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A defesa do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP),
terça-feira, foi um dos momentos mais constrangedores
testemunhados por este veterano repórter político, habituado ao
cinismo dos políticos por dever de ofício. Por mais
distanciamento que o profissional da comunicação seja obrigado a
ter das fontes com que se relaciona, seria um excesso de
insensibilidade não sentir vergonha ao acompanhar um ancião com
um currículo que inclui uma passagem pela presidência da
República e duas pelo comando do Senado Federal reunir
argumentos pueris e insustentáveis, com voz trêmula e
gaguejante, como um colegial despreparado respondendo a uma
questão sobre tema que não estudou na prova oral.
O orador atropelou os cânones do comportamento esperado
de um senador, palavra portuguesa oriunda do termo latino
senior, o mais velho, não no sentido do mais longevo, mas,
sim, do mais experiente, do mais vivido, do mais capacitado, em
suma. Os antigos romanos se deixavam governar por esses
conceitos e, é claro, desde então a definição etimológica
sucumbiu aos pecados, vícios e defeitos comuns no gênero humano.
Isso explica, mas não justifica, a postura - entre tatibitate e
pernóstica - adotada pelo varão, ao se defender da tribuna
perante seus pares.
Essa defesa de Sarney não pode ser definida como inconsistente,
de vez que ela simplesmente inexistiu. Tendo ouvido em algum
lugar que a melhor defesa é o ataque, ele preferiu cobrar de
volta a ter de apresentar alguma evidência de sua inocência das
acusações que lhe são feitas. Diante da impossibilidade de negar
a conexão que obviamente tem com a nomeação do neto, substituído
pela mãe deste, num emprego concedido de forma clandestina,
entre outras coisas, ele optou por adotar o velho lema do
autoritarismo coronelista sertanejo: “Vocês sabem com quem estão
falando?” Ou melhor: “Vocês não sabem com quem estão falando”.
Como o menino traquinas, flagrado com as mãos cheias de
penas, tentando negar ao pai que matou o passarinho, o velho
senador pôs o dedo em riste no nariz de todos os brasileiros
perplexos com a farra da cota de passagens, o abuso do auxílio
moradia e, principalmente, os atos secretos configurando a
existência de um Senado clandestino. E apelou para a própria
sorte, como se ela pudesse eximi-lo dos erros que cometeu ou
avalizou, ora denunciados. “É injusto cobrarem isso de um homem
que fez tanto pelo País” – foi o ponto capital de sua fala. Não
permitiu apartes. Evidentemente, nenhum de seus nobres pares
teria coragem e discernimento para lhe perguntar o que teria
feito de tão relevante e útil para o Brasil para se tornar
merecedor da inimputabilidade, que não pode ser dada a cidadão
nenhum. Mas a esperteza o impediu de correr esse risco.
Sem as obrigações regimentais nem sociais dos varões da
República por ele presididos, venho cobrar aqui: “vá contando aí
o que fez pelo País, senador Sarney”. Terá ele arriscado a vida
pela pátria nas horas intermináveis do bate-papo cordial nos
cafezinhos do parlamento? Consta de sua biografia a passagem
pelas masmorras de uma ditadura por ter travado o bom combate da
luta pela manifestação livre da cidadania? Terá ele doado sua
fortuna pessoal a alguma instituição de benemerência ou mecenato
reconhecidos? Sabe-se que Sua Excelência, filho de um modesto
juiz de província, acumulou razoável pecúlio e frequentou com
assiduidade invejável os banquetes servidos pelos maiorais da
República nos regimes a que serviu: a ditadura militar, cujos
conceitos representou na condição de presidente do partido
serviçal; a Nova República, na qual herdou o poder maior por uma
peça pregada pelo destino à Nação, que esperava ver no lugar o
titular da esperança, e não seu reserva e beneficiário; e agora
a república petista, da qual é insigne servidor, como patrono de
causas indefensáveis e paraninfo do gozo pelo gozo do poder.
Não tivesse a sorte, que sempre o bafejou na carreira
política, produzido, além da glória, a cegueira para tudo o que
não diga respeito a si próprio, a seus parentes, amigos,
afilhados e apaniguados, o poeta, romancista e tribuno José
Sarney poderia ter dado destino mais digno a sua peroração.
Idoso, tendo cruzado o Cabo da Boa Esperança, poderia
verbalizá-la, atirando-se temerariamente à luta pela
reconstrução das instituições democráticas, desafiadas pela
popularidade e pelo despreparo daquele que hoje comanda o seu e
os nossos destinos. Teria, com isso, o velho timoneiro, auferido
mérito, não para cobrar da Nação seus préstimos de homem
público, que são dever e não prerrogativa, mas, sim, para dar a
guinada espetacular capaz de salvar sua biografia do naufrágio
que a espera, sob a areia movediça e ondas de lama em que o
Poder Legislativo, do qual é dignitário, se afunda.
O orador desta terça-feira no Senado, recebido pelos
colegas com um silêncio sepulcral, é uma assombração perdida num
casarão colonial brasileiro. Mas uma assombração insepulta: no
Brasil do “quem cala consente”, seu silêncio cúmplice lhe
concede fama, prestígio e poder.

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