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Mel Zelaya está
em Honduras porque Chávez quer e Lula garante proteção
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva é um gênio da política e
disso não dá para duvidar. Reconhecer essa verdade, contudo, não
esclarecerá se ele foi sincero (e, portanto, de um
desconhecimento sesquipedal dos fatos) ou se apenas destilou um
gosto peculiar pela ironia quando, na Cúpula América do
Sul-África, execrou “retrocessos” institucionais em nosso
continente – caso da deposição de Manoel Zelaya. Pois o fez ao
lado do tirano líbio Muamar Kadafi, no poder há 40 anos, e do
ditador de Zimbábue há 29 anos, Robert Mugabe. Falar em ironia
no episódio chega a ser um cruel acinte à memória das vítimas de
tantas ditaduras que prosperaram na América Central à sombra das
bananeiras em flor. E, justiça seja feita, se se trata de mera
ignorância, ela teria de ser imputada também a vários colegas de
Lula, entre os quais o americano Barack Obama. Sem falar nos
coleguinhas jornalistas que, rejeitando os fatos, classificam de
“golpista” o governo de facto de Honduras.
Mel, como é apelidado o latifundiário eleito pela direita que
aderiu ao bolivarianismo de Hugo Chávez, foi deposto, é verdade,
e não submetido a um processo regular de impeachment, como o foi
o primeiro presidente brasileiro eleito pelo voto popular depois
da ditadura militar de 1964, Fernando Collor. Isso ocorreu,
porém, à luz do ignorado artigo 239 da Constituição de Honduras,
que reza peremptoriamente: “O cidadão que desempenhou a
titularidade do Poder Executivo não poderá ser presidente ou
vice-presidente da República. Quem quebrar este dispositivo ou
propuser sua reforma, assim como aqueles que o apoiem direta ou
indiretamente, terá de imediato cessado o desempenho de seu
respectivo cargo e ficará inabilitado por dez (10) anos para o
exercício de qualquer função pública.”
Collor nem
sonhou tentar o que Zelaya tentou: mudar a Constituição e
convocar um plebiscito para permitir sua permanência no cargo,
ao arrepio do Congresso e da Justiça. O ex-presidente hondurenho
pediu apoio aos militares e, não o tendo obtido, demitiu o
comandante das Forças Armadas. A Justiça mandou depô-lo,
empossou o presidente do Congresso e não permitiu que ele se
vestisse, embarcando-o de pijama para o exterior. O mundo
inteiro se revoltou com a desfaçatez dos “golpistas” de Honduras
por crassa ignorância das regras constitucionais vigentes num
país minúsculo e miserável. Teceu-se, aí, com rapidez, a cortina
de fumaça do governo “golpista” e do “martírio” do presidente
eleito pelo povo e deposto por militares num novo e típico
pronunciamiento latino-americano.
No afã de não repetir Bush, Barack Obama, assessorado por madame
Clinton, absolutamente jejuna em quaisquer assuntos ao sul do
Rio Grande, condenou a deposição, mas depois foi tratar de
problemas mais relevantes. Com o “não temos nada com isso” dos
xerifes do mundo, tudo se encaminhava para uma solução simples e
cômoda do episódio: as eleições presidenciais poderiam ser
realizadas e a paz democrática voltaria a reinar naquele antigo
pedaço do império da United Fruit Company.
Aí entrou em ação o coronel golpista Hugo Chávez, que despachou
de volta para o centro dos acontecimentos o presidente deposto.
Este cruzou a fronteira, mas voltou por cima dos pés para, em
seguida, empreender uma entrada espetacular em Tegucigalpa,
mercê do engenho estratégico do amigo venezuelano e do peculiar
conceito sobre democracia da companheirada brasileira. Dirigente
sindical no fim da ditadura militar, quando o general Geisel
cunhou sua “democracia relativa”, Lulinha Paz e Amor inventou a
“democracia de conveniência”, adaptação petista da sentença de
Artur Bernardes: “Para os amigos, tudo; para os inimigos, o
rigor da lei.” Ahmadinejad roubou a eleição no Irã? Isso não
interessa ao Brasil, que não pode intervir na soberania
iraniana. Ahmadinejad nega o holocausto? O fato de sermos amigos
não nos força a pensarmos da mesma forma.
Mas o
mesmo não vale para Honduras, que não tem projeto bélico nuclear
nem bate boca com o vilão ianque. E foi assim que, quando o
mundo inteiro esperava um banho de votos para lavar a mauvaise
conscience pelo completo desconhecimento internacional das
regras constitucionais hondurenhas, o governo brasileiro, para
apoiar Chávez, foi à caça do apoio de tiranos africanos para
repor Mel Zelaya no poder. Para tanto mandou às favas todas as
regras do civilizado convívio internacional. Como nunca antes na
história deste planeta, abrigou na “embaixada” brasileira não um
fugitivo de um regime ditatorial, mas alguém que decidiu impor a
própria vontade de continuar mandando em casa, sem dar bola para
as instituições e a opinião pública locais. Esses episódios
sempre terminam com um salvo-conduto ao abrigado na embaixada e
seu asilo pelo país que o hospedou. Mas este não pode ser o
caso: Zelaya não quer fugir de Honduras, mas ficar lá, sob a
proteção de Lula, porque Chávez mandou.
O
absurdo não para por aí. Lula tem exigido respeito absoluto ao
território brasileiro da “embaixada” depois de ter chamado o
embaixador de volta e mantido em Tegucigalpa apenas um
encarregado de negócios. O governo de facto ainda não ocupou o
prédio só para evitar pretextos intervencionistas, pois, como
não reconhece a autoridade “golpista”, o Brasil não tem mais
embaixada em Tegucigalpa.
O
ex-chanceler mexicano Jorge Castañeda tem razão ao se dizer – em
entrevista a Lúcia Guimarães no caderno Aliás deste jornal, no
domingo – espantado com a intromissão brasileira em Honduras.
Estamos é fazendo um banzé brasuca estúpido em terreiro alheio,
que, aliás, não tem interesse nem importância nenhuma para nós.
Ao mundo, que tenta se esconder do vexame de ignorar as regras
da democracia de um país pobre, o Brasil parece bater no peito e
proclamar com arrogância: “Sou ignorante, sim, mas quem aí não
é?”.

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O
jornalista, poeta e escritor José Nêumanne Pinto fez palestra numa das
salas de congressos do Maksoud Plaza Hotel, em São Paulo, na terça-feira
16 de junho de 2009, à tarde, durante o Seminário Brasileiro sobre
técnicas de comunicação social, promovido pela Dalupe Promoções para
secretários de comunicação e imprensa de prefeituras municipais e órgãos
públicos. Convocado a discorrer sobre “A imagem da comunicação oficial
na visão da mídia (grande imprensa)”, ele mostrou como, em vez de
chefiar um governo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva comanda, na
verdade, um grande projeto de comunicação de massas, com a ajuda de seu
ministro mais eficiente, o jornalista Franklin Martins. Segundo Nêumanne,
ambos realizam o “sonho dourado de Josef Goebbels”, o mago da propaganda
de outro grande demagogo, o ditador nazista alemão Adolf Hitler, que era
o de impor a própria verdade pela repetição exaustiva de ideias e
conceitos. |