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Atual
geração de estadistas pigmeus põe em risco nosso futuro
Naquelas históricas assembleias
gerais dos operários metalúrgicos de São Bernardo do Campo
no Estádio de Vila Euclides na segunda metade dos anos 70 do
século passado, o presidente do sindicato, Luiz Inácio da
Silva, que ainda não havia incorporado o apelido Lula ao
sobrenome, forjou um estilo ao qual foi fiel e que ao longo
dos anos aperfeiçoou com esmero. Ele tinha dois
lugares-tenentes, Osmar Mendonça, o Osmarzinho, e Enilson
Simões de Moura, o Alemão. Encarregava cada um de defender
uma posição e, enquanto os dois discursavam, Lula observava
atentamente a multidão lá do alto do palanque. Somente
quando tinha certeza absoluta sobre qual seria a posição a
ser adotada para agradar a plateia dava a palavra final. Ali
ele subverteu a ordem monolítica, mas frágil, da ditadura
militar, que logo depois desabaria, e também inverteu o
sentido original da palavra líder, não mais alguém que
conduz a massa, mas quem se deixa por ela conduzir. Non
duco, ducor.
Os longos anos de militância no PT, na
oposição em plena democracia, frágil como a ditadura que
sucedeu, ainda que parecesse inquebrantável, o retirante de
Caetés, Pernambuco, tornou-se aos poucos o mais manhoso e
bem-sucedido político da História do Brasil por aprimorar a
arte de adular a massa para permanecer no topo. É um estilo
de mando que contraria o dístico latino usado para definir o
orgulho paulista. Tal como citado na última linha do
parágrafo anterior, não mais o “não sou conduzido, conduzo”
dos bandeirantes, dos coronéis, dos estancieiros e mesmo dos
mineiros manhosos do PSD, mas um esperto “não conduzo, sou
conduzido”, que garante a permanência no alto das pesquisas
de prestígio popular. Adular o povo é o jeitinho mais
eficiente e menos perigoso de perpetuar seu excelente
emprego, que garante fama e fortuna fáceis e um bando de
bajuladores ao redor por muito mais tempo do que jamais
poderia sonhar algum pretendente ao exercício pleno do
mando. Trata-se de um meio extremamente inteligente e sem
riscos de exercer o poder e garantir satisfação especial
para si mesmo, a família, os amigos e os compadres sem ter
de adotar uma decisão difícil, angústia que sempre incomodou
o repouso dos guerreiros que de fato comandam.
Os altos índices de
popularidade alcançados por Lula, como não o foram “nunca
antes na História deste país”, não são, contudo, um fenômeno
paroquial, uma esquisitice tropical num universo estranho.
Como se sabe, noço guia providencial dos povos da
floresta, da roça, do açude e da transposição do Rio São
Francisco é o cara (man) do homem mais poderoso da
Terra, Barack Obama. Há entre o menino que teve o picolé
recusado pelo pai sob o pretexto de que não sabia chupar e o
primeiro mulato a ocupar a presidência dos Estados Unidos da
América muito mais afinidades do que pode supor nossa vã
historiografia. Mas isso não se tem comprovado em seus
sucessos evidentes, e, sim, em seus fiascos ocultos. Como
esse sofrido por ambos na Conferência do Clima em Copenhague
semana passada.
Protagonistas de reuniões que partem
de intenções magníficas e terminam em nulidades tenebrosas,
ambos fazem parte de uma geração de estadistas pigmeus que
de tanto se preocuparem com o que oferecer aos eleitores nas
próximas eleições se esquecem do mundo que estão destruindo
para as próximas gerações. Os dois se assemelham ao
descendente de húngaros Nicolas Sarkozy, que só se aproxima
do corso Napoleão Bonaparte na estatura física,
distanciando-se do exemplo de antecessores em seus postos.
Como Abraham Lincoln, que fez a guerra civil para garantir a
unidade da confederação americana, e Dom Pedro II, sob cuja
égide foi consolidado o domínio dos brasileiros sobre este
território semicontinental onde estamos instalados.
Tanto eles quanto outros conduzidos que se
fazem de condutores – Sílvio Berlusconi na Itália, Angela
Merkel na Alemanha, etc. e tal – são hábeis comunicadores,
capazes de encantar e engabelar as massas, mas inaptos para
por em prática o verdadeiro sentido de governar: escolher
metas a cumprir e persegui-las. Obama tem a habilidade de
encantador de serpentes quando discursa. Lula põe as velhas
raposas felpudas da política brasileira nos chinelos quando
se trata de dizer a um interlocutor o que ele quer ouvir,
seja individual, seja coletivamente. Mas nenhum dos dois tem
a ousadia de enfrentar adversidade alguma para traçar o
caminho a seguir, seja para resolver os impasses do comércio
internacional, seja para evitar a tragédia ambiental que se
abaterá sobre nós se providências não forem adotadas. Aos
problemas que surgem respondem: “não é comigo.” Aos que
podem postergar reagem: “resolveremos no ano que vem.”
Foi isso que ocorreu em Copenhague,
como antes já havia acontecido na rodada Doha. Lula dá
lições de moral ao resto do mundo em matéria de preservação,
mas não põe fim à destruição da Amazônia com uma simples
proibição de queimadas e cortes pelos bandidos
internacionais da motosserra. Falta-lhe coragem para fazer o
que deve, mas lhe sobram argumentos para transferir a culpa
para os outros. Neste mundo em que vivemos, Obama teve o
topete de defender a guerra no habilíssimo discurso que fez
na solenidade em que recebeu o absurdo Prêmio Nobel da Paz.
Essas vacas de presépio que se fingem de
pastores de rebanhos repetem a geração de eunucos que
permitiu o avanço de Hitler e Mussolini no período entre as
guerras. Em pleno século 21, o mundo está a precisar que
surja um novo Winston Churchill, um líder no sentido
verdadeiro da palavra (condutor), temerário a ponto de
prometer “sangue, suor e lágrimas” a seu povo para,
contrariando-o e provocando-lhe dor, fazê-lo emergir
sobrevivente e orgulhoso da devastação de uma guerra
mundial. .
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