” do quilate do ex-presidente do PT do presidente,
José Genoino, e de seu principal organizador, José Dirceu. A
elite oposicionista, incapaz de enxergar um palmo além dos
narizes empoados de seus baluartes, não foi capaz de compreender
o fato.
Lula não dormiu
sobre os louros do triunfo nas urnas, conseguido pelos próprios
méritos e pela incompetência dos adversários: seu oponente,
Geraldo Alckmin (PSDB-SP), conseguiu o feito de ser menos votado
no segundo turno que no primeiro. E no segundo governo faz mais
do mesmo, ao repetir a fórmula testada e aprovada de encher os
cofres dos banqueiros e a barriga dos miseráveis. Essa fórmula
mágica, capaz de içar candidaturas municipais do limbo ao topo
(como as de João da Costa, no Recife, e Luiz Marinho, em São
Bernardo do Campo), produz efeito de avalanche ameaçando
sepultar os sonhos oposicionistas de voltar ao Planalto em 2010.
Mas, a bem da verdade, Lula nada tem que ver com a lambança de
seus adversários Geraldo Alckmin (PSDB) e Gilberto Kassab (DEM),
únicos responsáveis pelo oxigênio injetado na candidatura
petista de Marta Suplicy no maior município do País. A eleição
paulistana prova que a oposição sai da moda por méritos de Lula
e deméritos próprios. Doses de adesão alheia e da falta de visão
dela mesma é que podem vir a revogá-la.
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