Caso não visualize adequadamente esta edição. Clique aqui!

Seja bem-vindo à Estação Nêumanne!

 

 

 

 

 

 

 

         Ainda me lembro bem do refrão da marchinha de carnaval: “Ca-ca-ca-careco, cacareco, cacareco é o maior”. Mais que um fenômeno eleitoral, tendo obtido cerca de 100 mil votos para vereador da Câmara Municipal de São Paulo em 1958, o rinoceronte mais popular da história do Jardim Zoológico da maior cidade do País tornou-se um ídolo, uma espécie de ícone do protesto político. Sufragado no ano em que o Brasil venceu na Suécia pela primeira vez na história o campeonato mundial de futebol, que valeu a posse provisória da Taça Jules Rimet, em que nosso time de basquetebol também trazia para cá troféus significativos e que o pugilista Éder Jofre cingia o cinturão de campeão e era chamado de o Galo de Ouro, Cacareco pode ser visto desde então como símbolo óbvio da crise de representatividade de nossa democracia. O protesto popular ganhou dimensões históricas: afinal, o partido mais votado para aquele pleito não atingiu 95 mil votos e nenhum dos 450 participantes oficiais chegou perto do resultado da brincadeira do jornalista Itaboraí Martins que, revoltado com o nível dos pretendentes à vereança, fez campanha pelo bicho. Isso só foi possível porque nos anos 50 o eleitor escrevia na cédula eleitoral o nome de seu candidato. Mas mesmo hoje, sob a égide da urna eletrônica em que o máximo de protesto permitido ao eleitor é anular o voto, não é fácil para os mais populares candidatos à Câmara Municipal paulistana superar o feito do rinoceronte.
           Três anos antes da façanha de Cacareco, outro animal havia sido votado para vereador na cidade de Jaboatão dos Guararapes, na Grande Recife. O Bode Cheiroso, célebre por gostar de passear nos trens de subúrbio exalando o odor forte característico dos machos caprinos, obteve quatro votos para sua candidatura, lançada pelo PDC. Na edição de seu Almanhaque correspondente ao segundo semestre de 1955, ao anunciar sua volta, o gozador inveterado Barão de Itararé comentou que a baixa votação do popular, apesar de nada perfumado, bicho não se deveu a seu desprestígio social no município, mas à confusão do eleitorado por causa da sigla de seu partido, confundido pela maioria com alguma dissidência do Partido Democrata Cristão comandada, conforme lembrou Aparício Torelly, pelo conhecido Padre Arruda Câmara. O engano – fatal para o inusitado candidato – escondeu a real denominação da agremiação: Partido das Cabras. Como o feito do rinoceronte paulistano valeu marchinha de carnaval, o Bode Cheiroso de Jaboatão foi homenageado num sucesso regional de Elias Soares e Fernandes.

 

 

       
          O cordelista Delarme Monteiro da Silva também teve seus versos a respeito do bode trânsfuga cantados nas feiras livres do sertão no folheto “A vitória de Cheiroso, o bode vereador”. A primeira estrofe demonstra de maneira inequívoca a sabedoria do poeta popular ao traduzir em palavras simples uma acurada análise política e sociológica: “Com esse aperto de vida / o povo que nada pode / prá se esquecer da fome / leva tudo no pagode / agora, na eleição / nas urnas de Jaboatão / o povo votou num bode”.
          Esta análise serve para justificar fenômenos como Cacareco o Macaco Tião, um chimpanzé que era bastante querido pelas crianças e outros frequentadores do Jardim Zoológico do Rio de Janeiro e foi assim batizado em homenagem ao santo padroeiro e que dá nome à cidade escolhida para sediar a Olimpíada de 2016 - Sebastião. Segundo a Wikipédia, “com 1,52m de altura e 70kg, o Macaco Tião tornou-se uma celebridade no Brasil depois que os humoristas do Casseta e Planeta lançaram a sua candidatura não oficial à Prefeitura do Rio de Janeiro em 1988, aos 15 anos de idade. O Macaco Tião teve naquele pleito mais de 400 mil dos votos dos eleitores (9,5% do total), e ficou em terceiro lugar, em posição melhor do que outros candidatos humanos. Obviamente, como Tião não era um candidato reconhecido pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE), todos os votos dados a ele foram considerados nulos”.
         O Macaco Tião morreu 11 anos depois de seu feito, a urna eletrônica impediria sua votação nos dias de hoje, mas o Brasil está muito longe de se ter livrado da crise da representação popular no Poder Legislativo, que, em teoria, representa o cidadão. Os fenômenos do Bode Cheiroso, de Cacareco e do Macaco Tião ocorrem em nossos dias na forma de candidatos sem expressão nem definição política, cujo caso mais clássico foi Enéas Carneiro, cardiologista de feições peculiares que obtinha votações espetaculares e elegia bancadas de miseráveis do voto protestando contra a distribuição do tempo no horário gratuito na televisão com seu bordão dito aos berros: “Meu nome é Enéas”.
        Do rinoceronte (bicho escolhido por Ionesco para protagonizar uma de suas peças do teatro do absurdo) aos humanóides que mendigam nossa atenção nos programas dos partidos políticos hoje, a lógica do protesto é a mesma. Incapaz de mudar a regra do jogo, guardada na Caixa de Pandora dos chefões partidários, o cidadão escolhe o impossível para exibir sem nenhum pudor sua impotência e sua indignação
.

© Diário do Comércio, da Associação Comercial de São Paulo, segunda-feira, 5 de outubro de 2009

 

 

 

 

  imprimir este artigo | Indicar a página para amigos

De acordo com a legislação em vigor, esta mensagem não pode ser considerada SPAM por possuir: identificação do remetente; descrição clara do conteúdo; e opção de remoção. Se você não deseja mais receber mensagens como estas, envie-nos novo e-mail, colocando em ASSUNTO, a palavra RETIRAR. Webdesigner: